Bandeira Vermelha e Negra da FASP

Bandeira Vermelha e Negra da FASP
Bandeira da Federação Anarquista de São Paulo

"Feliz Natal a Todos"

"Feliz Natal a Todos"
São os votos da Federação Anarquista de São Paulo e de seus 21 Grupos de apoio pró FASP. Que no Ano de 2010, as Juventudes Libertárias reinem junto ao Sagrado Coração. A FASP agradece, em especial aos militantes que nunca deixarão de estar ao lado das lutas dos estudantes e trabalhadores. Viva a nossa Utopia, que viva a Anarquia, que não faltem skate, nem presentes as crianças deste mundo de sonhos. Por uma Espiritualidade Libertária.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Cristianismo Libertário



A Era Cristã

"... Quando a mentira acabar ..."
MPB

- Arcanjo Miguel, o que foi que você me aprontou ?

- Um Cristo Pregado na Cruz.

- Arcanjo Miguel, porque você fez isto ?

- Porque o Rei Eduardo pisou e furou o pé e a mão em pregos no Bairro do Jaçanã.

- Arcanjo Miguel, não se faz isto com um Espírito Santo.

hóstia Consagrada


Noz do núcleo Cristão Libertario, olhamos por voz.
E o mundo todo olha para o bairro do Jaçanã, em São Paulo.

E desejamos um Feliz Natal a todos, e que em 2010, a mentira e toda maldade cometida, desapareça do mundo.


Desenho capa do dvd: Marcelinho pão e vinho
Pão e vinho, entende-se Prodhon e Bakunin.

Do núcleo Cristão Libertario.
em apoio a FASP

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Fundação da Federação Anarquista de São Paulo - FASP

ESTATUTO SOCIAL DA
FEDERAÇÃO ANARQUISTA DE SÃO PAULO
Leis 10.406/2002 e 11.127, de 28 de junho de 2005.

ARTIGO 1º - DENOMINAÇÃO, SEDE, FINALIDADE E DURAÇÃO

A Federação Anarquista de São Paulo, neste estatuto designada, simplesmente, como FASP e ou Associação, fundada em data de 26 de Julho de 2008, com sede nesta capital Cidade de São Paulo do Estado de São Paulo é uma associação de direito privado, constituída por tempo indeterminado, sem fins econômicos, de caráter organizacional, político, social, educacional e cultural, sem cunho partidário, com a finalidade de atender a todos que a ela se dirigirem, independente de nacionalidade, sexo, raça, cor ou crença religiosa.

ARTIGO 2º - SÃO PRERROGATIVAS DA ASSOCIAÇÃO:

No desenvolvimento de suas atividades, a Associação observará os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, economicidade e da eficiência, com as seguintes prerrogativas:

I. A finalidade da Federação Anarquista de São Paulo é estimular, apoiar promover
nos meios populares e principalmente, entre associações comunitárias onde
estudantes e trabalhadores, estejam com possibilidades de cultura e educação
limitadas por toda espécie de empecilhos, o estudo de todos problemas que se
relacionam com a questão social.
II. Mantendo-se à margem de qualquer política partidária, a Federação Anarquista
de São Paulo trabalhará para desenvolver nos meios populares o espírito de
solidariedade de classe, para que se forme um ambiente social onde se alimente,
sempre em maior grau, os elementos favoráveis à elevação da personalidade
humana física e moralmente, cultural e profissionalmente e; por isso, condena
todas as formas de tiranias, que prejudiquem as liberdades individuais e coletivas;
todas as formas de exploração que anulam as possibilidades econômicas para o
desenvolvimento do individuo dentro da coletividade próspera e livre; todas as
formas de obscurantismo, que contribuam para o embrutecimento do indivíduo;
todos os vícios, hábitos e costumes que concorrem e que levam para o relaxamento
do caráter e para a corrupção moral e física da personalidade humana; por fim
apostamos, na grande qualidade e no forte potencial do desenvolvimento da
personalidade humana na historia.

Parágrafo Primeiro - De acordo com essas finalidades, a Federação Anarquista de São Paulo desenvolverá sua obra usando principalmente, dos seguintes meios, visando interessar não somente seus associados, mas os estudantes e trabalhadores em geral:

a) Promover ou auxiliar a realização de conferências, palestras comentadas e encontros em sua sede ou em outros locais públicos como associações comunitárias, escolas, universidades, grêmios e ou entidades de estudantes, sindicatos de trabalhadores e associações populares de fins específicos;

b) Organizar cursos de aperfeiçoamento em cultura, educação, esporte, profissões e de formação política, bem como cooperar com iniciativas que tenham por fim a fundação, manutenção ou desenvolvimento de espaços sociais e escolas populares de orientação solidária;

c) Fundar biblioteca comunitária em sua sede e sucursais constituída, principalmente, de obras e publicações periódicas que tratem de questão políticas, sociais, econômicas e correlacionadas;

d) Promover ou auxiliar exposições artísticas, científicas e profissionais de alcance popular;

e) Promover ações políticas e sociais para o desenvolvimento humano, cultural, econômico, social e ambiental;

f) Fundar um Jornal da Federação Anarquista de São Paulo;

g) Promover outras iniciativas que se tornem necessárias para o desenvolvimento da obra do Federação Anarquista de São Paulo e que estejam de acordo com seus princípios e orientações;

h) Auxiliar a fundação de núcleos com igual finalidade em bairros e em outras cidades, estabelecendo com os mesmos e com as entidades já existentes uma obra em conjunto;

i) Incentivar a fundação de outras entidades de iguais fins;

j) Construir uma Confederação do Anarquismo Organizado Socialmente, em âmbito internacional;

Parágrafo Segundo - Para cumprir suas finalidades sociais, a Associação se organizará em tantos núcleos quantos se fizerem necessários, em todo o território nacional, as quais funcionarão mediante delegação expressa da matriz, e se regerão pelas disposições contidas neste estatuto e, ainda, por um regimento interno aprovado pelo Congresso.

ARTIGO 3º - DOS COMPROMISSOS DA ASSOCIAÇÃO

A Associação se dedicara às suas atividades através de seus administradores e associados, e adotará práticas de gestão administrativa, suficientes a sua gestão, de forma individual ou coletiva, de qualquer forma, em decorrência da participação nos processos decisórios, e suas rendas serão integralmente aplicadas em território nacional, na consecução e no desenvolvimento de seus objetivos sociais.

ARTIGO 4º – DAS INSTANCIAS DELIBERATIVAS

São órgãos deliberativos da associação:
I. Congressos.
II. Conselhos.
III. Núcleos.

( Parte interna aos Membros Filiados )

ARTIGO 33º – DAS MATRIZES HISTORICAS

A Federação Anarquista de São Paulo reconhece como identidade de classe os movimentos de caráter comunitários horizontais, as uniões democráticas estudantis, as ligas de trabalhadores com base nos princípios do sindicalismo revolucionário, os movimentos populares de caráter libertário, os setores e movimentos de gênero, e de juventude autônomas.

Parágrafo Único – A federação Anarquista de São Paulo, reconhece como matriz histórica, a luta de classes e as luta contra a opressão, tendo como mártires e internacionais os movimentos que constituíram em torno dos dias 1º de Maio, dos trabalhadores, o 8º de Março, da mulheres, o 19 de abril, dos Índios, o 20 de novembro, da Consciência Negra, e o 28 de junho, dia do orgulho do povo do Arco – Íris.

ARTIGO 34º - DAS CORES E SIMBOLOS

A Federação Anarquista de São Paulo adota como símbolo uma bandeira com 3 (três) cores;

I. Bandeira Vermelha e Negra com um corte divisório em diagonal, com a cor vermelha acima e a cor negra abaixo.
II. Nome FASP escrito em letras Brancas.

Parágrafo Único – Os núcleos poderão eleger seu nome e símbolo local desde que se utilizem nestes a bandeira e as cores da associação.

ARTIGO 35º – DO RECONHECIMENTO DE NÚCLEOS

A Federação Anarquista de São Paulo reconhece até o momento somente o núcleo 1º de maio.

ARTIGO 36º- DO DOMINIO NA INTERNET

A Federação Anarquista de São Paulo reconhece até o momento somente o sitio www.fasp-br.org, como sitio oficial do núcleo 1º de maio, podendo e ou aceitando outros sítios como colaboradores.

Parágrafo Único – O domínio do sitio ficara no nome do Secretário Geral qual devera administralo.

ARTIGO 37º - DAS OMISSÕES

Os casos omissos no presente Estatuto serão resolvidos pela Comissão Gestora, " ad referendum " do Congresso.

ARTIGO 38º – DA FUNDAÇÃO

Por fim fica fundada a Federação Anarquista de São Paulo na capital do Estado de São Paulo, em 26 (vinte e seis) de julho de 2008 (dois mil e oito).


Mais Informações:
Contato Oficial:
E-mail: fasp-caos@riseup.net
Lista: fasp@lists.riseup.net
Sitio: www.fasp-br.org
Blog: http://nucleos-fasp.blogspot.com/
Correio:
FASP
Cx. P. 12067
Cep: 02013-970
Santana
São Paulo - SP-Brasil

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Prodhon e Bakunin

PÂO e VINHO













Os Deuses Brigam entre si, disputam a origem do filho campeão.
O Deus das Cidades, o Eterno Menino Deus em seu parquinho de carrinhos, casas e apartamentos, onde os Pais, que são Pais mesmo brincam e cuidam destas crianças menores.

"...São crianças como você, é o que você vai ser quando você crescer...- Legião Urbana"

O Grande Radical ED, Deus das Cidades, se recupera, apois ser um dois seus atacado, por um Ceifador ... O Clã da Padaria.

"...Todo aquele que coloca suas mãos sobre mim para me governar é um tirano e eu o declaro meu inimigo...- Prodhon ".

O culto a Baku, o Deus do vinho e da orgia, deixou jovens doentes e favelas se alastraram, e a miséria tomou conta dos cantos das cidades.

"... O ataque a um membro da ordem anarquista é um ataque a todos ... - Bakunin "

O grande campeão dos campeões do timão, o Radical ED é o filho do processo do mundo do trabalho e do estudo nas grandes cidades.
Filho da " Mão e Razão " e da escolástica, dos cultos ao trabalho e ao estudo, do clã do 1º de Maio e do maio de 68 do clã da Educação. O Santo Rei da Anarquia, nos deu um parque da Juventude com pista de skate e muito mais, no lugar do Carandiru, a cara do clã do Bidu em santana.
Já recebemos do clã das Artes e da Educação Artística, tintas e cursos para nossos Grafites nos muros de Sampa City ... em conjunto os avisos de que já chegou o Carro 11, o Super Trenó do papai Noel com presentes, junto com seu amigo secreto na corrida maluca, o carro 12, o Super Anarco Movel,
(FORD EDGE) com os jogadores anarquistas.

Apois uma briga entre irmãos, o Cavaleiro de Cancêr "Mascara da Morte", derruba as Torres Gêmeas de R.A., dizendo toda esta historia já aconteceu, rosas na cabeça vocês terão. Pois o pequeno príncipe vermelho e negro da Anarquia, reinas aqui entre noz, e o Islamismo já percebeu que seu Deus é um menino, brincando em um parquinho, chamado Anarquismo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Banda The Proibid

A Banda The Proibid
é uma Banda
Formada por Jovens
Strei Edge's,
Anarco-Punk's
e Red Skin's.
Banda do Cenário
das Juventudes Libertárias.
Qual a FASP
apóia integralmente !

Musica: Sócrates 33

Lá vem aquele famoso
Som Hard Core
Aquele conhecido
Do cenário Anarco-Punk

Pai de toda Filosofia
De toda Ortodoxia Grega
Pescador de Homens
Sócrates 33, você me dói o estômago.

Nem Deus
Nem Pátria
Nem Partido
Nem Patrão

Lá vem os Exércitos Ateus
Com muita Fé no Deus Ateus
Deus Ateus, Deus Ateus
Com muita Fé no Deus Ateus

Envenenados, drogados
Aliciados, Recrutados
Na Fé no Deus Ateus
Na Fé Ateus

Lá vem Todos uniformizados
Para as escolas e universidades
Cantar Hinos a o Deus Pátria
Na Fé sempre vem os Ateus

Saudar a Cultura e a Educação
Pilar de toda economia das cidades
Saudar o Fruto Proibidu
Do Santo Cristo das Cidades.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

NOTA OFICIAL DA FASP

A Federação Anarquista de São Paulo, entidade com sede neste Estado e capital de São Paulo.
Que promove grupos de apoio a FASP e aqual vem promovendo encontros pró FASP, que realizou o primeiro e segundo encontro pró FASP.
Informa que não mas reconhece o grupo de apoio chamado: " Anarquismo SP " como um grupo de apoio a FASP.
Este grupo não mas pertence ao quadro pró FASP.
A FASP reconhece como grupos de apoio a FASP os seguintes:
Organização Socialista Libertária
Núcleo Cristão Libertário
Ação Anti – Fascista
Centro de Cultura Social Antonio Martinez
Juventude Libertaria – Resistência Popular
STREI EDGE Revolucion
União Democrática Estudantil
Tendência Filhos de Toda Terra
Movimento Anarco-Punk ( Núcleo Jaçanã )
Movimento Comunitário Rede Periferia
Sociedade Anônima Raul Seixas
Pastoral Universitária
Corintianos Anarquistas de Coração
Draud'nistas
SPRUD
Clube EMO
Liga dos Trabalhadores de Escritório
Liga dos Trabalhadores Autônomos do Comércio
Associação livre dos Ciclistas
Associação Livre de Pensadores
Clube da Leitura.

Estes 21 grupos de apoio a FASP, vem mantendo suas reuniões frequentes e periodicas.
A FASP reconhece apenas o Núcleo 1º de Maio como núcleo fundador e efetivo até neste dado momento da Federação Anarquista de São Paulo.
O Blog e Site Oficiais da FASP são os mesmos desdo 1º Encontro realizado pelo seu unico núcleo fundador e disponiveis neste Blog.
Estas mesmas midias assistidas desdo primeiro chamado pró FASP, por companheiros de causa.
















"Basta na historia Anarquista de grupos que solapam nossa Ordem, são obsessores, oportunistas grudados para beber o bom sangue da Utopia"
Antonio Martinez

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Corinthians eu nunca vou te abandonar.

" Bicicletada Librtára "

" ... Sinto muito amor mais não pode ser ... eu moro no Jaçanã ... se eu perder este trem que sai agora as 11 ( Lá do templo, de tanto ver Judas me trair ) ... só da próxima vez ... "
" ... Não esqueça o guarda-chuva, Cuidado para não cair da Bicicleta ... "
Musica Popular Brasileira


A Bicicletada Libertaria, acontece aos fins de semana, aos sábados ou Domingos.
Outras iniciativas como esta acontecem na cidade e no interior de São Paulo.
Se você não tem uma Bicicleta, pode alugar uma por R$ 2,00 a hora nas cabines dos Bicicletarios da cidade, com cartão de credito, a primeira hora é grátis.
Assim esperamos construir a Ecologia Libertária em São Paulo.
Venha com agente, preservar a cidade e saudar a natureza.
E bater um bom papo.

Contatos:
Associação Livre dos Ciclistas
E-mail meu amigo emo: manifesto.emo@gmail.com

Foto e link Retirado de:
Edward rides a bike:
http://www.youtube.com/

sexta-feira, 31 de julho de 2009

2º Encontro Estadual pró - Federação Anarquista de São Paulo

" Se todo pão da vida eu tivesse,
eu voz ofertaria, pois quem come de meu fruto, não sai inteiro, pois meu fruto tem as raízes do bem e do mau, meu fruto é a origem de todas as cidades, de todas as religiões, e eu os voz amo, por isso peso para não comeres do proibidu, não quero ver vocês quebrados e aos pedaços ... e os trabalhadores trabalhando as suas dores, as irmãs estão cansadas de avisar, que todo nosso esforço e dedicação é para te salvar."
Radical Ed

Saudações libertárias !

O núcleo 1º de Maio Pró- Fasp e o coletivo de apoio a pró FASP, informa a Todos(as) que o "2º Encontro Estadual Pró-Federação Anarquista de São Paulo" foi realizado com grande sucesso.

As expectativas foram superadas tanto na quantidade de participantes que foram em torno de 150 pessoas, quanto na qualidade dos debates.

Começaremos a entrar em contato com todas e todos que participaram do encontro, para podermos agilizar atividades conjuntas e reafirmar o convite para as pessoas que se mostraram interessadas em participar do coletivo.

Nosso sítio se encontra sobe o domínio: www.fasp-br.org, hospedado temporariamente em: www.anarquismosp.org, aos cuidados do coletivo ( Grupo ) de apoio a pró FASP, e esta sobe gestão de um grupo de trabalho, e passara por uma faze de manutenção para que possamos melhorar o mesmo.

Fica aqui nosso agradecimento pela participação e dedicação de todos(AS) e graças a vocês podemos avançar com cada vez mais energia rumo a uma sociedade justa e liberta.

Viva o Anarquismo Organizado Socialmente.
Pela Confederação do Anarquismo Organizado Socialmente.

" ... Não deixem os abutres nos desfigurar ...
há Freguesia do O, pede Socorro !
Durruth "


" ... Ay Carmela, uma noite já passou, e olha noiz aqui outra vez ... "

Núcleo 1º de Maio Pró-Federação Anarquista de São Paulo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

2º Encontro pró Federação de São Paulo - 18 e 19 de julho de 2009

FALTAM SÓ ALGUNS DIAS!
Chamado do núcleo 1º de maio z/n ao II Encontro pró FASP

O núcleo 1º de Maio z/n e o coletivo Pró-Federação Anarquista de São Paulo convida a todas/os para participar do II Encontro Pró-Federação Anarquista de São Paulo, nos dias 18 e 19 de julho de 2009, na cidade de São Paulo.

O primeiro encontro ocorreu em julho de 2008, contando com 85 participantes, o que permitiu fortalecer a discussão da necessidade de construção de uma organização anarquista na cidade de São Paulo, tendo no modelo especifista sua base de organização.

E foi a partir deste encontro, que foi formado este coletivo com o objetivo de levar adiante esta discussão. Portanto, a proposta deste segundo encontro é de apresentar e discutir sobre as experiências do coletivo e os trabalhos realizados até o momento, e convidar novas/os companheiras/os à participação.

Neste primeiro ano, muitas foram às atividades propostas e realizadas pelas/os suas/seus participantes, objetivando aproximar-se e aliar-se às lutas populares contribuindo com questões éticas, sociais e práticas como a ação direta, a autonomia, a combatividade, a solidariedade, a horizontalidade e o apartidarismo.

Durante este processo, houve perdas e ganhos que permitiram o amadurecimento do coletivo, para que mais pessoas pudessem contribuir na construção de uma prática anarquista social organizada.

Portanto, é com espírito de luta, que convidamos todas/os a este segundo encontro, para darmos continuidade a este trabalho e juntas/os construirmos uma organização anarquista especifista em São Paulo.

Saúde e Liberdade!

"A organização é um meio de se diferenciar, de se precisar um programa de idéias e de métodos estabelecidos, um tipo de bandeira de reunião para se partir ao combate sabendo-se com quem se pode contar e tendo-se consciência da força que se pode dispor.(...)” (Luigi Fabbri)


II Encontro Pró-Federação Anarquista de São Paulo

18 e 19 de julho de 2009
1º Dia - 18/07/2009 – Sábado

08h00 – 9h00: Café da Manhã
09h00 – 11h00: Abertura
- Exposição sobre o local do encontro: Espaço Ay Carmela!
- O que é o coletivo Pró-FASP? Da teoria a prática.
- Exposição sobre anarquismo social, especifismo e a importância do comprometimento para a organização anarquista.
- Exposição sobre a prática do coletivo: frentes de luta e grupos de trabalho.
11h00 – 12h00: Debate

12h00 – 13h45: Almoço

14h00 – 18h00: Discussão de Conjuntura
14h00 – 15h45: Grupos de Discussão
- Movimentos sociais: a luta no campo e na cidade.
- A atuação anarquista no Brasil e no mundo.
- Fatos políticos no Brasil e no mundo: uma análise anarquista.
- Anarquismo e feminismo: mulheres libertárias e a transformação social. (Com a participação da Agrupação Cultural Feminina "Ela Luta")
15h45 – 16h15: Café
16h15 – 18h00: Finalização conjunta das discussões

18h00 – 19h30: Jantar

19h30 – 22h: Festa de confraternização
2º Dia - 19/07/2009 – Domingo

08h00 – 9h00: Café da Manhã
09h30 – 12h00: Experiências atuais do anarquismo social no Brasil.
- Presenças já confirmadas:
-> Federação Anarquista Gaúcha
-> Federação Anarquista do Rio de Janeiro.

12h00 – 13h00: Almoço
13h00 às 17h00: Atividade de Encerramento
Discussão de apontamentos práticos para o anarquismo social em São Paulo e indicativo conjunto para a fundação da Federação Anarquista de São Paulo.

* O núcleo 1º de Maio da z/n vai estar vendendo Pão da Liga dos Trabalhadores Autônomos no comércio, do setor de Economia Solidária do MCRP, onde trabalhadores e militantes da pró FASP atuam e trabalham na Zona Norte da Capital.

Local do II Encontro
Espaço Ay Carmela
Rua das Carmelitas, 140, Sé - São Paulo
Travessa da Rua Tabatinguera – Metrô Sé

A Rua das Carmelitas é a rua de baixo paralela a Rua do Carmo, que é a rua do Poupatempo Sé. Há uma saída do metrô.

Manifesto EMO





Manifesto EMO

* O Manifesto EMO é dirigido a toda juventude que esta cansada de ver seus Sonhos destruídos.



Em pleno mês do Rock, mês da vitória, vemos a publico publicar o “ Manifesto EMO ” e convidamos toda juventude a se unirem em pró da Revolução Libertária.

“ Eu sou o começo, o meio e o fim de toda a historia ... quem põem na boca o que não é para por, recebe os canhões da Guerra na cara. e Eu só estou no meio da historia, só na lei da montanha ... é o fim da odisséia terrestre, é o fim de Eva e Adão. ”

Radical Ed

Nos jovens estamos cansados e desilusões políticas, de ver lideres do coração traídos, de ver famílias se destruindo, de pais separados, de crianças pela rua, de ver parentes morrendo, de jovens se drogando, da carnificina do açougue, da decepção amorosa de jovens não preparados para o futuro, de ver jovens sem produzir o se futuro, de ver partidos golpistas querendo o poder do paraíso, de pessoas que só vem a cara e não o coração e de ver fome nas grandes plantações.

Unamo-nos pela convergência para com a cultura, para com o educação e a livre associação.

E-mail: manifesto.emo@gmail.com

Assinam o Manifesto Emo:

* Núcleo 1º de Maio z/n pró FASP;
Núcleo Cristão Libertário; Ação Anti – Fascista; Centro de Cultura Social Antonio Martinez; Juventude Libertaria – Resistência Popular; STREI EDGE Revolucion; União Democrática Estudantil; Tendência Filhos de Toda Terra; Movimento Anarco-Punk ( Núcleo Jaçanã ); Rede Periferia; Sociedade Anônima Raul Seixas; Pastoral Universitária; Corintianos Anarquistas de Coração; Draud'nistas; Clube EMO, Liga dos Trabalhadores de Escritório; Liga dos Trabalhadores Autônomos do Comércio; Associação livre de Ciclistas; Associação Livre de Pensadores; Clube da Leitura.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Resultado da campanha aberta aos desenhistas



" A pró FASP fez uma Campanha Aberta aos desenhistas, para criar um logo tipo (desenho), para representar a A Pró - FEDERAÇÃO ANARQUISTA DE SÃO PAULO.

O desenho escolhido ganharia um CD de Musicas Zapatistas
( LOS RITMOS DEL ESPEJO ).

Esta campanha iniciou em 1 de agosto 2008, pela Internet e se finalizou em Janeiro de 2009.
Foram 04 desenhos enviados.
E o desenho selecionado foi este acima do desenhista: Cardinez Azevedo.

Cardines Azevedo
Desenhos, Animações, HQ's, Jogos e textos...
Contatos: cardinesazevedo@yahoo.com.br
http://cardines.blogspot.com/

Como todo Trem a pró FASP continua trilhando o seu caminho em seu caminho, confira e participe dos encontros celulares no GA ( Grupo de Apoio a Pró FASP ).

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

DA PERIFERIA PARA O CENTRO



SUJEITO REVOLUCIONÁRIO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Felipe Corrêa


É o próprio povo, são os famintos,
são os deserdados os que têm de abolir a miséria.
Ricardo Flores Magón


O CONTEXTO DA A.I.T.

O anarquismo, como ideologia, e, portanto, “um conjunto de idéias, motivações, aspirações, valores, es­trutura ou sistema de conceitos, que possuem uma cone­xão direta com a ação — o que chamamos de prática política”1 —, propõe a derrubada do capitalismo e suas instituições fundamentais — dentre elas o Estado —, rumo ao socialismo libertário. Portanto, uma reflexão sobre o anarquismo, hoje e sempre, deve considerar este seu caráter ideoló­gico, de busca pela transformação social.
O próprio surgimento do anarquismo na obra de Proudhon, e mais concretamente no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.) — na atuação de Bakunin e outros militantes da Aliança da Demo­cracia Socialista — confirma este caráter.
A estratégia de transformação social proposta por Bakunin e os aliancistas era dupla. Por um lado, estimu­lavam o fortalecimento dos movimentos sociais da época e sua aglutinação em torno da A.I.T., que associava li­vremente os explorados em torno de uma base econô­mica comum, independente de sua ideologia. A força popular da A.I.T. constituía-se como principal meio de se chegar à revolução social. Por outro lado, trabalhavam — por meio da influência da Aliança (primeira organi­zação específica anarquista) — para impulsionar os tra­balhadores da A.I.T. à revolução social.
Nesta dupla atuação, que diferenciava o nível polí­tico e anarquista da Aliança do nível social e não-anar­quista da A.I.T., Bakunin definiu os papéis de cada um destes níveis:

A Aliança é o complemento necessário da Internacional... — Mas a Internacional e a Alian­ça, tendendo para o mesmo objetivo final, perse­guem ao mesmo tempo objetivos diferentes. Uma tem por missão reunir as massas operárias, os mi­lhões de trabalhadores, através das diferenças das nações e dos países, através das fronteiras de todos os Estados, num só corpo imenso e com­pacto; a outra, a Aliança, tem por missão dar às massas uma direção verdadeiramente revolucio­nária. Os programas de uma e de outra, sem se­rem nada opostos, são diferentes pelo próprio grau do seu desenvolvimento respectivo. O da Inter­nacional, se o tomarmos a sério, também [con­tém] em germe, mas só em germe, todo o progra­ma da Aliança. O programa da Aliança é a expli­cação última do [programa] da Internacional.2

Em sua proposta de atuação em níveis diferencia­dos, Bakunin sustentava que o nível político e o nível social complementavam um ao outro. A estratégia de transformação social revolucionária proposta por ele ba­seava-se em uma interação dialética do nível político com o social. As forças populares, organizadas de baixo para cima na A.I.T., seriam as verdadeiras forças respon­sáveis pela revolução social e capazes de levá-la a cabo. As forças anarquistas, organizadas na Aliança, e em permanente contato com a A.I.T., exerceriam a influên­cia necessária, de maneira antiautoritária, garantindo seus objetivos revolucionários. Ao organizar-se como mi­noria ativa, a Aliança dava força à proposta anarquista, buscando consolidá-la no seio das lutas sociais.
Neste contexto da A.I.T., duas propostas de trans­formação social revolucionária foram confrontadas. Uma delas, chamada de “centralista”, defendida pelos marxis­tas, e a outra, chamada de “federalista”, defendida pelos libertários, dentre eles Bakunin e outros membros da Aliança.
Entre as divergências que existiam, e que foram se evidenciando ao longo da história, podemos citar duas, que são trabalhadas de maneira ímpar no texto de Rudolf de Jong. As diferenças em torno do sujeito revolucio­nário e do caminho para a transformação social. Estas duas diferenças separaram, e ainda separam, em grande medida, duas propostas diferentes de entender a estraté­gia revolucionária: a anarquista e a marxista.
Rudolf de Jong escolheu para trabalhar todo o pano de fundo desta análise do sujeito revolucionário e da transformação social as relações que definiu como “cen­tro-periferia” que, se por um lado retomam concepções clássicas do anarquismo, por outro nos trazem contri­buições relevantes para o anarquismo social e militante de hoje.


RELAÇÕES CENTRO-PERIFERIA

As relações centro-periferia baseiam-se em uma forma libertária de se enxergar as relações presentes em nossa sociedade. Elas estão fundamentadas nas relações de domínio estabelecidas pelos centros em relação às periferias, entendendo que a dominação existe quando uma pessoa ou um grupo de pessoas utiliza-se “da força social de outrem (do dominado), e, conseqüentemente, de seu tempo, para realizar seus objetivos (do domina­dor) — que não são os objetivos do agente subjugado”3. Assim, desde as questões mais complexas como o capita­lismo e o Estado, até as relações de poder dentro de um movimento social ou mesmo de uma organização política podem ser analisadas por esta perspectiva. A luta perma­nente dos anarquistas, que se constituiu classicamente pelo fim das relações de domínio, é colocada por Rudolf de Jong como a luta permanente pelo fim das relações centro-periferia.
Este objetivo norteia a teoria e a prática dos anarquis­tas. Ao conceber um modelo teórico de transforma­ção social, a busca pelo fim das relações centro-periferia su­gere uma reflexão crítica acerca do Estado, do partido, do exército e das posições de direção e/ou vanguarda. Sugere, também, uma definição do sujeito revolucionário, agente privilegiado deste processo de transformação social.
O fim das chamadas relações centro-periferia nor­teia toda a atuação dos anarquistas em sua luta na busca da revolução social, fato este que já vem se confir­mando pela estratégia de transformação social revolu­cionária adotada pelos anarquistas, desde a A.I.T., ainda no século XIX. É este modelo de luta, da periferia para o centro, que vem distinguindo anarquistas e a grande maioria dos marxistas, na busca por esta transformação. Comparando as estratégias marxista e anarquista para a transformação social, podemos dizer que

os revolucionários marxistas, os reformistas so­ciais e, em geral, a maioria dos militantes de es­querda querem sempre usar o centro como um instrumento — e na prática como o instrumento — para a emancipação da humanidade. Seu mo­delo é sempre um centro: Estado, partido ou exército. Para eles a revolução significa, em pri­meiro lugar, a tomada do centro e de sua estru­tura de poder, ou a criação de um novo centro, para utilizá-lo como um instrumento para a cons­trução de uma nova sociedade. Os anarquistas não desejam tomar o centro; desejam sua des­truição imediata. É sua opinião que, depois da revolução, dificilmente haverá lugar para um cen­tro na nova sociedade. A luta contra o centro é seu modelo revolucionário e, em sua estratégia, os anarquistas tentam evitar a criação de um novo centro.4
A partir desta diferença entre anarquismo e mar­xismo, e do modelo das relações centro-periferia colo­cado por Rudolf de Jong, podemos refletir sobre duas diferenças fundamentais que vêm separando, desde o século XIX, estas duas formas de conceber a transfor­mação social revolucionária: o entendimento de quem é o sujeito revolucionário e do caminho mais adequado para a transformação social revolucionária.


O SUJEITO REVOLUCIONÁRIO

Uma discussão que vem sendo travada há tempos dentro da corrente socialista revolucionária, sendo esta entendida de maneira ampla, é sobre quem seria o su­jeito revolucionário, ou seja, aquele setor da população que teria a responsabilidade e a capacidade de realizar a revolução. Ainda na A.I.T., evidenciou-se uma dife­rença entre a concepção de Marx e a de Bakunin.
Marx, ao realizar sua análise da história e identifi­car a contradição evidenciada na luta de classes entre a burguesia e o proletariado, colocava sua expectativa em uma parte específica do proletariado: o proletariado in­dustrial e urbano, que existia em abundância nas regiões mais desenvolvidas economicamente. Marx acreditava que, antes da revolução rumo ao socialismo, que condu­ziria à ditadura do proletariado, a sociedade deveria passar por uma revolução burguesa, que estabelecesse o capitalismo de maneira plena, desenvolvendo as forças produtivas e criando este proletariado industrial — o sujeito revolucionário que conduziria a sociedade à sua emancipação. Desta maneira, as forças progressistas da sociedade seriam a burguesia (que transformaria as eco­nomias pré-capitalistas em capitalismo) e o proletariado (que transformaria o capitalismo em socialismo).
Assim, apesar do conjunto de classes exploradas ser muito mais amplo que este setor do proletariado definido por Marx como sujeito revolucionário, ele não acredi­tava que outros setores pudessem ser investidos desta função revolucionária. O lumpemproletariado, os cam­poneses, trabalhadores manuais e as culturas pré-capita­listas não teriam, para ele, um papel revolucionário; muitas vezes, ao contrário, seriam forças conservadoras.
Bakunin trabalhava com um conceito mais amplo e generoso de sujeito revolucionário. Incluía nele, com grande ênfase, os camponeses, concebendo que a revo­lução não poderia ser realizada, plenamente, pelo prole­tariado industrial e urbano. A revolução social, que conduziria ao socialismo libertário deveria, necessaria­mente, contar com a contribuição dos camponeses. Enfa­tizava Bakunin que:

A sublevação do proletariado das cidades não é suficiente; com ela teríamos somente uma re­volução política, que teria necessariamente con­tra e1a a reação natural e legítima do povo dos campos, e esta reação, ou unicamente a indiferença dos camponeses, esmagaria a revolução das cida­des, como aconteceu ultimamente na França. Só a revolução universal é suficiente­mente forte para inverter e quebrar o poder orga­nizado do Estado, sustentado pelos recursos das classes ricas. Mas a revolução universal é a revolu­ção social, é a revolu­ção simultânea dos povos dos campos e das cidades. É isso que é preciso organi­zar, — porque sem uma organização preparató­ria, os elementos mais fortes são impotentes e nu­los.5 (grifos nossos)
Que fazer? Não podendo impor a revolução nos campos, é preciso produzi-la, provocando o mo­vimento revolucionário dos próprios camponeses, le­vando-os a destruir, com as suas mãos, a ordem pú­blica, todas as instituições políticas e civis e a cons­truir, a organizar nos campos a anarquia.6

Ao discutir a revolução social na Europa e dar pre­ferência aos países “periféricos” como Espanha, Rússia e Itália, Bakunin diferenciava-se de Marx, dando, além desta atenção ao potencial revolucionário dos campo­neses, ênfase ao “lumpemproletariado” — que aparece descrito abaixo como “proletariado esfarrapado” — em suas reflexões sobre a revolução na Itália.

Não existe na Itália, como em muitos outros países da Europa, classe operária separada, em parte já privilegiada graças a altos salários, ga­bando-se inclusive de certos conhecimentos li­terários, e a tal ponto impregnada das idéias, das aspirações e da vaidade burguesas, que, os ope­rários que pertencem a este meio, só se diferen­ciam dos burgueses por sua condição, de forma alguma por sua tendência. É sobretudo na Ale­manha e na Suíça que existem muitos operários deste tipo; todavia, na Itália, há bem poucos, tão poucos que eles estão perdidos na massa e não têm nenhuma influência sobre ela. O que predo­mina na Itália, é esse proletariado esfarrapado, dos quais o Srs. Marx e Engels e, em seguida, toda a Es­cola da social-democracia alemã, falam com o mais profundo desprezo, e bem injustamente, pois é nele, e apenas nele, e não na camada aburguesada da massa operária, que reside, na totalidade, o espírito e a força da futura revolução social.7 (grifos nossos)

Rudolf de Jong, ao mapear as relações centro-peri­feria, retoma estes conceitos do anarquismo clássico que foram expressados por Bakunin e os extrapola, propondo uma série de relações que constituem toda importante base para a concepção do sujeito revolucionário de hoje. Estas relações de dominação — que constituem as rela­ções centro-periferia e que, portanto, nos fazem enten­der o conjunto de classes exploradas — identificam como explorados os membros das culturas e sociedades completamente distantes do centro e também daquelas que, em contato com o centro, buscam manter sua iden­tidade (fundamentalmente os indígenas). Identificam, ainda, explorados como pequenos produtores, trabalha­dores especializados, camponeses, “lumpemproletariado”, desempregados, trabalhadores precários e assalariados, pobres etc., mesmo sabendo que várias destas categorias se sobrepõem. Assim, para ele, todas estas vítimas das relações centro-periferia constituiriam o sujeito revolu­cionário de hoje.


A TRANSFORMAÇÃO SOCIAL REVOLU­CIONÁRIA

O modelo de transformação social revolucionária proposto pelo anarquismo também diverge amplamente dos modelos derivados do marxismo, sejam eles reformis­tas ou revolucionários. Desde a A.I.T., a questão entre os meios e os fins permanece a mesma. Isso porque, entre marxistas e anarquistas, geralmente houve certo acordo em relação à crítica do capitalismo e uma aproximação na proposta de sociedade futura. A diver­gência sempre se deu, e ainda se dá, em relação aos meios de se chegar ao fim desejado. Entre outras coisas, os anarquistas nunca concordaram com o papel do Es­tado e do socialismo como “período intermediário” (de ditadura do proleta­riado) reivindicado pelos marxistas.
Para a grande maioria dos marxistas, a revolução passa, necessariamente, pela tomada do Estado e pelo estabelecimento de um período de centralização e dita­dura, fato que nunca foi aceito pelos anarquistas. Baku­nin, em um prognóstico mais do que certeiro, previa, ainda no século XIX, o que seriam as experiências “so­cialistas” do século XX. Previa ele que este modelo de transformação social — que Rudolf de Jong chamaria de transformação do centro para a periferia — não conduz à emancipação do povo, mas sim à continuidade da sua escravidão. Isto porque não há como se defender os inte­resses da periferia — neste caso, o povo explorado — por meio de uma instituição do centro — o Estado.
Bakunin conseguiria antever que, assim que o Es­tado fosse tomado, ainda que sob justificativa da defesa dos interesses do povo, seria criada uma nova classe de exploradores que continuaria a dominação, ao invés de acabar com ela. Esta “nova classe”, ainda segundo Ba­kunin, nunca mais abandonaria as posições de privilégio adqui­ridas. O socialismo como período intermediário, ou a “ditadura do proletariado”, nunca chegaria à socie­dade sem Estado. A nova classe no comando do Estado passaria a defender não mais os interesses do povo, mas sim os seus próprios interesses.
Tudo isso porque o problema não está em quem ocupa o Estado, mas no Estado em si. Sabemos que não é suficiente substituir o rei, se a monarquia continua, e o mesmo vale para o Estado. A questão não é questionar quem está no Estado, mas o Estado em si, pois como ele é um pilar fundamental do capitalismo, não é neutro, re­produz e sustenta relações de domínio e exploração em seu seio. Assim,

(...) nenhum Estado, por mais democráticas que sejam as suas formas, mesmo a república política mais vermelha, popular apenas no sentido desta mentira conhecida sob o nome de representação do povo, está em condições de dar a este o que ele precisa, isto é, a livre organização de seus próprios interesses, de baixo para cima, sem ne­nhuma ingerência, tutela ou coerção de cima, porque todo Estado, mesmo o mais republicano e mais democrático, mesmo pseudopopular, como o Estado imaginado pelo Sr. Marx, não é outra coisa, em sua essência, senão o governo das mas­sas de cima para baixo, com uma minoria inte­lectual, e por isto mesmo privilegiada, dizendo compreender melhor os verdadeiros interesses do povo, mais do que o próprio povo.8

A coerência entre meios e fins, fortemente defen­dida no anarquismo, aponta ser uma imensa contradição querer defender o conjunto de classes exploradas, que é um elemento periférico da sociedade, por meio de uma instituição que é um pilar fundamental do sistema capi­talista e da sociedade de classes, ou seja, uma instituição central.
Diferentemente, a luta anarquista pela transforma­ção social revolucionária não passa pela tomada do Es­tado, mas sim pela mobilização de amplos setores da po­pulação para, de baixo para cima, promover a revolução social e abrir caminho rumo ao socialismo libertário. A revolução social, na concepção anarquista, promove uma imediata substituição do Estado pelas estruturas autogeridas e federadas do socialismo libertário, mo­mento em que o poder político é descentralizado e auto­gerido pelo povo. A nosso ver, o caminho para operar esta transformação social se dá por meio da criação e do de­senvolvimento de movimentos sociais, juntamente com a organização específica anarquista, desenvolvendo suas atividades de trabalho/inserção social, produção/repro­dução de teoria, propaganda anarquista, formação polí­tica, concepção e aplicação de estratégia, relações polí­ticas e sociais, gestão de recursos.
Os movimentos sociais, ao possuírem determinadas características (força, classismo, autonomia, combativi­dade, ação direta, democracia direta e perspectiva re­volucionária), terão condições de aliar-se na luta pela transformação social revolucionária, constituindo uma forma de organização popular ampla, que agregue o maior número possível de movimentos sociais radicali­zados, negando a centralização e hierarquia, e afirmando o federalismo e a horizontalidade. O papel da organiza­ção específica anarquista é, lado a lado com os movi­mentos sociais — ou com a própria organização popular — influenciar-lhes o quanto for possível, para que estas características estejam presentes, funcionando como o fermento deste bolo, que se aquece com o calor da luta de classes.
Este modelo de anarquismo foi desenvolvido, entre outros, por Malatesta, que sugere uma transformação social revolucionária neste sentido, da periferia para o centro. Vejamos um resumo deste modelo de transfor­mação.

Ao povo que quer se emancipar, só resta uma saída: opor violência a violência. Disso resulta que devemos trabalhar para despertar nos opri­midos o vivo desejo de uma transformação radical da sociedade, e persuadi-los de que, unindo-se possuem a força de vencer. Devemos propagar nosso ideal e preparar as forças morais e materiais necessárias para vencer as forças inimigas e orga­nizar a nova sociedade. Quando tivermos força sufi­ciente, deveremos, aproveitando as circunstâncias favoráveis que se produzirão, ou que nós mesmos provocaremos, fazer a revolução social: derrubar pela força o governo, expropriar pela força os proprietários, tornar comuns os meios de subsistên­cia e de produção, e impedir que novos gover­nantes venham impor sua vontade e opor-se à reorganização social, feita diretamente pelos inte­ressados. (...) Devemos fazer com que o povo, em sua totalidade e em suas diferentes frações, exija, imponha e realize, ele próprio, todas as melho­rias, todas as liberdades que deseja, na me­dida em que concebe a necessidade disso e que adquire a força para impô-las. Assim, propagando sempre nosso programa integral e lutando de for­ma inces­sante por sua completa realização, de­vemos incitar o povo a reivindicar e impor cada vez mais, até que ele consiga a sua emancipação definitiva. (...) A propaganda, oral ou escrita, sozinha, é impotente para conquistar para as nos­sas idéias toda a grande massa popular. É preciso uma edu­cação prática, que seja alternadamente causa e resultado da transformação gradual do meio. (...) Denunciando sempre esta espécie de governo, exigindo sempre a liberdade integral, devemos favorecer todo combate por liberdades parciais, convictos de que é pela luta que se aprende a lutar. Começando a provar a liber­dade, acaba-se por desejá-la inteiramente. De­vemos sempre estar com o povo; e quando não conseguirmos fazer com que queira muito, deve­mos fazer com que, pelo menos, ele comece a exigir alguma coisa. E devemos nos esforçar a que aprenda a obter por si mesmo o que quer — pouco ou muito —, e a odiar e a desprezar quem quer que vá ou queira fazer parte do governo. (...) Devemos procurar enfraquecê-lo [o gover­no] e obrigá-lo a fazer uso dele o menos perigosa­mente possível. Mas, esta ação, devemos fazê-la sempre de fora e contra o governo, pela agitação na rua, ameaçando tomar pela força o que se exige. Jamais deveremos acei­tar uma função le­gislativa (...) pois, assim agindo, diminuiríamos a eficácia de nossa ação e trairía­mos o futuro de nossa causa.9

Esta reflexão sobre a transformação social revolu­cionária evidencia ainda outra qualidade do texto de Rudolf de Jong. Ele também consegue extrapolar a ques­tão do debate em torno do Estado. É um fato que os anarquistas já discutiram abundantemente suas diferen­ças com os marxistas em torno do Estado. No entanto, as reflexões, a partir desta lógica das relações centro-peri­feria, nos dão base para discutir outras questões.
Primeiramente, duas que são citadas pelo autor: o partido e o exército.
Rudolf de Jong expõe, também de maneira ímpar, outra diferença entre as escolas do socialismo, que está em torno da idéia de partido, ou de organização política revolucionária. A concepção de partido leninista, ado­tada por praticamente a totalidade das organizações marxistas durante e após a Revolução Russa, também evidenciam esta concepção de transformação pelo cen­tro. Lenin, ao desenvolver sua teoria do partido, distor­ceu a proposta bakuninista de separação dos níveis polí­tico e social. Bakunin entendia esta separação da orga­nização anarquista e dos movimentos sociais necessária, porém complementar e dialética, em que havia influên­cias mútuas do político para o social e vice-versa. Lenin, ao pensar esta separação, colocou o nível político, repre­sentado pelo partido, acima do nível social, representado pelos “movimentos de massa”, considerando os segundos apenas uma correia de transmissão do primeiro. Esta re­lação, a partir do modelo leninista, não se constituía mais em uma relação mútua, como desejava Bakunin, mas sim uma relação de mão única, do partido para os movi­mentos.
A grande diferença entre os anarquistas e os mar­xistas (principalmente os leninistas) que defendem esta separação entre os níveis político e social, é que os mar­xistas consideram que o nível político possui hierarquia e domínio em relação ao nível social, o que se confirma quando analisamos sua concepção do par­tido como “van­guarda do proletariado”. O partido, a partir do momento que se coloca no topo da pirâmide, cuja base são os movimentos sociais, não pode ser outra coisa senão um centro. Quando o partido, constituído em vanguarda, se coloca acima ou à frente dos movi­mentos sociais, tende a buscar uma transformação social que, ainda que seja revolucionária, vem de cima para baixo, do centro para a periferia.
A proposta anarquista que defende esta separação dos níveis político e social é radicalmente diferente. A concepção de minoria ativa, que sustenta uma relação ética entre os níveis político e social, está em pleno acordo com a criação e o desenvolvimento dos movi­mentos sociais pela base, da construção da organização popular e da transformação social revolucionária que vai da periferia para o centro.

É por meio da ética, e somente por meio dela, que a organização anarquista não atua como um partido autoritário (mesmo que revolucionário). A ética do anarquismo, diferente de todas as outras ideologias, sustenta uma posição única de relação entre os níveis político e social. Por este motivo, a ética é absolutamente central a qual­quer organização anarquista que queira realizar trabalho com os movimentos sociais. Diferente­mente da organização de vanguarda, o nível po­lítico organizado como minoria ativa, que atua com ética, não possui relação de hierarquia e nem de domínio em relação ao nível social. Para nós, como enfatizamos, os níveis político e social são complementares e possuem uma relação dia­lética. Neste caso, o nível político complementa o nível social, assim como o nível social comple­menta o político.
Ao contrário do que propõem os autoritários, a ética da horizontalidade que funciona dentro da organização específica anarquista se reproduz em sua relação com os movimentos sociais. Quan­do em contato com o nível social, a organização específica anarquista atua com ética e não busca posições de privilégio, não impõe sua vontade, não domina, não engana, não aliena, não se julga superior, não luta pelos movimentos sociais ou à frente deles. Luta com os movimentos sociais, não avançando nem um passo sequer além do que eles pretendem dar.
Entendemos que a partir desta perspectiva ética de nível político, não existe fogo que não seja aceso coletivamente; não há como ir à frente, iluminando o caminho do povo, enquanto o pró­prio povo vem atrás na escuridão. O objetivo da minoria ativa é, com ética, estimular, estar junto ombro a ombro, prestar solidariedade quando ela é necessária e solicitada. Por isso, diferentemente da vanguarda, a minoria ativa é legítima.10

Rudolf de Jong também realiza interessantes refle­xões sobre as diferenças entre marxistas e anarquistas, na discussão da luta armada. Desde sempre, as duas con­cepções foram diferentes. Podemos considerar, ainda no seio da Revolução Russa, as diferenças entre o Exér­cito Vermelho, que funcionava com disciplina e hierar­quia militares obrigando seus soldados a lutar11, e o exér­cito insurrecional makhnovista, ou mesmo a luta armada na Espanha de 1936, em que os combatentes eram voluntá­rios e as posi­ções de disciplina e hierarquia radicalmente dife­rentes.
As próprias posições mais recentes sobre a guerri­lha, daqueles que se insurgiram contra os regimes dita­toriais na América Latina, é emblemática. De um lado, descendentes diretos do marxismo propunham o foquis­mo guevarista como estratégia de luta armada. Organi­zações no Brasil, na Argentina, no Uruguai etc. optaram por esta estratégia que, se por um lado sustentava uma ação de impacto no combate à ditadura, por outro pe­cava no apoio popular e na inserção social junto às ca­madas da população que se propunham a defender. Se por um lado constituía um foco de resistência relevante na luta contra o regime militar, por outro se descolava como uma vanguarda que queria lutar, não com o povo, mas pelo povo. Assim, o foquismo, na perspectiva de Ru­dolf de Jong, poderia ser pensado como uma tentativa de transformação do centro para a periferia.
Diferentemente, a Federação Anarquista Uruguaia (F.A.U.), que aderiu à luta armada contra a ditadura no Uruguai, realizou uma reflexão que buscava pensar a luta armada, de maneira distinta do foquismo, bastante em voga naquele momento. Em um documento chamado El Copey, a F.A.U. insiste em uma concepção de luta arma­da em acordo com os princípios anarquistas, conce­bendo a transformação da periferia para o centro, ou seja, com participação significativa nos movimentos sociais — chamados “movimentos de massas” pelos uru­guaios — e colocando a luta armada como mais um esforço revolu­cionário e não como o principal e único esforço a partir do qual se desencadeariam outros. Em sua reflexão, a F.A.U. colocou:

Concebemos a luta armada como aspecto fun­damental da prática política de um partido clan­destino, que atua também com base em uma es­tratégia harmônica e global, no nível de mas­sas. (...) Tudo parece indicar que a função da guer­rilha urbana não é buscar a vitória em um en­frentamento direto, mano a mano, com o exér­cito. (...) Definitivamente, a guerrilha urbana, quando se trata de busca da revolução social, pa­rece ter como função idônea preparar o salto, a passagem qualitativa para outra forma de luta através da qual pode ser conseguida a vitória de­cisiva no marco urbano, a insurreição. A guer­ri­lha urbana, cremos, portanto, só é legítima como preâmbulo e preparação necessária e im­prescin­dível da insurreição. Processo insurrecio­nal que, claramente, pode ter formas diversas, mas que implica sempre uma participação de certo volu­me dos setores de massas. (...) Não é necessário esperar que a metade mais um dos habitantes de uma cidade decidam se levantar em armas para fazer uma insurreição. (...) Por­tanto, quando alu­dimos a uma série de ações de massas de outro nível, está subentendido que participe o setor mais dinâmico das massas.12

Assim, apesar de a luta armada poder ser realizada pela organização política, ela não se constitui como sua única atividade e nem, muito menos, substitui a neces­sidade desta organização e de seu trabalho no nível social.
Uma segunda reflexão, que não é colocada direta­mente por Rudolf de Jong, mas que pode ser feita a partir de seu texto, é sobre a interação entre as organizações anarquistas e os movimentos sociais. Esta reflexão da transformação pela periferia nos faz crer que, ao estabe­lecer este contato com os movimentos sociais, os anar­quistas devem, em primeiro lugar, buscar movimentos sociais que signifiquem a periferia do sistema em que vivemos, e, em segundo lugar, dentro destes movimen­tos, buscar contato com as “áreas periféricas”, ou seja, a base e não com a direção.
Para o trabalho social, os anarquistas devem eleger os movimentos sociais mais dispostos a radicalizar, e de­fender posições práticas semelhantes às suas. Isto é mais fácil, geralmente, nos movimentos sociais em que a luta de classes é mais evidente; movimentos que ainda são pouco institucionalizados, hierárquicos etc. Este racio­cínio é fundamental para saber onde as sementes do anarquismo devem ser plantadas e, dentro de cada con­texto, quais são as movimentações populares que devem receber a atenção dos anarquistas.
O caso do sindicalismo é um exemplo que deve ser analisado com bastante atenção. O nível de hierarqui­zação e burocratização em que se encontram diversos sindicatos, muitas vezes, pode fazer com que eles sejam terrenos por demais complicados de atuar — utilizando muita energia dos anarquistas e oferecendo poucas pos­sibilidades. No entanto, isso não pode ser generalizado. Há setores sindicais ainda bastante autônomos, comba­tivos e com possibilidade de trabalho em favor do con­junto das classes exploradas. A questão é sempre veri­ficar se o sindicato, ou mesmo o movimento social, é ou não um espaço com estas possibilidades. Se for, merece esforço.
Esta reflexão sobre o terreno mais adequado para plantar as nossas sementes deve sempre ser feita. A experiência vem mostrando que é nos setores mais peri­féricos que as pessoas possuem mais afinidade com o anarquismo — os setores em que as pessoas têm muito pouco, ou nada a perder.
Quando em contato com os movimentos sociais — e sabemos que muitos deles estão hierarquizados e domi­nados por uma direção descolada da base — os anarquis­tas devem sempre se aproximar da base e não da direção. Fruto de outra série de experiências práticas, esta atua­ção da periferia para o centro dentro dos movimentos sociais indica que os esforços das organizações anarquis­tas devem se dar sempre de baixo para cima, buscando construir relações com os militantes de base e, por meio de tendências ou outros agrupamentos ou entidades, fazer com que a direção seja ouvida pela ampla maioria da base, que pode exigir maior participação, democracia direta etc. Assumir posições de direção nos movimentos sociais pode e deve ser objeto de grande preocupação entre os anarquistas, pois, quando isso acontece, pode-se, mesmo que sem querer, estar insistindo em uma transformação do centro para a periferia, com conse­qüências funestas para a luta.


PENSANDO AS RELAÇÕES CENTRO-PERIFERIA HOJE

Finalmente, podemos afirmar que o anarquismo, como proposta ideológica de transformação social revo­lucionária, teve, e ainda tem, muito a oferecer ao campo do socialismo. Esta reflexão sobre a transformação social passa, inevitavelmente, por uma discussão acerca da luta de classes e de seus atores na sociedade de hoje.
Nitidamente, a contradição clássica entre a bur­guesia e o proletariado não dá conta das relações de do­minação de hoje. Ao refletirmos sobre a questão da classe no Brasil, podemos relacionar a classificação cen­tro-periferia de Rudolf de Jong com uma série de experiên­cias que apontariam para novos e potenciais sujeitos re­volucionários. Os sem-terra, sem-teto, desempregados, catadores de material reciclável, indígenas, camponeses, pequenos produtores etc., foram (e algumas vezes ainda são) classificados como “lumpemproletariado”, tendo negado o seu potencial revolucionário. No entanto, é um fato que estes sujeitos despontam como atores impor­tantes e fundamentais nos movimentos sociais e nas lutas de nosso tempo. Junta­mente com trabalhadores e estu­dantes, podem consti­tuir hoje esta importante aliança de classe em torno do projeto revolucionário.
Para este projeto, o conjunto de classes exploradas tem condições de operar, a partir dos movimentos sociais, transformações sociais significativas. O modelo anar­quista de transformação social revolucionária possui aspectos bastante relevantes que podem ajudar a conce­ber esta transformação.
1. Trabalhar as transformações sociais por fora do Estado, que não deve ser utilizado como um meio, nem como propõem os reformistas, nem como pro­põem os revolucionários.

2. Reforçar a idéia anarquista de defender a ideo­logia dentro dos movimentos sociais e não o contrá­rio, quando os movimentos funcionam como correia de transmissão de um partido ou uma ideologia deter­minada.

3. Sustentar uma interação complementar e dia­lética entre a organização política e os movimentos sociais (níveis político e social), em que há desenvolvi­mento mútuo e não há hierarquia e domínio.

4. Reconhecer a inevitabilidade do enfrentamento para a transformação revolucionária, refletindo, de maneira estratégica e tática, como e quando a violên­cia deve ser utilizada, ainda que seja sempre como resposta, e, portanto, uma forma de autodefesa.

5. Conceber formas de atuação que dêem espaço para o envolvimento das bases, lutando com o povo e não por ele ou à frente dele.
6. Eleger os melhores espaços para atuar, bus­cando movimentos que agrupem militantes que so­frem de maneira mais dura os efeitos do capitalismo e que podem ser grandes aliados na luta de classes.

7. Buscar as bases dos movimentos sociais, cons­truindo um projeto de organização popular que vá de baixo para cima, ou da periferia para o centro, visando à transformação social revolucionária.

Novembro de 2008

Notas:

1 FARJ. Anarquismo Social e Organização. São Paulo/Rio de Janeiro: Faísca/FARJ (no prelo).

2 Mikhail Bakunin. “Educação Militante”. In: Conceito de Liberdade. Porto: Rés Editorial, s/d pp. 151-152.

3 Fabio López López. Poder e Domínio: uma visão anar­quista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2001 p. 83.

4 Rudolf de Jong. A Con­cep­ção Libertária da Transfor­mação Social Revolucionária.

5 Mikhail Bakunin. “Necessidades da Organização”. In: Conceito de Liberdade, p. 137.

6 Mikhail Bakunin. “Os Camponeses”. In: Conceito de Liberdade, p. 119.

7 Mikhail Bakunin. Estatismo e Anarquia. São Paulo: Ima­ginário, 2003, pp. 29-30.

8 Ibidem. p. 47.

9 Errico Malatesta. “Programa Anarquista”. In: Escritos Revolucionários. São Paulo: Imaginário, pp. 13-23.

10 FARJ. Anarquismo Social e Organização.

11 Sabe-se que no Exército Vermelho os desertores eram mortos e que, quando isso não funcionava mais, os bol­cheviques ameaçavam de morte as famílias dos comba­tentes, em caso de deserção.

12 FAU. El Copey. A utilização da palavra “partido” aqui é feita da mesma maneira que o fez Malatesta, que por partido referia-se à organização específica anarquista.

Nossa visão sobre a Plataforma



Texto do Laboratório de Estudos Libertários

Entendemos o texto "A Plataforma da Organização" como uma valiosa contribuição para o anarquismo militante e combativo. Mas, ao contrário do que possa parecer, o maior acerto deste documento foi justamente expor as bases programáticas da ação de uma ideologia revolucionária. Se fosse escrito por pessoas sem vínculo com a luta popular, já seria uma grande obra. Sendo produzido como uma reflexão política pelos companheiros ucranianos no exílio, o texto ganha legitimidade na característica mais marcante dos anarquistas: a gente faz o que fala.

A Revolução Russa começou em um processo de insurreição em 1905, justo o ano em que Nestor Machnó se inicia na luta. Mas, é sempre bom afirmar que a história é feita por milhões de pessoas, multidões em marcha, e não por individualidades. Não faz parte da ideologia e da tradição anarquista enaltecer ou criar mitos em torno de uma pessoa. Isto porque, além de injusta, esta não é nossa visão de mundo. Voltando a Plataforma, ao escreverem o documento em 1926, os guerrilheiros ucranianos expressaram publicamente uma proposta de organização que vinha sendo forjada há mais de 70 anos.

Podemos afirmar que o anarquismo contemporâneo, surge como proposta política de libertação dos trabalhadores e oprimidos nas jornadas de 1848. Deste marco, até o ano de 1917 quando se inicia a Revolução Russa, o anarquismo forjou na raça sua própria teoria política e organizativa. Ë fundamental compreender os dois princípios básicos da organização política específica dos anarquistas, seja em qualquer etapa de um processo histórico.

A motivação dos anarquistas se organizarem é a de participar e disputar a hegemonia dos movimentos populares de um determinado território ou população. Ou seja, estes militantes se organizam com a função de impulsionar um processo revolucionário em todos os níveis. Para isto, dois mecanismos são necessários. O Federalismo (ou seja, a forma federalista de organizar o partido dos anarquistas) e sempre algum nível conspirativo.

Nossa ideologia aplica a Autogestão para os níveis sócio-econômicos de uma sociedade, a autogestão plena de um sindicato ou associação de moradores não pode ser a de uma federação, caso esta se proponha a tentar ajudar a derrubar um regime, destruir o sistema, sua elite dominante e transformar a sociedade. O anarquismo entende a sociedade como uma luta permanente contra a opressão, o Estado como o braço político-jurídico-militar do inimigo e a função da ideologia é aplicar uma série de medidas práticas para aumentar as conquistas da classe e povo. Portanto, o anarquismo não confia no sistema que o inimigo se apodera e domina. A ideologia tem de se organizar em forma política para contribuir nesta luta. O anarquismo de combate não pode conviver pacificamente com o capitalismo, não é uma forma de comportamento, é um compromisso de vida com o socialismo e a liberdade.

A grande contribuição da Plataforma é justamente sistematizar minimamente estas idéias, dando uma visão precisa do que é uma sociedade desigual, as relações de força e a necessidade do Poder Popular derrotar em todos os níveis ao Poder Opressor e suas formas de domínio sobre a sociedade. O texto que Machnó e os demais companheiros fizeram nada mais é do que fruto de um processo que se inicia com as insurreições operárias e populares de 1848, as carbonárias anarquistas, a atuação da Aliança e da Fraternidade coordenadas por Bakunin e hegemônicas na Ala Federalista da 1a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).

Na atualidade, compreendemos que o "plataformismo" nada mais é do que um outro nome para a proposta política-específica dos anarquistas. A mesma das carbonárias clandestinas e semi-clandestinas de Bakunin. A mesma proposta de Partido Anarquista defendida por Malatesta até 1922. A Federação específica que era a Federação Anarquista Ibérica (FAI) em certo volume, mas que infelizmente não chegou a desenvolver um programa revolucionário. Faz parte da mesma tradição do Partido Liberal Mexicano (PLM, era o nome original, na verdade era Libertário) dos companheiros Ricardo Flores Magón, Praxedes Guerrero e milhares de camponeses zapatistas. Nesta mesma linha política, e avançando muito além no plano teórico e operacional, a Federação Anarquista Uruguaia (FAU) segue há mais de 45 anos.

O que afirmamos é a importância histórica e de identidade combativa da Plataforma. A contundência e a força de uma organização político-militar como o Exército Insurrecional dos Camponeses da Ucrânia (machnovista) é a tradição anarquista mais precisa em pleno funcionamento. Não descaracterizamos visões filosóficas, artísticas e comportamentais de influência anarquista. Mas, vemos a Plataforma como uma expressão pública do que é o anarquismo político.

No momento que vivemos, temos de criar as bases de um processo que construa organizações específicas anarquistas e que cada uma destas organizações gere as bases de suas própria plataformas. Isto é, um programa, uma forma de funcionamento de partido anarquista (federalista e funcional), um bom conhecimento de como funciona o capitalismo e "as matrizes e tradições sociais do povo onde estas organizações se inserem". Isto é uma Plataforma!

São processos longos, algumas vezes tortuosos, mas imprescindíveis e necessários. No caso brasileiro, sabemos da complexidade deste país e também que os primeiros passos são organizações a nível estadual. A existência de uma organização específica brasileira (a ser construída) é condição prévia para uma possibilidade de revolução social nesta parte do mundo. Isto significa, que se queremos de fato influenciar e disputar o processo de libertação do povo brasileiro, temos de estar organizados para isto. Se queremos ter uma chance de superar 500 anos de colonialismo e opressão da América Latina, é necessário uma revolução brasileira.

Um bom exemplo de necessidade social e vontade política é a Plataforma e seu grupo criador, o Dielo Trouda. Vemos que a maior contribuição deste documento é tornar público o anarquismo como ele é e funciona. Nossa ideologia em ação é isto, uma ferramenta político-organizativa para os pobres, trabalhadores, oprimidos, excluídos e explorados do mundo (e no nosso caso, do Brasil e da América Latina) se libertarem do capitalismo e do imperialismo. A luta em todos os níveis implica a necessidade de uma teoria (hipótese a ser testada na realidade) e uma prática política (incidência sobre a realidade da organização anarquista, através da inserção social e a execução de seu programa revolucionário) através de uma Organização Específica dos Anarquistas comprometidos com o Socialismo e a Liberdade.

Ser mais um exemplo (teórico e prático) do anarquismo em ação é a importância que documentos como a "Plataforma da Organização" tem e sempre terão.

Saudações Libertárias,

Laboratório de Estudos Libertários.


Site: Makhno / Makhnovists
http://www.nestormakhno.info/portuguese/index.htm

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O príncipe vermelho e negro da Anarquia


" O tempo e o espaço é apenas um detalhe para o príncipe vermelho e negro do Anarquismo, pois este não gira em torno do sol. Ele viaja por todo o Universo ."


Pyotr Alexeyevich Kropotkin, em russo Пётр Алексе́евич Кропо́ткин, (Moscou, 9 de dezembro de 1842 — Dmitrov, 8 de fevereiro de 1921) foi um escritor russo

Biografia:

Seu pai, príncipe de Smolensk, Alexei Petrovich Kropotkin, afirmava pertencer a antiga casa real de Rurik que governara Moscou antes dos Romanov. Sua mãe, Yekaterina Nikolaevna Sulima, filha de um general do exército russo, tinha dotes artísticos (gostava de ler, escrever e pintar) e inclinações pelos ideais liberais.
Na infância, época em que viveu numa casa de campo em Kaluga, teve contato com leituras de Pushkin, Nekrasov, Chernyshevsky (jornalista radical), tudo graças a tutores que cuidaram de sua educação nesta época.
Com quinze anos foi matriculado no Corpo de Pagens, a mais exclusiva escola militar da Rússia czarista, por ordens do próprio Nicolau I, onde eram educados somente 150 garotos na sua maioria filhos da realeza palaciana. Nesta época, entre 1857 e 1861 Kropotkin viu florescer uma atividade intelectual forte em seu país e passou a receber influências da nova literatura liberal revolucionária. Demonstrou grande interesse pelos enciclopedistas franceses assim como pela história deste povo. Com o passar dos anos também dirigiu sua atenção às condições do campesinato russo.
Em 1862 foi promovido para o exército. Como membro do corpo de pagens tinha possibilidades de escolher o regimento em que gostaria de servir, tendo optado pelo dos Cossacos Siberianos no recém conquistado distrito de Amur. Lá tinha perspectivas de conseguir um cargo administrativo. Sua condição de Sargento da Corporação implicava em, por um ano, ter sido pagem pessoal do então czar, Alexandre II.
Na Sibéria fez vistorias aos cárceres e à situação dos condenados daquela divisa. As condições deploráveis e o descaso das autoridades impressionavam-no.
Sua reputação como geógrafo se deu em grande parte pelas viagens que realizou nesta época pelo oriente siberiano onde percorreu cerca de 50 mil milhas a fim de explorar um terreno ainda muito virgem. Fez observações e desenvolveu teorias sobre as estruturas das cadeias montanhosas e platôs da Ásia Oriental. Contribuiu também para o conhecimento da história da Terra.

Anarquismo comunista:

Kropotkin foi um dos principais anarquistas da Rússia e um dos defensores do que ele mesmo chamava de "comunismo libertário".
A base de tal concepção encontra-se na idéia de que o critério para o consumo (tanto de bens quanto de serviços) dos indivíduos não seja o trabalho, mas a necessidade. Kropotkin advogava assim um sistema de distribuição livre da produção, conceito este que está ligado ao raciocínio de que não é possível medir a contribuição isolada de um indivíduo na produção social, e que, portanto, uma vez realizada, toda ela deva ser desfrutada socialmente.
Kropotkin vê, socialista que é, a coletivização dos meios de produção como o objetivo da transformação social, mas, diferentemente de alguns, infere que a este fenômeno seguiriam como consequência inevitável a distribuição livre e a extinção de qualquer sistema de salários.
Numa tal sociedade a produção seria orientada para o consumo e não para o lucro. E Kropotkin vai além em suas considerações sobre esta outra forma de sociabilidade ao vislumbrar uma ciência dedicada a descobrir meios para conciliar e satisfazer as necessidades de todos.
Ao problema que se levanta quando se pensa a distribuição livre, Kropotkin não vê aí uma abertura para a instauração de um governo revolucionário, pelo contrário, diz ser a cooperação voluntária o substituto tanto para a propriedade privada quanto para a desigualdade, categorias nas quais se fundamentam o Estado. Neste sentido, Kropotkin defende um sistema de administração pública fundada na idéia de comuna não apenas enquanto unidade administrativa mais próxima do povo e de suas preocupações imediatas, mas também enquanto associação voluntária que reúne os interesses sociais representados por grupos de indivíduos diretamente ligado a eles.
A união destas comunas produziria uma rede de cooperações que substituiria o Estado.
Por causa de seu título e sua proeminência como um anarquista no final do século XIX e começo do XX, ele foi conhecido por alguns como "o Príncipe Anarquista", título que refutou durante toda sua vida.
O Príncipe Anarquista, transformou suas terras em comuna agricula, materializando o Comunismo Libertário no Rússia.


O Geografia e o Anarquismo:


Kropotkin é o primeiro a desenvolver uma geografia de militância anarquista, com compromisso de transformação social, buscou casar o Anarquismo com a Geografia e transformala em um método e ciência, duramente criticado por ouros Anarquistas por isto.
O Anarquismo federalista de Kropotkin é o desdobramento da organização anarquista e do apoio mútuo em uma geografia mais ampla, prevê a formação de redes de relações de produção, consumo entre outras, gerida pelas comuna dos trabalhadores.
É de importancia para este tema citar: Élisée Reclus
Jean Jacques Elisée Reclus (Sainte-Foy-la-Grande, 15 de março de 1830 — Thorout, 4 de julho de 1905) foi um geógrafo francês, militante anarquista obrigado a deixar a seu país em 1851 por conta de seus ideais. Em exílio, seguiu para Berlim onde teve aulas com karl Ritter, esteve também na América, inclusive no Brasil.
No dia 4 de Julho de 1905 desaparecia Elisée Reclus (1830-1905), teórico da anarquismo e criador da moderna geografia, autor de uma obra colossal que lhe rendeu prestígio e notoriedade internacional. Reclus deu uma grande importância aos movimentos geopolíticos e geoestratégicos. Uma das originalidades de Reclus é a sua capacidade de saber equacionar criticamente as estratégias imperialistas desmascarando os discursos que normalmente as veiculam. A conhecida revista científica Hérodote, especializada em geografia e geopolítica, consagrou o seu número de Verão (Julho/Agosto/Setembro de
2005) à obra e vida de Elysée Reclus.

"A anarquia é a mais alta expressão da ordem. Para que o socialismo chegue à sua completa expressão é preciso que salvaguarde ao mesmo tempo os direitos do indivíduo e os direitos coletivos. O homem não é um acidente, mas sim um ser livre, necessário e ativo que se une com os seus semelhantes mas que não se confunde com eles"
(E. Reclus, Manuscritos de Montauban)

"Liberdade sem socialismo é privilégio e injustiça; socialismo sem liberdade é escravatura e brutalidade."
Miguel Bakunin


Obras de Élisée Reclus:

* La Terre, description des phénomènes de la vie du globe, 2 volumes, 1857
* Géographie universelle, 1875-1894
* L'Afrique australe, em colaboração com seu irmão, Onésime (Orthez 1837 - Paris 1916), 1901
* L'empire du milieu, id., 1902
* L'home et la terre, 1905-1908
* A Evolução, a Revolução e o Ideal Anarquista


Cronologia de vida:

Kropotkin na Suécia em 1917

* 1842 – Nasceu em Moscou, Rússia, em 9 de dezembro.
* 1857 – Entrou para o "Corps of Pages", onde começou a desenvolver uma reputação de rebelde.
* 1858 – Seus primeiros escritos mostraram interesses em economia política e estatística; iniciou os primeiros contatos com camponeses "de verdade".
* 1861 – Foi para a prisão pela primeira vez como resultado por participar de um protesto estudantil.
* 1862 – Tornou-se desiludido com a realeza quando, como page de chambre para o tsar, testemunhou as extravagâncias da vida na corte.
* 1862-1867 – Por pedido próprio, serviu como militar na Sibéria. Testemunhou as condições de vida lá, e a falta de vontade da administração corrupta para fazer qualquer coisa a fim de melhorá-las.
* 1868-1870 – Buscou conhecimento sobre agrimensura e geografia.
* 1871 – Tornou-se interessado no movimento trabalhista e em acontecimentos acerca da Comuna de Paris.
* 1872 – Viajou para a Suíça, onde entrou para a Internacional Socialista; voltou para a Rússia com vários escritos Socialistas proibidos.
* 1873 – Como membro do Círculo de Tchaikovsky, ajudou reescrevendo panfletos de uma forma que pudesse ser lida pelos com menos educação; ele mostrou grande habilidade para se comunicar com os trabalhadores.
* 1874 – Foi preso na Fortaleza de Pedro e Paulo por causa de suas atividades revolucionárias. Com a intervenção da Sociedade Geográfica, ele ganhou dispensa especial para trabalhar num jornal.
* 1876 – Fugiu do hospital militar e se mudou para a Inglaterra.

Kropotkin em seu leito de morte

* 1877 – Retornou à Suíça para trabalhar com a Federação Jura. Foi ao último encontro da Internacional Socialista em Gante.
* 1881 – Foi à Internacional Anarquista em Londres. Deu suporte ao assassinato do Czar Alexandre II, com base no fato de que uma explosão é bem mais efetiva do que um voto para encorajar os trabalhadores à revolução. Isso o expulsou da Suíça. O governo Russo ficou constrangido quando ele descobriu um plano para assassiná-lo em Londres.
* 1882 – Logo depois de se mudar para a França, foi preso por seu trabalho na Primeira Internacional Socialista e sentenciado a cinco anos na prisão. Ele ficou lá até 1886, quando foi solto sob a condição de que deixasse a França.
* 1886 – Voltou à Inglaterra. Descobriu que seu Irmão Alexander havia cometido suicídio no exílio por atividades políticas na Sibéria.

O funeral de Kropotkin

* 1890-1900 – Passou a maior parte de seu tempo escrevendo. Visitou o Canadá e os Estados Unidos em 1897. O Atlantic Monthly concordou em publicar suas memórias. Nos seus livros, ele tentou desenvolver uma visão de sociedade Anarco-comunista.
* 1901-1909 – Escreveu materiais em russo para leitores de sua terra natal. Ficou muito desapontado com o fracasso da Revolução de 1905.
* 1909-1914 – Voltou à Suíça sob a condição de refrear suas atividades anarquistas. Tentou tornar de conhecimento público o massacre de 270 trabalhadores nas Minas de Lena, mas sua atividade foi cortada por causa da Primeira Guerra Mundial. Então, ele se mudou para o Reino Unido, onde passou algum tempo em Brighton.
* 1914-1917 – Deu suporte ativo à guerra contra a Alemanha como uma guerra contra o Estado. Essa posição, estranha e questionável para um anarquista, fez com que muitos companheiros se afastassem dele, em particular Errico Malatesta.
* 1917 – Voltou a São Petersburgo, onde ajudou o governo de Kerensky a formular políticas. Parou suas atividades quando os Bolcheviques tomaram o poder.
* 1921 – Seu funeral no Cemitério de Novodevichy, com a aprovação de Lenin, tornou-se a última grande reunião de anarquistas na Rússia.

Obras:

Kropotkin deixou muitos livros, panfletos e artigos. Os mais conhecidos trabalhos foram:

* A Conquista do Pão
* Campos, Fábricas e Oficinas
* Mutualismo: Um Fator de Evolução, sobre o apoio mútuo na natureza e nas sociedades humanas
* Encyclopædia Britannica de 1911, como contribuidor.
* Em Torno de uma Vida ou Memórias de um Revolucionário, autobiografia
* Humanismo Libertário e a Ciência Moderna, editado no Brasil pela Mundo Livre, o título – O Anarquismo e a Ciência Moderna – foi alterado para ludibriar a ditadura militar.
* As prisões, analisa os sistemas prisionais existentes em diversos países.
* A Anarquia: sua filosofia, seu ideal
* O Estado e seu papel histórico

Referências bibliográficas:

* WOODCOCK, G. História das idéias e movimentos Anarquistas. Porto Alegre: Ed. L&PM Pocket, 2002.
* KROPOTKIN, P. A Anarquia: sua filosofia, seu ideal. Coleção Escritos Anarquistas. São paulo Ed. Imaginário, 2001.
* KROPOTKIN, P. O Estado e seu papel histórico. Coleção Escritos Anarquistas. São paulo Ed. Imaginário, 2000.
* Wikipedia - fonte deste texto.
* adapitação: Eduardo Preto

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os símbolos do Anarquismo



Os pensadores como símbolo matriz.


Os pré anarquistas como William Godwin, não desconfiavam que suas idéias se desdobrariam em uma tendência de idéias que influenciaria o nascimento do Anarquismo, em especial influenciando os principais pensadores Anarquistas. Godwin é considerado precursor do anarquismo filosófico, ainda que não tenha utilizado propriamente a palavra anarquismo, para alguns Anarquistas Godwin é nada mais que um liberal, outros anarquistas como Makhno admitem ter sido influenciado pelo pensamento de Godwin e o valorizam como escritor e pensador pré Anarquista.
O Anarquismo tem sua máxima e seu nascimento com Pierre Joseph Proudhon, um operário e deputado de esquerda na França que cansado de acreditar no parlamento opta em abandonar o parlamento pela luta junto aos movimentos sociais de sua época, dando inicio a uma esquerda libertaria que faria sua luta fora da esfera do Estado Burguês.
Proudhon é o primeiro na historia a se declarar Anarquista e a escrever sobre este tema, protagonista do federalismo Anarquista e das idéias que em momento posterior ficariam conhecidas por auto-gestão sócio-econômica e que na atualidade recebe o nome de cooperativismo ou economia solidária, influenciou não só com suas idéias mas com uma pratica política libertaria de fazer e promover o movimento social fora da esfera do estado, negando a luta parlamentar, da inicio a um conjunto de adesões políticas a seu nome conhecidos como proudhonianos, que seriam um dos grupos socialistas mais influentes na 1º internacional dos trabalhadores.
Mikhail Aleksandrovitch Bakunin um Socialista Libertário conhece Proudhon já no fim de sua vida, mas a partir deste encontro, Bakunin passa a se declarar também um Anarquista, apaixonado pelos ideais de liberdade de Proudhon, este Russo se identifica com este Francês e a partir dai o Anarquismo ganha uma nova força política.
Bakuninistas e Proudhonianos somam suas forças na 1º internacional, caracterizando uma das principais correntes socialistas da historia que levaria o nome de Anarquismo.
Nasce uma nova experiência ao anarquismo com Bakunin, que traz a este uma formula operativa de organização política especifica que se tornaria o método do partido revolucionário ou da organização especifica dos Anarquistas, para somar forças no movimento social dos trabalhadores da época.
Esta atuação social vai ser a protagonista de diversos sindicatos livres de orientação revolucionaria ou do sindicalismo revolucionário da 1º internacional ou da AIT ( Associação Internacional dos Trabalhadores ) como ficou conhecida.
Outros grupos Anarquistas com esta mesma orientação nascem a partir dai em todo o mundo e cabe ressaltar os malatestianos, que defendiam a idéias de Errico Malatesta, Italiano e militante sindicalista, precursor também do chamado partido Anarquista.
Errico Malatesta participa da criação de sindicatos em toda Europa e também nas Américas e participa junto com Emma Goldman da 3º Internacional como oposição aos socialistas autoritários.
Na Rússia nasce o Comunismo Libertário através de Pierre Alekseïevitch Kropotkine com as comunas agrárias e o plataformismo de Nestor Makhno.
A plataforma nasceu das experiências dos anarquistas russos durante a Revolução de Outubro de 1917, analisando que esta conduziu finalmente à ditadura do partido bolchevique ao invés da autogestão de trabalhadores e camponeses. A plataforma tem como intenção explicar e solucionar as falhas do movimento anarquista durante a Revolução Russa
A plataforma vem trazendo uma debate em torno da experiência das comunas na Ucrânia e de um Anarquismo de Guerra ao Anarquismo.
Ampliando o debate do nível de segurança ao Anarquismo, e é justamente neste debate que faz da FAI ( Federação Anarquista Ibérica ) e da coluna Buenaventura Durruti, a protagonista do Povo em Armas na Revolução Espanhola e da derrota desta pelas hordas do Exercito Fascista.
No mundo inteiro as tendências libertárias se alastram e na América Latina não foi diferente, tendo em fim desdobramentos e experiências com estes contornos.
Na França nasce a busca da unidade entre os diversos e diferentes grupos Anarquistas, protagonizado uma 1º experiência de organização especifica de Anarquistas em uma Federação de grupos, que hoje se conhece como Federação Sintetista, protagonizada pelo anarquista Sebástien Faure que escreve em apelo pela busca da unidade entre os Anarquistas.
Enquanto na Alemanha começa a nascer os primeiros grupos que norteariam os princípios dos grupos Autonomistas.



O "A no circulo" como 1º símbolo.



O Anarquismo não tinha um símbolo em seu inicio, mas nos Congressos dos trabalhadores começa a aparecer o símbolo do esquadro e compasso da Maçonaria que aparentava um "A" dentro de um circulo.
Uns dissem que foi dai que surgia o 1º símbolo do Anarquismo, outros dissem que o circulo é a política de organização que nega o triângulo que simboliza o Estado, por isto este circulo tem um corte na diagonal que representa esta negação do Estado se aparentando com um "A" no circulo, pelo traçado que corta o triângulo se tornando o "A" da Anarquia ou Anarquismo.
Historia vai e historia se faz, estória vem e em Maio de 1968 na França em um Congresso Anarquista é retomado o "A" no circulo, referendado em Congresso para unificar a política de pichações políticas nos muros das ruas de Paris.



O " Punho Esquerdo Erguido "



O punho esquerdo erguido já vem de um longo período na luta de classes, das assembléias nos movimentos sociais.
No MST se estranha todos que sem saber levantam o punho direito numa assembléia ou entonação do Hino e musicas do movimento.
O punho esquerdo é o símbolo do campo dos interesses da classe explorada e oprimida em luta contra os inimigos de classe.
Na Historia foi o símbolo dos movimentos sociais dos povos negros nos Estados Unidos da América como os Panteras Negras.
O punho erguido é o símbolo das Resistências Populares dos Movimentos Sociais em luta contra os interesses da classe burguesa e do Estado que se colocam contra e na ofensiva as Resistências Populares.
É o símbolo contra os interesses da direita reacionária defensora dos privilegiados, da exploração de classe e inimiga declarada da liberdade.
O punho esquerdo erguido é o resumo das idéias do " campo político " que nos situamos como Anarquistas no processo de acumulo de forças político sociais.




As Bandeiras como unidade de lutas simbólicas.



A Bandeira Negra:


A Bandeira negra, na historia contada remete as primeiras Fraternidades em especial e mais conhecida a dos Piratas e se torna símbolo da Revolução Social.
Os piratas adotavam códigos de Ética rígidos e internos em suas Fraternidades.
Todo saque era compartilhado e divido entre a tripulação.
Nas Fraternidades Piratas as decisões eram tomadas em assembléias e cada homem simbolizava um voto.
A tripulação era formada por voluntários em busca de novas experiências e aventuras.
O papel do capitão era de conduzir o corsário e traçar a rota marítima.
A bandeira Negra começa a ser usada na Europa nos movimentos sociais a partir da Revolução Francesa e se torna símbolo da Revolução Social.
A partir dai os Anarquistas usam a bandeira negra como símbolo de sua identidade de grupo revolucionário.
A cor negra da bandeira é a cor da Morte aos opressores e exploradores, e luto por todos que tombaram lutando por liberdade a negação das bandeiras nacionais.



A bandeira negra na historia anarquista


Mas a bandeira negra anarquista se originou muito antes disso. O primeiro caso de fato é desconhecido. Parece que este credito é reservado a Louise Michel, famoso participante na Comuna de Paris de 1871. De acordo com o historiador Anarquista George Wood Cock, Michel ergueu a bandeira negra em 9 de Março, 1883, durante uma passeata de desempregados em Paris, na França. A passeata contava com 500 pessoas e Michel como líder, gritando: "Pão, trabalho ou comando!", eles roubaram três padarias antes da policia vir intervir. Nenhum aparecimento mais antigo pode ser encontrado da bandeira negra.
Não muito depois do símbolo negro ter chegado à América. Paul Avrich reportou que em 27 de Novembro de 1884, a bandeira negra foi erguida em Chicago, durante uma passeata Anarquista. De acordo com Avrich, Espiões de Agosto, um dos famosos mártires de Haymarket, "notou que essa foi a primeira vez em que [a bandeira negra] foi erguida em solo Americano" (Avrich, The Haymarket Tragedy, 144-145).



A Bandeira Vermelha:


A Bandeira Vermelha vem sendo usada a muito tempo nos movimentos sociais, se tornando símbolo da Luta de Classes, protagonizada por estes movimentos, se tornou símbolo do sindicalismo e dos movimentos sociais em especial os norteados pelos princípios de igualdade das idéias Socialistas e Libertárias.
Também foi usada nas cruzadas e por impérios na Historia e atualmente também é usada por partidos políticos de orientação socialista.
Mas sua essência é a representação da luta de classes dos movimentos sociais que pretende a revolução socialista independente da orientação dos grupos ideológicos internos na luta que também a protagonizam.
A cor da bandeira vermelha nos remete ao sangue ou a cor de sangue, que simboliza a luta social do corpo revolucionário ou seja a vertente classista da luta social.



A Bandeira Vermelho e Negra:


A Bandeira Vermelho e Negra nasce com a atuação dos Anarquistas nos movimentos sociais dos trabalhadores, surge da união entre a bandeira vermelha da luta social e dos ideais socialistas, com a bandeira negra da revolução libertária.
Seu significado é o resumo dos objetivos da revolução social socialista libertária, entre a união do Anarquismo com os movimento social e ou sindicalismo.
Foi adotada pela 1º Internacional ou AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) e continuou sendo adotada no mundo todo pelo Anarquismo Social e pelas organizações especificas de Anarquistas.
As organizações especifistas usam a bandeira vermelho e negra na horizontal, como símbolo das políticas horizontais de organização social e alguns na diagonal, sendo muitas vezes a cor negra acima e a vermelha abaixo, mas não é uma regra simbólica adotada por estas federações especifistas.
O Anarquismo Social em especial o chamado Anarco-sindicalismo, usa a bandeira vermelho e negra somente com o corte na diagonal de 45 graus com o negro abaixo e o vermelho acima.
Uma das referencias do corte social que simboliza a ascensão de classe, para com os fins dos privilégios de classe, na busca da igualdade sócio-econômica e política, a bandeira vermelho e negra do Anarquismo social simboliza que a política nasce de baixo para cima e do lado esquerdo da luta e avança com a cor negra contra o lado direito da classe dos privilegiados, opressores e exploradores.
O Plataformismo usa a bandeira negra da revolução social usada historicamente pelo Exercito Insurgente Macknovista da Ucrânia, bem como no México os Zapatistas ou EZLN adota a bandeira negra.
O Sintetismo usa a bandeira vermelho e negra na diagonal, na maioria das vezes com o "A" no circulo, mas a atual FAI (Federação Anarquista Iberica) é uma exeção, pois outrora usava a bandeira vermelho e negra especifista na horizontal, mas que adota hoje em sua constituição o sintetismo como organização.
Os Autonomistas como se dividem em vários grupos de matrizes ideológicas diferentes, não tem hoje uma bandeira que unifique a política simbólica de sua forma de pensar e se organizar.



A Estrela Internacionalista


A Estrela é um símbolo muito antigo que representa o humano em advento da sua criação astral.
Símbolo que transcende o espaço conhecido como território, terra ou planeta, indica a aspiração pela internacionalização e união do homem, da classe sobre os interesses das fronteiras políticas e geográficas.
Usada por grupos diferentes na sociedade, o pentagrama recebeu até significados ocultos e foi perseguido como símbolo pagão, pelos reacionários e nacionalistas.
Entre Anarquistas a quem use a estrela negra símbolo da Internacional Anarquista e quem use a estrela vermelho e negra do Anarquismo Social internacionalista.
Os grupos Esperantistas de inspiração libertária adotam a estrela verde, símbolo e cor da esperança internacional em uma forma de comunicação lingüística sem fronteiras.



Política de comunicações


No Anarquismo se encontra uma ampla manifestação de política de comunicações e imagens, mas em todas elas é nítido o caráter de contestação, indignação, apologia a desobediência civil e ou heresias.
Desde desenhos do século passado com traços mais humanísticos ao surrealismo, cubismo, futurismo,psicodélismo, classistas e de contra cultura.
A diversidade anarquista nas comunicações vista desde publicações e pinturas, é de grande apreciação de criatividade, sempre contestando o Autoritarismo, o Estado, a Igreja, o Patriarcado, a exploração e opressão.



Comportamento como código simbólico de classe e grupo político ideológico.



No Anarquismo existe em maior ou menor grau regras de conduta e comportamento, como em toda protomutação social que queira romper com a atual cultura de dominação.
Era muito comum ouvir dos comunistas libertários a regra de comportamento:
- Ser, Estar e Viver Anarquista !
Ou do amplo perfil de jovens e vegetarianos, nas organizações Anarquistas de ontem e de hoje, mostrando o quanto é atual o comportamento como código simbólico de classe e grupo político ideológico no Anarquismo.
Ou Entre os povos do mundo a cultura de ouvir e dar conselhos.
Jaime Cubero, um companheiro que comentava sobre a cultura dos conselhos e da historia destes como organização social e horizontal dizia:
- Há historia social dos conselhos populares, é herança importante para os anarquistas, cabe ao anarquista se valer da cultura dos conselhos.
O companheiro Antonio Martinez sempre nos dava conselhos, e de uma forma e linguagem muito especial a explicação e desenvolvimento das idéias:
- Nossa casa é uma casa de trabalhadores, onde as pessoas se reconhecem como tais. Nossa casa não é um bordel que desrespeita todas as relações humanas. Não aceitamos que o Anarquismo seja transformado em um prostíbulo de idéias alheia aos trabalhadores.
Para se valer em transformar a cultura de dominação, o companheiro que luta por libertação social, tem que se fazer um agente da historia, casar a historia com o filme social, dando as pessoas as condições destas serem as protagonistas de suas próprias vidas na sociedade, rompendo com as cordinhas e alfinetadas, construindo o seu personagem na sociedade, materializando sua historia no espaço, para que também sirva como um espelho a todos aqueles que sem referencias ou sem saber caminhar buscam identidade.
Este comportamento leva os anarquistas a buscarem as referencias históricas na ação de companheiros que conseguiram, ousarão e lutaram, protagonizando as vitórias e idéias de transformação, como Prodhon, Bakunin, Kropotikin, Malatesta, Mackno, Durruti, Leuenroth entre tantos outros companheiros Anarquistas.
Ouvir e dar conselhos, simboliza também estudar e socializar conhecimento e livros aos demais companheiros como fazia Antonio Matinez.
Este comportamento é como um código simbólico que simboliza o anarquismo como membros de uma classe oriunda e como grupo político ideológico que aprendeu a aconselhar e saber caminhar contra as chibatas, sabendo onde fazer, e o que fazer para mudar a situação de dominação que sua classe vivenciara.



* Texto escrito por Eduardo Preto militante do núcleo pró FASP da Capital.
* Fonte: mídia independente: A história da bandeira negra.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

ESPECIFISMO: ORGANIZAÇÃO ANARQUISTA


Desenho (logo) do Tribunal Popular.
"O Estado Brasileiro no Banco dos Réus"






" A ausência de organização visível, normal e aceita por cada um de seus membros torna possível o estabelecimento de organizações arbitrárias, menos libertárias. "
Luigi Fabbri


Desde que o termo “especifismo” chegou ao Brasil, ainda em meados da década de 1990, houve uma série de polêmicas ou mesmo de confusões em torno dele. Houve, e infelizmente ainda há, pessoas que dizem que o especifismo não é anarquismo, acusam as organizações especifistas de serem partidos políticos, dentre outros absurdos. Quando reivindicamos a FARJ como uma organização anarquista especifista, estamos buscando, mais do que qualquer outra coisa, situar dentro da discussão sobre organização anarquista, quais são as posições que defendemos.

O termo especifismo foi criado pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e, por ele, nos referimos a uma concepção de organização anarquista que possui dois eixos fundamentais: organização e trabalho/inserção social. Estes dois eixos estão baseados nos conceitos clássicos do anarquismo de atuação diferenciada nos níveis político e social (conceito bakuninista) e de organização específica anarquista (conceito malatestiano). Portanto, o termo especifismo, apesar de ter sido concebido recentemente, refere-se às práticas organizacionais anarquistas que existem desde o século XIX. Além desses dois eixos, há uma série de outras questões organizacionais que são definidas dentro do especifismo e que buscaremos desenvolver em seguida. Portanto, as duas principais referências clássicas do especifismo são Bakunin e Malatesta. Isso não significa que desconsideremos outros importantes teóricos como Proudhon e Kropotkin – utilizamos neste texto muitas referências teóricas deles – mas acreditamos que, para a discussão de organização anarquista, Bakunin e Malatesta possuem propostas mais adequadas para nossa atuação.

Nos próximos parágrafos, pretendemos retomar de maneira breve algumas discussões que fizemos ao longo deste texto, e principalmente deste último capítulo, situá-las e compará-las com outras posições existentes dentro do anarquismo. Acreditamos que mais do que afirmar as posições que defendemos – o que fizemos até aqui – cabe realizarmos algumas críticas fraternais a outras concepções de organização (ou de desorganização) presentes no anarquismo e comparar, com base em alguns pontos escolhidos, nossa concepção com outras.

Talvez o melhor contraponto com o modelo de organização especifista, seja o que chamamos de modelo de síntese, ou sintetismo. Este modelo foi formalizado teoricamente em dois documentos homônimos, chamados “A Síntese Anarquista”, um de Sebastièn Faure e outro de Volin. Histórica e mundialmente, foi a Plataforma do Dielo Trouda que estabeleceu este contraponto. Pretendemos retomar parte deste debate sobre organização anarquista, apesar de, na nossa concepção, o especifismo ser mais amplo que o plataformismo – ainda que possua sua significativa influência.

A síntese defende um modelo de organização anarquista em que estejam todos os anarquistas (anarco-comunistas, anarco-sindicalistas, anarco-individualistas, etc.) e, portanto, apresenta muitas das características que criticaremos a seguir. Sabemos que várias destas características não estão necessariamente ligadas ao modelo sintetista de organização. No entanto, é inegável que muitas delas se reproduzam em organizações deste tipo, principalmente por influência do individualismo, mas não somente dele. Reconhecemos que dentro de organizações sintetistas também há militantes sérios e compromissados com o anarquismo social e, portanto, não queremos que as críticas pareçam generalizadas. Apesar de nunca questionarmos se estas organizações são anarquistas (para nós, todas elas são), elas, na maioria dos casos, não convergem com nossa maneira de pensar a organização anarquista.

Antes de tudo, quando tratamos neste texto da “organização específica anarquista”, a partir desta perspectiva especifista, não estamos falando de qualquer organização de anarquista. Há diversas organizações anarquistas que não são especifistas. Portanto, o especifismo implica em muito mais do que se defender a organização anarquista.

Tratemos das diferenças entre o especifismo e outras formas de organização anarquista.

A primeira diferença está na forma de entender o próprio anarquismo. Como pontuamos no início deste texto, entendemos o anarquismo como uma ideologia, ou seja, um “um conjunto de idéias, motivações, aspirações, valores, estrutura ou sistema de conceitos, que possuem uma conexão direta com a ação – o que chamamos de prática política”. Neste caso, buscamos diferenciar esta compreensão de anarquismo de uma outra, puramente abstrata e teórica, que estimula somente o livre pensar, sem necessariamente conceber um modelo de transformação social. O anarquismo pensado somente a partir deste modelo de observação crítica da vida, oferece uma liberdade estética e de possibilidades infinitas. No entanto, se assim for concebido, não oferece possibilidades reais de transformação social, visto que não é colocado em prática, em ação. Não possui a prática política que busca os objetivos finalistas.

O especifismo defende um anarquismo que, como ideologia, busque conceber um modelo de atuação que transforme a sociedade de hoje no socialismo libertário por meio da revolução social. Este processo, necessariamente, passa pela organização das classes exploradas em organização popular e exige a utilização da violência, entendida fundamentalmente como resposta à violência do atual sistema. Outras correntes anarquistas são contra a violência e acreditam que a transformação social pode se dar de outras maneiras.

Outra diferença está em torno da própria questão da organização. Para nós, a organização é uma questão absolutamente central ao tratarmos de anarquismo. Sem ela, acreditamos ser impossível conceber qualquer projeto político sério e que tenha por objetivo chegar à revolução social e ao socialismo libertário.

Há correntes anarquistas sustentam posições “anti-organização”, ou mesmo espontaneístas, e acreditam que qualquer forma de organização é autoritária ou avessa ao anarquismo. Para estas correntes, a formação de uma mesa para coordenar uma assembléia é autoritária, a formação de um grupo para trabalhar nos movimentos sociais é autoritária. Enfim, para estes anarquistas, as lutas devem se dar de maneira espontânea, os ganhos, caso vierem, deverão vir de maneira espontânea, a conexão entre lutas deve ser espontânea e o mesmo o capitalismo e o Estado, se forem derrubados, será por uma mobilização espontânea. Talvez, ainda, depois de uma eventual revolução social, as coisas evoluirão por sua própria conta, entrando nos eixos sem maiores esforços. Estes anarquistas acreditam que a organização prévia não é necessária, outros pensam que ela nem mesmo é desejável.

Alguns indivíduos anarquistas que defendem estes pontos de vista e que se dispõem a realizar trabalho social, não conseguem lidar com as forças autoritárias e, sem a devida organização, terminam sendo tarefeiros e “buchas” para projetos autoritários ou saem frustrados por não conseguirem espaço nos movimentos sociais.

Pontuamos anteriormente que concebemos a organização específica anarquista como uma organização de minoria ativa. Assim, ela é uma organização de anarquistas que se agrupam no nível político e ideológico e que realizam sua principal atividade no nível social, que é mais amplo, buscando ser o fermento das lutas. No modelo especifista, há obrigatoriamente esta diferenciação entre os níveis político e social de atuação.

Diferentemente, há anarquistas que concebem a organização anarquista como um amplo agrupamento que federa todos aqueles que se intitulam anarquistas, servindo como um espaço de convergência para a realização de ações com completa autonomia. No anarquismo, de maneira ampla, também esta divisão entre os níveis político e social não é aceita por todas as correntes, que compreendem a organização anarquista de maneira difusa, podendo ser ela um movimento social, uma organização, um grupo de afinidades, um grupo de estudos, uma comunidade, uma cooperativa, etc.

Mesmo o conceito de anarco-sindicalismo, em diversos momentos, buscou suprimir esta diferença de atuação entre níveis, misturando a ideologia anarquista com o sindicalismo. Estas e outras tentativas de ideologizar os movimentos sociais, no nosso entender, enfraquecem tanto os movimentos sociais – que não funcionam mais em torno de questões concretas como terra, moradia, emprego, etc. –, quanto o próprio anarquismo, já que não permitem o aprofundamento das discussões ideológicas, que são feitas em meio ao movimento social. Enfraquece também, pois o objetivo destes anarquistas de tornar todos os militantes dos movimentos sociais anarquistas é impossível, a não ser que se reduzam e enfraqueçam significativamente os movimentos. Desta forma, ou mesmo por ver que é natural encontrar pessoas de ideologias diferentes nos movimentos sociais que nunca serão anarquistas, estes anarquistas se frustram, e muitas vezes se afastam das lutas. Como conseqüência disso, fazem, frequentemente, o anarquismo fechar-se em si mesmo.

A organização anarquista de minoria ativa é muitas vezes entendida, por outras correntes do anarquismo, como similar à organização autoritária de vanguarda. Como fizemos questão de pontuar, quando concebemos esta separação entre os níveis político e social, não queremos dizer com isso que queremos estar à frente dos movimentos sociais e nem que o nível político possui qualquer hierarquia ou domínio em relação ao nível social.

Há também uma diferença em relação ao espaço privilegiado para a prática do anarquismo. Nós especifistas acreditamos que este espaço é a luta de classes. Antes de tudo, já consideramos que não vivemos apenas em uma sociedade, mas em uma sociedade de classes. Independente da forma que pensemos a diferença destas classes, nos parece impossível negar que a dominação e a exploração aconteçam em níveis diferentes em nossa sociedade e que o fator econômico tem grande influência sobre isso. Para nós, o anarquismo nasceu no seio do povo e é lá que ele deve estar, tomando uma posição clara em favor das classes exploradas que estão em conflito permanente na luta de classes. Portanto, quando discutimos “onde jogar as sementes do anarquismo”, para nós é claro que deve ser no seio da luta de classes; nos espaços em que as contradições do capitalismo são mais evidentes.

Há anarquistas que não sustentam este viés classista do anarquismo e, o que é pior, há aqueles que o acusam de ser assistencialista, ou de querer “fazer apologia dos pobres”. Negando a luta de classes, a maioria desses anarquistas acredita que como a definição clássica de classes de burguês e proletário não dá conta da sociedade de hoje, então se poderia dizer que não existem mais classes; ou que este seria um conceito anacrônico. Discordamos radicalmente destas posições e acreditamos que, independente de como formos definir as classes – se daremos mais ou menos ênfase ao caráter econômico, etc. – é inegável que existam contextos e circunstâncias em que as pessoas sofrem mais os efeitos do capitalismo. E é nestes contextos e nestas circunstâncias que queremos priorizar o nosso trabalho.

Quando buscamos aplicar o anarquismo à luta de classes, reivindicamos o que chamamos de trabalho social, e que definimos anteriormente como “a atividade que a organização anarquista realiza em meio à luta de classes, fazendo o anarquismo interagir com as classes exploradas”. Como também dissemos, para nós, esta deve ser a principal atividade da organização específica anarquista. Por meio do trabalho social, defendemos que a organização anarquista deva buscar a inserção social, “processo de influência dos movimentos sociais a partir da prática anarquista”.

Há anarquistas que não defendem este trabalho com vistas à inserção social. Parte não acredita que isso seja prioridade, e outra parte, o que é mais complicado, acredita que é autoritário. Para os anarquistas que pensam que trabalho/inserção social não são prioritários, parece que outras atividades teriam mais efetividade no desenvolvimento do anarquismo – por mais que geralmente isso não seja dito. Apesar de, pelo menos aparentemente, não haver uma formulação estratégica, o que acontece na prática é que estes anarquistas procuram trabalhar com a propaganda, muito restrita às publicações, aos eventos, à cultura. Como já enfatizamos, esta propaganda também é central para nós, mas não é suficiente se for feita sem respaldo de trabalho/inserção social. Com este respaldo, a propaganda é muito mais efetiva. Portanto, a propaganda, no especifismo, deve ser realizada por estes dois vieses: educacional/cultural e de luta com os movimentos sociais.

Os anarquistas que não acreditam que trabalho/inserção social não são e nem devem ser prioridade, preferem trabalhar em outros meios, longe da luta de classes, longe dos movimentos sociais, longe das pessoas de ideologias diferentes. Alguns dizem que como são membros da sociedade, já possuem inserção social. Muitas vezes, terminam sectários, conseguindo conviver apenas com seus pares, e “guetificando” o anarquismo. Isso explica o sectarismo de parte dos anarquistas, que acontece em proporção muito menor com as organizações especifistas.

Muito mais complicada que a posição acima, é a posição defendida por anarquistas que são contra o trabalho e a inserção social; posição bastante comum no meio libertário. Esses anarquistas acreditam que como muitas vezes não são pobres, como muitas vezes não estão em movimentos sociais (não são sem-terra, por exemplo), que é autoritário trabalhar com a comunidade carente ou mesmo com os movimentos sociais, já que “são de fora dessa realidade”. Para eles, é autoritário uma pessoa que tem onde morar apoiar a luta dos sem-teto; é autoritário freqüentar um movimento comunitário sem ser da comunidade; é autoritário apoiar o trabalho dos catadores de lixo se você não é um deles. Para estes anarquistas, só há legitimidade em se trabalhar com movimentos populares se você é um “popular” e se você faz parte da realidade do movimento. Como geralmente esses anarquistas não estão nessas condições, não se aproximam de movimentos sociais e nem da luta de classes. Terminam por fazer de seu anarquismo um “movimento em si mesmo”, que se caracteriza por ser essencialmente de classe média e de intelectuais, por não buscar contato com as lutas sociais e populares, por não estar em contato com pessoas de ideologia diferentes. Aliás, este anarquismo de classe média e intelectual, quando não busca trabalho e inserção social, termina necessariamente em um de dois caminhos. Ou abandona a proposta de transformação social, ou constitui-se em um agrupamento que luta pelo povo, e não com o povo – assumindo a posição de vanguarda e não de minoria ativa.

O trabalho social, para estes militantes, é muitas vezes comparado ao “entrismo” da esquerda autoritária, pessoas que entram nos movimentos para fazê-los funcionar em seu próprio favor. Na maioria das vezes, defendem um espontaneísmo de que “vir de fora”, “colocar o anarquismo dentro dos movimentos sociais”, é autoritário. Segundo eles, as idéias deveriam surgir espontaneamente. Acusam a discussão, a persuasão, o convencimento, a troca, a influência, externos aos movimentos sociais e, por isso, autoritários.

Dessa posição contrária ao trabalho e à inserção social, nós especifistas também discordamos radicalmente. Como explicamos, para nós o anarquismo não deve ser fechado em si mesmo, e nem se afastar dos movimentos sociais e das pessoas de ideologias diferentes. Ele deve servir como ferramenta, como fermento, como motor das lutas de nosso tempo. Para isso, o anarquismo, ao invés de esconder-se deve confrontar-se com a realidade e buscar transformá-la. Para esta transformação, de nada adianta “pregarmos para os convertidos”; temos, necessariamente, que interagir com não-anarquistas.

Já que entendemos que a classe não se define a partir da origem, mas sim a partir da posição que se defende na luta, acreditamos que apoiar movimentos sociais, auxiliar mobilizações e organizações diferentes da realidade que se está incluído é uma obrigação ética de qualquer militante comprometido com o fim da sociedade de classes. Finalmente, acreditamos que o trabalho social traz a prática necessária ao anarquismo, que tem uma contribuição imensa na formulação da linha teórica e ideológica da organização. Esta atividade é, para nós, importantíssima em nossa formulação teórica, pois faz com que teorizemos tendo conhecimento da realidade e da aplicação prática do anarquismo nas lutas. Grupos e organizações que não possuem trabalho social tendem a radicalizar um discurso que não possui respaldo na prática. Quando isso acontece, a tendência é que exista um discurso ultra-radical e revolucionário – muitas vezes acusando outros de reformistas, etc. –, mas que não sai da teoria.

Como vimos, no especifismo há unidade teórica e ideológica, um alinhamento em relação aos aspectos teóricos e ideológicos do anarquismo. Esta linha política é construída coletivamente e todos na organização têm obrigação de segui-la. Por considerarmos o anarquismo algo muito amplo, com posições muito variadas ou mesmo contraditórias, nos parece necessário que, entre todas estas posições, devemos extrair uma linha teórica e ideológica a ser defendida e desenvolvida pela organização. Como enfatizamos, esta linha deve, necessariamente, ter vínculo com a prática, já que acreditamos que “para teorizar com eficácia é imprescindível atuar”.

Para anarquistas que não defendem esta unidade, a organização anarquista poderia trabalhar com diversas linhas teóricas e ideológicas. Cada anarquista ou grupo de anarquistas pode ter a sua interpretação do anarquismo e sua própria teoria. Isso é motivo de diversos conflitos e cisões em organizações com esta concepção. Como não há acordo nas questões de saída, são freqüentes as brigas, pois alguns acham que os anarquistas devem realizar trabalho com movimentos sociais, outros acham isso autoritário e “coisa de marxista”, alguns acham que a função do anarquismo é realçar o ego dos indivíduos, outros são radicalmente contra, e assim por diante. Para nós, não há como ter uma prática efetiva ou mesmo constituir-se em uma organização, sem que haja acordo em algumas “questões de saída”. Nas organizações que não trabalham com unidade teórica e ideológica, não há aprofundamento neste sentido, visto que com tantos problemas nas questões mais simples, as mais complexas não chegam nem a ser discutidas. Bakunin estava certo quando afirmou que “quem muito abraça, pouco aperta”1. É importante

que se compreenda que a divisão que existe neste ponto entre os anarquistas é muito mais profunda do que o que normalmente se acredita, e que supõe igualmente uma inconciliável discordância teórica. Digo isto para responder aos meus bons amigos, favoráveis a um acordo a qualquer preço, que afirmam: “Não criemos problemas de método! A idéia é uma só e a meta é a mesma; permaneçamos pois unidos sem nos rasgarmos por um pequeno desacordo sobre a tática”. Eu, ao contrário, dei-me conta há muito tempo atrás, que nos dilaceramos justamente porque estamos muito próximos, por que estamos artificialmente próximos. Sob o verniz aparente da comunidade de três ou quatro idéias – abolição do Estado, abolição da propriedade privada, revolução, anti-parlamentarismo – existe uma diferença enorme na concepção de cada uma destas afirmações teóricas. A diferença é de tal monta que nos impede de tomarmos o mesmo caminho sem querelarmo-nos e sem neutralizar reciprocamente o nosso trabalho ou, se assim quisermos, permanecer em paz, sem renunciarmos àquilo que acreditamos ser verdadeiro. Repito: não existe apenas uma diferença de método, mas sim uma grande diferença de idéias.2

Além da unidade teórica e ideológica, os especifistas defendem a unidade estratégica e tática. Atuar com estratégia, como vimos, implica em realizar um planejamento de todas as ações práticas que forem realizadas pela organização, buscando verificar de onde se quer sair, onde se quer chegar e como. O anarquismo que trabalha com unidade estratégica e tática faz do planejamento e do alinhamento na atuação prática um forte pilar organizacional. Isso, porque acreditamos que a falta de estratégia dispersa os esforços, fazendo com que muitos deles sejam perdidos. Defendemos um modelo em que se discute coletivamente um caminho a seguir, e junto com este caminho, temos prioridades estabelecidas e responsabilidades atribuídas aos militantes. As prioridades e responsabilidades significam que cada um não vai poder fazer o que lhe passar pela cabeça, quando quiser. Cada um vai ter obrigação, perante a organização, de realizar aquilo que se comprometeu e aquilo que foi definido como prioritário. Obviamente que se buscará conciliar as atividades que cada um gosta de fazer, com as responsabilidades estabelecidas pela organização, mas nem sempre temos de fazer só aquilo que gostamos de fazer. Um modelo especifista implica em termos de fazer coisas que não gostamos muito ou deixarmos de fazer algumas coisas que gostamos muito. Isso, para fazer com que a organização caminhe com estratégia, com todos remando o barco no mesmo sentido.

Criticamos com ênfase as organizações que não trabalham com estratégia. Para nós, não há como trabalhar em uma organização em que cada militante ou grupo faz aquilo que achar melhor, ou simplesmente aquilo que gosta de fazer, acreditando estar contribuindo com um todo comum. Geralmente, quando se agrupa anarquistas de todos os tipos em uma organização, sem que haja afinidades estratégicas, não há qualquer acordo sobre como atuar. Ou seja, não é possível estabelecer uma forma de caminhar, e há somente um acordo: que as coisas devem ir caminhando.

Como pensar uma organização em que se busca conciliar um grupo que acredita que deve atuar como organização específica no movimento social, com um grupo que acha que a prioridade deve ser a convivência entre amigos, a terapia de grupo ou mesmo a exaltação do papel do indivíduo, considerando autoritário (ou mesmo marxista ou assistencialista) o trabalho com movimento sociais? Há duas formas de se trabalhar essas diferenças: ou se discute as questões, e se vive entre brigas e desgastes, que consomem grande parte do tempo, ou simplesmente não se toca nas questões. A maioria das organizações deste tipo opta pela segunda forma.

A fim de estabelecer uma certa coordenação na ação, coordenação necessária, creio eu, entre pessoas que tendem para o mesmo objetivo, impõem-se determinadas condições: um certo número de regras ligando cada um a todos, determinados pactos e acordos renovados frequentemente – se falta tudo isto, se cada um trabalha como lhe apetece, as pessoas mais sérias encontrar-se-ão elas próprias numa situação em que os esforços de uns serão neutralizados pelos dos outros. Disto resultará a desarmonia e não a harmonia e a confiança serena para a qual nós tendemos.3

A unidade teórica e ideológica e a unidade estratégia e tática são atingidas por meio do processo decisório coletivo, adotado pelas organizações especifistas que é a tentativa de consenso e se este não for possível, a votação, vencendo a maioria. Como também enfatizamos, neste caso, toda organização adota a decisão vencedora. Diferentemente, há organizações que trabalham somente com o consenso, permitindo, muitas vezes, que uma ou outra pessoa tenha influência exacerbada em um processo decisório que envolve um número muito maior de pessoas. Buscando o consenso a qualquer custo, e com o medo de rachar, essas organizações permitem que uma ou outra pessoa consiga ter um peso desproporcional nas decisões, somente para se conseguir o consenso. Outras vezes, se gasta horas com discussões de pouca importância somente para se buscar o consenso. Temos em mente que o processo decisório é um meio e não um fim em si mesmo.

A obrigação de todos seguirem um mesmo caminho – que é regra no especifismo – é o compromisso que a organização possui com a estratégia, pois, se cada vez que uma decisão tomada não agradar parte dos militantes, e esta parte se recusar à realização do trabalho, será impossível a organização caminhar. Em caso de votação, é importante termos em mente que, em uma vez, alguns ganharão a votação e trabalharão na sua proposta, em outra vez, perderão e trabalharão na proposta dos outros companheiros. Com esta forma de tomada de decisão, se dá mais importância para as deliberações coletivas do que para os pontos de vista individuais.

Há diferença, ainda, em pontos centrais que favorecem a organização especifista: o comprometimento, a responsabilidade e a autodisciplina dos militantes com a organização. No modelo especifista, há alto nível deste compromisso militante. Assim, é imprescindível que os militantes assumam compromissos frente à organização e os cumpram. O compromisso militante imprime uma ligação entre militante e organização, que é uma relação mútua, em que a organização é responsável pelo militante, assim como o militante é responsável pela organização. Assim como a organização deve satisfação ao militante, o militante deve satisfação à organização.

A falta de comprometimento, responsabilidade e autodisciplina constitui um grande problema em muitos grupos e organizações anarquistas. É muito comum as pessoas se aproximarem e participarem mais ou menos das atividades, fazendo somente aquilo que têm interesse, muitas vezes participando de decisões, assumindo compromissos e não os cumprindo, ou simplesmente, não assumindo compromissos. Há muitas organizações que são complacentes com a falta de compromisso militante. É inegável que, por este motivo, essas organizações sejam mais “legais” de se fazer parte, no entanto, são muito pouco efetivas do ponto de vista militante. Como para nós a militância é algo necessário na luta por uma sociedade livre e igualitária, não acreditamos que ela será sempre “legal”. Se tivermos de optar entre um modelo de militância mais efetivo e outro mais “legal”, devemos optar pela efetividade.

Para o trabalho com compromisso militante, o especifismo sustenta uma organização com níveis de compromisso. Como explicamos, defendemos a lógica dos círculos concêntricos em que todos os militantes possuem um espaço bem definido na organização, espaço este que é determinado pelo nível de compromisso que o militante quer assumir. Quanto mais ele quiser se comprometer, mais dentro da organização ele estará e maior será o seu poder de deliberação. Portanto, tanto no nível político quanto no nível social, há critérios bem definidos de entrada desde as instâncias de apoio ou agrupamentos de tendência até a organização específica anarquista. Só estão dentro da organização específica anarquistas, militantes com afinidade ideológica com a organização.

Ao contrário do modelo especifista, há outras organizações cujo único critério para entrada de militantes é sua definição como anarquistas, independente de que concepção de anarquismo eles tenham. Algumas pessoas participam um pouco da organização, outras são mais comprometidas; uns assumem mais responsabilidades do que outros e todos possuem o mesmo poder de deliberação. Por isso, muitos deliberam sobre atividades que não vão realizar, ou seja, determinam o que os outros vão fazer. Quando uma organização permite que alguém delibere algo e não assuma responsabilidades, ou que assuma responsabilidades e não as cumpra, ela permite um autoritarismo daqueles que vão deliberar e jogar trabalho nas costas de outros companheiros. Enfim, neste outro modelo, cada um se envolve da forma que acha melhor, aparece quando acha que deve, e não há muita cobrança sobre a questão do compromisso militante. Muitos, ao serem cobrados, julgam-se vítimas do autoritarismo. Como explicamos, para nós, este modelo de organização, além de sobrecarregar os militantes mais responsáveis, acaba por permitir esta discrepância de pessoas que não deliberam e trabalham na mesma proporção.

Portanto, não querermos ser este grande “guarda-chuva” que abarca todos os tipos de anarquistas. Estas amplas (in)definições, aparentemente agregam mais anarquistas na organização, no entanto, acreditamos que não devemos optar pelo critério da quantidade, mas sim da qualidade de militantes.

Não há dúvida que se evitarmos precisar bem o nosso verdadeiro caráter, o número de nossos aderentes poderá tornar-se maior. (...) É evidente, por outro lado, que se nós proclamamos alto os nossos princípios, o número dos nossos aderentes será menor, mas pelo menos serão aderentes sérios, com os quais poderemos contar.4

Diferença relevante também se dá em torno da questão do individualismo anarquista. O especifismo significa uma recusa absoluta e completa do individualismo anarquista. Por este motivo, diverge de outras organizações que aceitam trabalhar com os individualistas. Para nós, há dois tipos de individualistas no anarquismo. Um tipo, que era mais comum no passado, de pessoas que preferem trabalhar sozinhas, mas que têm em mente o mesmo projeto que nós. Nestas pessoas, só temos a criticar o fato de que, estando desorganizadas, não conseguem potencializar os resultados de seu trabalho. Um outro tipo, mais em evidência nos dias de hoje, renunciou ao projeto socialista. Baseados na crítica anarquista do Estado, possuem pouca crítica ao capitalismo, e nenhuma atuação no sentido de transformar socialmente a realidade em que vivemos. Colocando-se na condição de simples observadores críticos da sociedade, constroem um anarquismo a partir de referências e pensadores secundários, simplesmente em torno da crítica. Não possuem qualquer projeto de sociedade e muito menos uma atuação coerente que aponte para esta nova sociedade. Poderíamos nos perguntar:

o que então nos resta do individualismo anarquista? A negação da luta de classes, a negação do princípio de uma organização anarquista, cuja finalidade seja a sociedade livre de trabalhadores iguais: e mais ainda, a charlatanice vazia, estimulando os trabalhadores infelizes com sua existência, a tomar parte recorrendo a soluções pessoais, supostamente abertas a eles enquanto indivíduos libertados.5

Assim, exacerbam o papel da liberdade individual, que, apartada da liberdade coletiva, torna-se meramente um gozo egoísta, para o deleite de alguns poucos que podem, por seus privilégios dentro do capitalismo, permitir-se isso. Na realidade, a liberdade individual só pode existir na liberdade coletiva. Isso, pois a escravidão de outros limita a liberdade de cada um, e a liberdade individual plena só pode se realizar no momento em que, coletivamente, todos forem livres. Concordamos com Bakunin quando colocou:

Só posso considerar-me e sentir-me livre na presença e em relação a outros homens. (...) Só sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, são igualmente livres. A liberdade do outro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade, é, ao contrário, sua condição necessária e sua confirmação. Apenas a liberdade dos outros me torna verdadeiramente livre, de forma que, quanto mais numerosos forem os homens livres que me cercam, e mais extensa e ampla for sua liberdade, maior e mais profunda se tornará a minha liberdade. Ao contrário, é a escravidão dos homens que põe uma barreira na minha liberdade. (...) Minha liberdade pessoal assim confirmada pela liberdade de todos se estende ao infinito.6

Para nós, é impossível buscar uma liberdade individual em uma sociedade como a nossa, em que milhões não têm acesso às mais básicas necessidades de um ser humano. Não há como se pensar em um anarquismo puramente individual, como uma forma de se colocar no mundo, de ter um estilo de vida diferente. Para os individualistas, na grande maioria dos casos, ser anarquista significa ser artista, boêmio, defender a liberdade sexual de ter relacionamentos abertos ou com mais de um(a) companheiro(a), usar roupas diferentes, ter um corte de cabelo radical, ter comportamentos extravagantes, comer comidas diferentes, definir-se pessoalmente, realizar-se pessoalmente, ser contra a revolução(?!), ser contra o socialismo(?!), possuir um discurso sem pé nem cabeça – gozando da liberdade de estética – enfim, tornar-se apolítico. Discordamos radicalmente desta posição e acreditamos que as influências neste sentido são funestas ao anarquismo, afastando militantes sérios e comprometidos. Finalmente, concordamos com Malatesta quando enfatizou:

É verdade, gostaríamos de poder estar, todos nós, de acordo, e reunir em um único feixe poderoso todas as forças do anarquismo. Mas não acreditamos na solidez das organizações feitas à força de concessões e de restrições, onde não há entre os membros simpatia e concordância real. É melhor estarmos desunidos que mal unidos.7

Para nós, escolher o modelo mais adequado de organização anarquista é fundamental para que tenhamos os meios mais adequados e coerentes com os fins que buscamos atingir. Se defendemos o especifismo, que é uma forma de organização anarquista, é porque acreditamos que ele é hoje mais adequado para o trabalho que pretendemos realizar. Entendemos que há anarquistas que não concordam com o especifismo e não achamos que são menos anarquistas por isso. Só exigimos respeito por nossa escolha, assim como nós respeitamos aqueles que fizeram outras escolhas.


* Trecho de Anarquismo Social e Organização.
* Contribuição: FARJ - Federação Anarquista do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

" A Corrente Libertária "



Foto do inquebrável Camilo Cienfuegos, membro da Tendência Libertaria em Cuba que protagoniza os Movimentos de Libertação pela América Latina.

O Movimento Libertário existe muito antes do que seria conhecido por Anarquismo e é este uma corrente que agrega até hoje não só Anarquistas, mas grupos de orientação diversas.
Poderíamos sim dizer que este tem dois grupos principais e importantes e divergentes nesta corrente:
1. Os Movimentos de Libertação;
2. O Libertarismo.

Os Movimentos de Libertação existem em toda nobreza do escravo que se revolta contra toda a opressão e contra todo explorador. Como as diversas rebeliões em todo o mundo, como exemplo histórico a Revolta de Spartacus.
Nestes movimentos de libertação existem diferentes desdobramentos em varias partes do mundo, que confere a cada um em especial um caráter particular.
Na América Latina é um movimento por exemplo que agrega mais de uma tendência e é em Cuba que uma tendência libertária, protagonizada por Camilo Cienfuegos, filho de anarquistas e imigrantes espanhóis, da inicio a uma guerrilha sobre a bandeira vermelho e negra da revolução social comunista libertária ou conhecida como o sonho espanhol.
Esta guerrilha será a mãe dos movimentos de libertação nacional na África como em Angola que tornou a bandeira vermelha e negra sua bandeira nacional e na América Latina como o Sandinismo ( em referencia a Sandino líder Anarquista ) na Nicarágua, o Magonismo no México, a OPR 33 e os Tupamaros no Uruguai.
Na América Latina é muito nítido a presença Socialista Libertária entre os movimentos de libertação como na atualidade o Zapatrismo ou EZLN sobre a Bandeira Negra da Revolução Social, que sempre fora adotada pelos Anarquistas.

O 2º grupo conhecido como Libertarismo é formado por liberais radicais e influenciou muito os movimentos republicanos principalmente na América do Norte.
Segundo a teoria política, o Libertarianismo ou libertarismo é a corrente política que defende que o melhor governo é aquele que governa o mínimo possível; a função do estado deve ser apenas a de impedir a violação dos direitos humanos naturais (vida, liberdade e propriedade). Por outras palavras, os indivíduos devem ser livres para fazer tudo aquilo que desejem fazer, desde que não violem o direito dos outros a exercer o mesmo direito. O papel do governo é o de proteger esse direito.
Para os libertarianos, direitos como o direito à alimentação, à habitação e à saúde não são obrigações que podem ser impostas pelo Estado (ou seja, a outros cidadãos); só temos direito à vida, à justiça, e a fazer o que nos apetecer com os meios que temos ao nosso dispor e desde que isso não impeça os outros de exercerem o mesmo direito.
Assim, as funções do governo poderão incluir a manutenção de um sistema de justiça, da polícia, do exército e eventualmente algumas outras funções vitais. Mas, segundo os libertárianos, o governo nunca deverá ser responsável pela criação de escolas, pela regulamentação da economia e programas de ação social. Nem poderá restringir a liberdade de expressão, a liberdade sexual, o jogo ou outros do chamados crimes sem vitimas.
Uma sociedade libertarianista é uma que não tem uma autoridade monopolista fazendo e impondo a lei, mas não é uma sociedade sem regras ou padrões.
Qualquer um que faça um ataque direto a uma pessoa ou propriedade pode ser processado (e provavelmente o será) por qualquer um que queira, obviamente com a obrigação de justificar seus próprios atos, que devem estar de acordo com o princípio da não-agressão. Os promotores (ou acusadores) não podem fazer nada além de:
* parar o ataque
* exigir pagamento por quaisquer danos que tenham sido feitos
* fazer o que for necessário para que casos graves de agressão não ocorram mais.

Existem duas versões do Libertarianismo, o minarquismo e os chamados de anarco-capitalismo. Os minarquistas defendem o estado mínimo com tribunais, uma força policial e um exército como forma de proteger os direitos naturais dos indivíduos ou conhecido pelo libertários Socialistas por darwinismo social. Os anarco-capitalistas opõem-se a qualquer tipo de estado pois consideram que, embora o estado exista para proteger os direitos naturais, ele acaba por violar esses direitos, por exemplo através dos impostos. Os anarco-capitalistas defendem polícias privadas que competiriam no mercado de indivíduos em busca de proteção dos seus direitos e tribunais privados que competiriam no mercado da resolução de conflitos entre indivíduos.
O termo Libertarianismo (Libertarismo) está marcado pelo panorama político americano. Noutras partes do mundo, como na Europa, um libertarista é geralmente chamado de liberal. No entanto, nos EUA o termo liberal é aplicado a quem no resto do mundo poderia passar por um social-democrata, socialista ou um liberal social.
Em sua grande maioria o libertarianismo defende os princípios do liberalismo, enquanto o 1º grupo tem em sua defesa os princípios do Socialismo ou em especial os Anarquistas os princípios do Socialismo Libertário.
Os Socialistas defendem a mudança nos meios de produção sobre controle dos trabalhadores e os libertaristas o totalitarismo de mercado que regulariza toda a vida social.
Ambos grupos falam em federalismo, mas como tem bases políticas diferentes para a economia, se desenvolve também propostas distintas de federalismo político.
O ponto de convergência é o principio de liberdade, mas é nítido que estes dois grupos estão a falar de valores diferentes de liberdade.
O 1º grupo fala de liberdade político - econômica, em por fim a uma sociedade de classes sociais que gera opressão e desilgualdades e o 2º grupo fala de liberdade de mercado e no direito do patrão explorar o trabalho de outro e não no fim das desilgualdades.
Existem outros grupos também importantes na corrente libertária, mas neste momento preferi focar nos dois principais e mais conhecidos grupos que se reivindicam como libertários.

Fonte: Wikipedia

Texto de Eduardo Preto militante do núcleo pró FASP da capital.

Sindicalismo e Movimentos Sociais



escrito por Alexandre Samis - FARJ












Entre 7 e 10 de agosto de 2008 realizou-se, em Rio Pomba-MG, o 4º Seminário de Educação do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Profissional (SINASEFE). Organizado pelo GT de Políticas Educacionais do sindicato, o encontro tinha como tema a “Educação Emancipatória”. O conteúdo do artigo a seguir é a expressão escrita de uma intervenção que encontrou grande acolhimento da plenária.


Breve histórico do sindicalismo contemporâneo

No início do ano de 1980, ainda sob o espectro da ditadura militar, os trabalhadores do Brasil iniciaram um movimento em favor de uma nova forma de organização. O tipo de sindicalismo saído da ditadura era uma estranha simbiose do velho corporativismo varguista e outras formas de sujeição ao Estado militarista, inaugurado em março/abril de 1964. Reunidos em encontros estaduais, os Encontros Nacionais da Classe Trabalhadora (ENCLATs), os trabalhadores deram à estampa diversos documentos que deveriam ser analisados em um encontro nacional. Para tanto, no mês de agosto de 1981, na Praia Grande, São Paulo, aconteceu a Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a I CONCLAT. Desse evento participaram não apenas as velhas confederações e federações, como também um numero expressivo de associações pré-sindicais, representadas por delegados de base, que prefiguravam, em grande medida, a renovação das premissas sindicais até então vigentes.
Como resultado prático da Conferência, surgia uma Comissão Pró-Central Única dos Trabalhadores (CUT) e evidenciava-se uma ruptura irreconciliável entre os setores mais radicalizados e a antiga burocracia sindical. Em agosto de 1983, com o nome de Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, também sob a sigla de I CONCLAT, os grupos à esquerda organizaram as bases para a criação da CUT; enquanto, o bloco contrário, em novembro do mesmo ano, no também CONCLAT, inaugurava uma Coordenação Nacional das Classes Trabalhadoras e conservava a legenda CONCLAT. Esta última entidade seria responsável, em 1986, pela criação da Central Geral dos Trabalhadores, a CGT.
Entretanto, já na I CONCLAT, a de 1981, o tema da greve geral, tradicional bandeira do sindicalismo revolucionário, aparecia para clivar a distinção entre os grupos presentes. Muitos dos delegados de base aglutinaram-se, então, em torno da proposta que, em 1982, deveria ser posta em prática como forma de anunciar o nascimento da CUT e pressionar o governo e patrões a transigirem em favor de uma pauta unificada. Mas a formação de blocos antagônicos no interior da CONCLAT – o “Bloco Combativo”, formado por uma nebulosa de grupos da esquerda radical, setores progressistas da Igreja Católica e independentes, e o “Bloco da Reforma”, de composição de ativistas pouco engajados politicamente, além de partidários dos dois PCs e do MR-8 – acabou por atrasar a programação para o ano seguinte, inviabilizando, assim, a greve geral, sendo possível aos do “Bloco Combativo” apenas a fundação da CUT.
Dessa forma, a CUT nascia com um estatuto provisório que destacava a sua independência dos patrões, do governo, dos partidos políticos e dos credos religiosos. Além disso, o mesmo documento, insistindo em três pontos, definia-se pela autonomia e a liberdade sindical, a organização por ramo de atividade produtiva e a organização por local de trabalho, as então em voga “comissões de base”. Tais posicionamentos afastavam o grupo que formou a CUT ainda mais do que, em 1986, criou a CGT. Assim, a opção da nascente central sindical colocava-a na linha direta de sucessão da tradição sindicalista revolucionária dos primeiros anos do século XX, não apenas no Brasil como na França, EUA e outros países em igual período. Segundo Leôncio Martins Rodrigues: “Esses pontos de contato podem ser encontrados na valorização do sindicato como um instrumento de mudança social, na defesa de sua autonomia frente aos partidos políticos, na idéia da construção de um sindicalismo ‘de base’, agressivo, sem burocracia, desprezando a atuação partidária, política e parlamentar e exaltação da ação direta e o conflito, vendo a greve geral como principal arma do trabalhador”.
Apesar das afinidades programáticas com o sindicalismo revolucionário dos primeiros tempos, boa parte dos sindicalistas atuava na estrutura das entidades oficiais. Tal situação colocava-os em flagrante contradição com os propósitos revolucionários e autonomistas uma vez que, em paralelo, gozavam dos benefícios concedidos pela legislação trabalhista em vigor. Assim, a ação dos sindicalistas acabava por fortalecer a estrutura corporativa e oficial que, contraditoriamente, pretendiam estes destruir por força das estratégias impressas nos documentos e estatutos. O III CONCUT, em 1988, selaria “pela direita” a idiossincrasia que nascera com a CUT em 1983. Nesse encontro celebrado no Estádio do Mineirinho, em Belo Horizonte, no mês de setembro, apesar das teses políticas reafirmarem o ethos do socialismo, foi a de número 10, apresentada pela corrente Articulação, organicamente ligada ao PT, que ganhou a maioria dos votos do plenário. A corrente conhecida genericamente por “CUT pela Base”, que defendia as teses ainda do estatuto provisório de 1983, foi derrotada e a burocracia sindical ganhou, por assim dizer, definitivamente a Central Única dos Trabalhadores.
Finalmente, com a vitória eleitoral de Lula, em 2002, a CUT, que havia se transformado na maior central sindical do país, passou a identificar sua política com as diretrizes defendidas pelo novo governo. Um claro desdobramento da tese vitoriosa em 1988 e que, por conta da fatídica associação, tornou mais didático, portanto mais evidente, o acelerado grau de burocratização da entidade de classe.


Os sindicatos hoje

Grosso modo, podemos caracterizar a identidade sindical a partir de três condutas distintas. Os sindicatos que hoje representam mais claramente os interesses do governo/patrões são os colaboracionistas ou chapa-branca. Estes subordinam sua política a postulados puramente economicistas, encarando o governo como um interlocutor legítimo, uma instância imprescindível e fundamental na resolução dos problemas. Via de regra, tentam fazer entender à base que a função do órgão de classe é, na sua essência, pôr em entendimento os “interlocutores naturais” – governo/patrão e trabalhador – que, por uma falha na dinâmica do diálogo, estão em posição de oposição provisória. Mesmo invocando no campo da retórica imagens tradicionalmente esposadas pelo campo socialista, o que fazem, no mais das vezes, é re-significar o conteúdo das lutas dos trabalhadores em favor da conciliação de classe. Neste caso, as vantagens para a categoria, obtidas ou não na ação sindical, passam a ser encaradas como um fim em si mesmas, um acumular de “direitos” que reforça a sujeição às políticas econômicas macroestruturais do Estado, justamente aquelas que são as responsáveis pelas mazelas salariais da classe. Tal sindicalismo, portanto, mistifica a ação sindical determinando para as bases um papel de coadjuvante no conjunto orquestrado das políticas de governo.
Existem também os sindicatos que, em determinada conjuntura, apresentam certo grau de combatividade, sem a pretensão de tornar determinante o diálogo com o governo. Tais entidades de classe entendem a posição que ocupam no cenário da luta de classes, buscam o enfrentamento, mas o fazem a partir de uma pauta quase exclusivamente econômica, aproveitando as crises e as agendas eleitorais para arrancar do governo as melhorias imediatas. Têm, mais por instinto que por ideologia, a disposição para a luta, fato que se observa em momentos de ascenso organizativo, mas que, em uma conjuntura desfavorável, pode se perder com impressionante velocidade. Seus métodos acabam por reforçar muito mais o campo do ativismo sindical – importante de fato, entretanto insuficiente – ao investirem exclusivamente na reação às medidas governamentais. Agem, dessa forma, estimulados pelas agendas eleitorais e políticas do Estado, ainda que em oposição a elas. Assim, a despeito da forma, no conteúdo orientam-se pela luta imediata, sem referências claras na própria classe, uma vez que o acúmulo é insuficientemente utilizado para formular um projeto de autonomia e emancipação definitiva dos trabalhadores. Ancorados no que é apenas visível, ou seja, as necessidades imediatas, esquecem do que é desejável, a mudança radical em favor de todos e não apenas da categoria. Aos sindicatos que adotam esta conduta podemos chamar corporativos.
A terceira conduta sindical pode ser identificada por sua ação em associação com seus postulados teóricos. Em comum com as demais, ela caracteriza-se também pela representação da classe. Preocupa-se com as necessidades imediatas da mesma e se legitima em determinados ritos e emblemas identitários do trabalho coletivo. Mas, para além destas semelhanças, o sindicalismo de resistência propõe-se a um enfrentamento mais claro e efetivo do Estado burguês. Utiliza o corte classista não para evidenciar a singularidade entre trabalhador e patrão/governo, mas para explicitar o fosso que separa a classe trabalhadora daqueles que a exploram. Pensa o sindicalismo como um meio importante para que os trabalhadores dêem combate diuturno ao sistema que oprime a eles e aos seus iguais em destino. Nas reivindicações econômicas, igualmente, enxergam um meio para mais didaticamente perceberem os da classe, por evidências numéricas, as suas reais condições de explorados. E, uma vez que não se limitam ao sintoma, denunciam o capitalismo e suas mais claras manifestações como o motivo de todo o estado de coisas. Destarte, o sindicalismo de resistência articula a teoria revolucionária, que podemos chamar de socialismo, com suas ações políticas e sociais, instituindo a primeira em conformidade com a realidade específica da segunda.


Orientações e concepções sindicais

Pode-se, de forma esquemática, apresentar três etapas importantes para o desenvolvimento de um programa estratégico de classe no sindicalismo. Tais etapas, no entanto, longe de obedecerem uma linha evolutiva, combinam-se e orientam-se mutuamente. São como vasos comunicantes que formam um mesmo corpo vivo e indiviso. A primeira parte de um programa estratégico deve versar sobre os ganhos de curto prazo. Aqueles que vão orientar as lutas do dia-a-dia, que devem mobilizar os ânimos e que se vinculam as necessidades igualmente prementes, inadiáveis e comuns a todos indistintamente no interior da classe. Circunstância que pode contar com campanhas de naturezas diversas, mas de preferência com forte apelo conjuntural. As campanhas salariais, acompanhadas de análises da política governamental, são formas bastante utilizadas e, quase sempre, trazem algum resultado. Nas questões de curto prazo, os sindicalismos colaboracionista, corporativista e mesmo o de resistência, às vezes se parecem muito.
Entretanto, é nas questões de médio e longo prazo que se distanciam sobremaneira as condutas sindicais. Na realidade, tanto os colaboracionistas quanto os corporativistas, não possuem as dimensões de médio e longo prazo. Não as possuem, ao menos, no sentido autônomo do termo, pois, uma vez que se guiam pelo pragmatismo, dificilmente vão além do que se apresenta de imediato. Além disso, diferenciam-se mais na forma do que no conteúdo ao se dirigirem ao governo, não indo além da colaboração declarada para um e consentida para outro. Mutatis mutandis, acabam adotando como referencial para a luta as estratégias do Estado, mesmo que na forma inversa para os corporativistas, visto que suas agendas serão sempre determinadas pelos embates com o governo, contra o qual deveriam estar criando suas próprias estratégias, mas que, uma vez presos a este, não fazem mais do que repetir, como imagem invertida, o que determina a política oficial. Sofrem os efeitos de uma espécie de tautologia que os remete sempre ao mesmo ponto, percorrendo o mesmo trajeto, em idas e vindas, em um jogo de soma zero que acaba por favorecer sempre aquele que é, de fato, o causador do problema.
De outra maneira, os sindicatos de resistência, buscam sempre em seus programas estratégicos salientar as questões de médio e longo prazo. Tal preocupação deve-se a já terem os sindicalistas, vinculados a esta concepção, entendido que aquelas entidades que lutam apenas pelas questões imediatas, o que fazem, no mais das vezes, é garantir ao governo um certo grau de legitimidade. Se por um lado, as reivindicações podem parecer contestatórias, e algumas vezes o são, elas induzem, por outro, subliminarmente, o coletivo da categoria a acreditar que a resolução depende sempre da aquiescência do governo. O que retira do trabalhador boa parte de seu princípio decisório e reforça as teses reformistas. É, portanto, nas projeções mais de fundo, aquelas que irão possibilitar o contato com um universo mais amplo de explorados e, a partir daí, consolidar a luta ideológica contra o capital, que se encontra a real estratégia para o desmonte de toda a estrutura que garante a manutenção do atual sistema. Não apenas isso, mas também, a elaboração deste programa auxilia no acúmulo de valores que, por ser de fato o resultado das experiências de luta e das reflexões extraídas a partir delas, constitui-se na essência de uma dimensão de mundo genuinamente de classe. Para reforço de tal raciocínio, escreveu E. P. Thompson: “Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acon­tecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. Não vejo a classe como uma ‘estrutura’, nem mesmo como uma ‘categoria’, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas”. E ainda, segundo Lúcia Bruno: “A classe operária não é uma realidade moral, mas social. Ela não tem qualquer realidade além da forma como se organiza”. Outra questão se soma, com idêntica importância, às aqui abordadas. Que tipo de organização ou dinâmica interna permitiria a plena realização de um sindicalismo de resistência?
O universo das experiências históricas em favor da organização dos trabalhadores é generoso, entretanto, boa parte dos registros foi alienada de sua diversidade por força de modelos hegemônicos que tomaram seu próprio triunfo por verdade revolucionária. Sob tal perspectiva, a “Comuna de Paris” perdeu vários de seus matizes, os “sovietes”, viraram a manifestação de um partido único e os “conselhos de trabalhadores”, momentos prévios em situações históricas que careciam de uma direção de vanguarda. Apesar das versões autorizadas, uma outra literatura revolucionária, que apareceu como marginal, mesmo herética, teimou em registrar as nuances de um fazer proletário de enorme vigor organizativo. O eixo insistentemente retomado pelas ações organizativas “marginais” dos trabalhadores encontrou sempre seu “ponto de Arquimedes” na autonomia. Foi com base nela que diversas iniciativas culminaram na Revolução Russa, de 1917, e na Espanhola, de 1936. As correntes libertária e autonomista, esta última batizada pela derivação da palavra-essência, firmaram seus postulados, ou antes, fizeram partir tudo desta premissa. Não era uma panacéia, mas uma metodologia que permitiria colocar, em uma mesma circunstância histórica, o conjunto da classe na condição de protagonista. Para L. Bruno: “Uma luta é revolucionária quando cria relações sociais que permitem a união dos trabalhadores. Quando viabiliza a associação de homens livres que é, ao mesmo tempo, forma de luta e transformação social. Quando os trabalhadores criam organizações onde podem decidir em conjunto os rumos da luta, realizar uma nova divisão do trabalho e formas comunitárias de existência, estão criando o terreno sobre o qual o socialismo pode se desenvolver e generalizar”. Este é, em poucas palavras, o princípio lógico dos “conselhos de trabalhadores”. Como se organizam então os conselhos de trabalhadores?
Os conselhos de trabalhadores definem sua representação a partir da base. É na base, organizada em comissões, que os delegados classistas são eleitos. Mas a representação é diversa daquela preconizada pelo capitalismo. As diferenças são as seguintes:
1ª: Os delegados não decidem por si mesmos. São apenas a voz do seu conjunto, daqueles que os elegeram;
2ª: Os delegados eleitos executam as tarefas, não determinam as linhas de ação, a menos que sejam sugeridas pelo coletivo que o indicou;
3ª: Os delegados ficam no cargo até o termino da tarefa, ou seja, o tempo suficiente para executá-la, pois do contrário poderia haver certa cristalização de funções;
4ª: Os delegados não podem se afastar por muito tempo de seu local de trabalho, junto à base, as suas atividades não lhes conferem nenhum privilégio. Outro ponto importante é que as delegações podem ser revogadas pela base a qualquer momento. A forma sugerida garante também que as habilidades pessoais de determinados sindicalistas sirvam a todos e não ao próprio indivíduo que, no que se verifica hoje, uma vez agindo em nome do coletivo, pode, na realidade, colocar adiante das deliberações coletivas suas próprias preferências partidárias.
O método, cuja centralidade está na autonomia dos trabalhadores, propugna também pela ação direta no que diz respeito aos interesses políticos e econômicos. Para a produção e a regulação da natureza do trabalho de cada categoria, indica o regime da autogestão generalizada. E ainda o estímulo a atitudes que unifiquem todas as frentes de luta: a econômica, a política e a ideológica, tendo-se como fim a edificação da nova sociedade.
Tal estrutura organizativa é fundamental para impedir a burocratização dos sindicatos, o distanciamento entre a base e a direção e a dicotomia entre massa e vanguarda. É também um meio no qual estão embutidos os fins, uma vez que o trabalhador apreende e elabora no cotidiano do trabalho e nos embates contra o capital os elementos vitais para sua emancipação. Como chamavam os sindicalistas revolucionários do século passado, é a “ginástica revolucionária”. Uma relação que se forja no fazer contínuo do confronto e que, por ser concomitantemente experiência sensível e teórica, realizada por quem mais necessita das mudanças, estabelece novas formas de organização desalienadas.


As tarefas de médio prazo e os movimentos sociais

Uma vez que o sindicalismo de resistência se institui na luta e sem o concurso da classe esta concepção é quase impossível de ser atingida, cabe identificar as tarefas que são da responsabilidade dos trabalhadores envolvidos com as questões revolucionárias. As construções de médio prazo hoje são da maior importância. Nelas se encontra o caminho através do qual irá a classe efetivar a direção a ser tomada para a liquidação final da ordem capitalista. Nesse sentido, cabe uma pequena ponderação sobre a separação que hoje se constata entre sindicalismo e movimentos sociais.
No início do século XX, há exatos 100 anos, era fundada a Confederação Operária Brasileira (COB). Com a entidade nascia também o seu órgão de propaganda A Voz do Trabalhador, em 1908. Por longos anos, a COB deu suporte e foi espaço organizatório dos trabalhadores contra a burguesia, valendo-se dos métodos do sindicalismo revolucionário. Nas primeiras três décadas do século XX, a COB foi fundamental para a caracterização da fisionomia social que, em público, exibiam os operários grevistas e insurretos. Entretanto, com o advento do sindicalismo corporativista, elevado a política de Estado após o movimento político-militar de 1930, cujo fato concreto mais saliente é a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, as bases do sindicalismo se viram bastante alteradas. O setor reformista, já existente em períodos anteriores, tornou-se paradigmático e as ações radicais ganharam “foros” de crime contra a segurança nacional. Tal situação, reforçada por medidas oficiais em “benefício dos trabalhadores”, desmobilizou boa parte da massa assalariada e consagrou o Estado como árbitro de todos os litígios entre capital e trabalho. Estes fatos estão na origem - inaugurando assim uma ainda presente matriz interpretativa da História do Brasil - da perspectiva de que foi no governo De Getúlio Vargas (1930-1945) que os direitos dos trabalhadores foram, de fato, alcançados. Fenômeno conhecido como “ideologia da outorga”.
O populismo que marcou as décadas seguintes, até o golpe Militar de 1964, e mesmo o sindicalismo de subordinação, praticado durante os “Anos de Chumbo”, alteraram ainda mais a configuração das organizações sindicais. Nos anos posteriores, com o processo de redemocratização, após a frustração das esperanças na retomada de um sindicalismo revolucionário, o aparelhamento que fez o PT da CUT jogou por terra boa parte das expectativas e drenou a energia de importantes bases sindicais. No conjunto, estes acontecimentos colaboraram para o afastamento dos sindicatos do que se convenciona chamar hoje de movimentos sociais. A burocracia, triste emblema ostentado pela maioria das entidades, continua, a despeito de louváveis esforços de uns poucos, a representar sérios limites ao desenvolvimento das políticas de médio e longo prazo. O sindicato passou a ter outra fisionomia, determinada agora, e nesse sentido como no passado, por sua prática social.
No caminho inverso estão, entretanto, outros setores organizados ou em vias de organização. Estes, envolvidos em uma grande membrana conceitual a qual se atribui o nome de movimentos sociais, são de procedência diversa. Apesar da pluralidade, esta nebulosa de organizações possui certa identidade. Existem elementos comuns a elas, mesmo com as demandas específicas. Os eixos, como no passado, na Associação Internacional dos Trabalhadores, são sempre de viés econômico. O Movimento dos Trabalhadores Desempregados, cuja centralidade se encontra na geração de renda; o Movimento Nacional dos Catadores, que tiram dos resíduos urbanos a sua sobrevivência; o Movimento dos Sem-Teto, que elegeu a questão da moradia; os inúmeros grupos que se formam nas comunidades faveladas, sob a bandeira da cultura ou da denúncia contra a violência e finalmente o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, que sustenta com maior evidência a defesa da Reforma Agrária, contemporaneamente, assumiram um protagonismo importante, cujos resultados não podem ser ignorados, até mesmo pela grande mídia.
Em comum, e isso encontra correspondência nos comunicados e panfletos, possuem a radicalidade. Aquela disposição para o confronto, típica das pautas de médio e longo prazo. Tal característica tem sido utilizada pelo governo, inclusive, para a criminalização destes movimentos que insistem nas táticas de ação direta e gestão coletiva dos meios de produção, esgarçando a formalidade jurídica do sistema. Inovações como as “Comunas” do MST, no Rio Grande do Sul e São Paulo, têm obrigado o Incra a reinventar a legislação vigente para adequar parâmetros ao quadro geral já determinado pela prática concreta dos acampados e assentados. A dinâmica social e a ação dos militantes concebeu experiências mistas, urbano-rurais, criando outra alternativa para o trabalhador das periferias. Nos grandes centros, os desempregados ocupam fábricas abandonadas, estabelecem novas normas de produção e tentam instituir outro padrão de subsistência, inclusive, na direção inversa do capital.
A despeito da tentativa de apropriação dos movimentos por alguns partidos, e mesmo a clara atuação de militantes destes nas bases ou direções, boa parte da massa trabalhadora envolvida preserva um grau de independência satisfatório. Suficiente ao menos para esboçar, em momentos de claudicância dos “quadros partidários” envolvidos, quando estes tentam fazer passar a política do partido, esquecendo as demandas genuínas da classe, uma reação dos setores mais organizados. De qualquer forma, é por força do modo como se organizam os movimentos sociais que estes apresentam as características já bem salientadas aqui. São eles a expressão sem retoques da luta de classes, a unidade pela ação e pelos propósitos, movimentos que conseguem nas suas bandeiras, algumas muito simples, sintetizar e aglutinar os esforços e esperanças de todo um setor de excluídos.
O fenômeno que se caracteriza pelo crescimento da importância e da visibilidade dos movimentos sociais não é exclusivamente brasileiro. Com um número maior de exemplos podemos observar, a partir do início dos anos 90 do século precedente, o ascenso de manifestações nesse sentido. Em 1994, o levante zapatista, em Chiapas, no México, revelou ao mundo um organização indígena-militar com muitas demandas. Entre elas, a que mais se destacava era a autonomia. No mesmo país, outros índios e “minorias”, reunidos sob a legenda do magonismo, alusão ao líder revolucionário Ricardo Flores Magón, já utilizavam a tática da desobediência civil para enfrentar o governo. Em outras partes de “Nuestra America”, como Equador, Chile, Colômbia e Bolívia, empunhando a bandeira da autonomia, levantaram-se também índios e camponeses em insurreições e levantes. Inaugurando o novo milênio, os piqueteros na Argentina, também pela ação direta, lograram sucessos e colocaram a classe como protagonista da história.
Para reforço do exposto, podemos analisar brevemente os recentes acontecimentos no estado mexicano de Oaxaca, no ano de 2006. Uma greve da educação, promovida pela 22ª seção sindical, acabou por determinar a ocupação da praça central da capital do estado. Oaxaca (a capital tem o mesmo nome do estado), em maio, parecia ser palco de apenas mais uma de muitas outras manifestações. O diferencial, entretanto, deu-se com a aproximação da seção sindical dos movimentos sociais da região. As cerca de 16 etnias indígenas que estão representadas no estado, com importante tradição de luta, além de outras organizações populares, formaram a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca, a APPO. Em junho, os prédios públicos foram ocupados e o governo popular foi decretado, em substituição ao oficial de Ulises Ruiz Ortiz. Na prática, a capital passou a ser organizada pela APPO. As principais demandas como: democracia, liberdade e autonomia, tudo isso estava resumido na proposta de deposição do governador. A greve do sindicado gerou o fato, mas a evolução dos acontecimentos e mesmo a reação do governo federal mexicano, que enviou tropas para reprimir o movimento, só se deu por força da unidade entre entidade de classe e movimentos sociais.
A experiência que se estendeu até novembro daquele ano, contribuiu sobremaneira para o acúmulo revolucionário em toda a região. A chamada “Comuna de Oaxaca” legou à sociedade a manutenção dos organismos de resistência popular. As rádios comunitárias, os comitês de bairros que se formaram no âmbito da APPO continuam vivos e funcionando na perspectiva de novos embates do aperfeiçoamento da organização.
A tormenta social que atinge a América Latina representa, assim pensando, nada mais que a reação a outro ciclo de ataques do capital. A posição que as organizações populares assumem diante desta realidade é de transcendental importância para o que se dará a seguir. Os recuos são igualmente importantes, entretanto, para auxiliar as forças que exploram desde sempre os trabalhadores. O sindicalismo, para tanto, deve aproximar-se dos movimentos sociais para novamente reencontrar nesta simbiose política a vocação revolucionária.


Os paradigmas da esquerda e os partidos políticos

Boa parte do que se discute hoje no campo estratégico da esquerda é ainda tributário de concepções bastante recuadas no tempo. Se por um lado, a leitura e a observância dos clássicos do socialismo é fundamental, por outro, a interpretação dogmática e mecânica dos mesmos traz sérios riscos para o resultado das análises e, dessa forma, também para as linhas estratégicas gerais. Um exemplo claro podemos encontrar, para não irmos muito além, na própria determinação de certos atores sociais privilegiados para liderar o processo revolucionário. Segundo Marx, primeiro no Manifesto Comunista, de 1848, com o reforço do capítulo 24, de O Capital: “Sua [a burguesia] ruína e o triunfo do proletariado são igualmente inevitáveis... Entre todas as classes que hoje se confrontam com a burguesia, a única realmente revolucionária é o proletariado. As outras decaem e desaparecem com a expansão da grande indústria, enquanto o proletariado é desta o produto mais autêntico. Todos os setores da classe média, o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês (grifos nossos), combatem a burguesia para assegurar sua existência como classe média em face da extinção que os ameaça... São reacionários, pois procuram fazer andar para trás a roda da história”. Para Marx existe um sujeito histórico, um que, mesmo sem sabê-lo, tem a missão de alterar a ordem social. Este sujeito é o proletariado urbano, a massa que é explorada pelas indústrias.
Se considerado este postulado, a História recente da América Latina encontrar-se-ia em desalinho com a teoria. Uma vez que as forças insurgentes no continente, e mesmo a guerrilha que sobrevive, possuem caráter marcadamente camponês ou indígena. Os grupos que, segundo Marx, seriam “reacionários, pois procuram fazer andar para trás a roda da história”, fazem muito mais pela revolução que o “proletariado industrial” que, no caso brasileiro, é co-participe da gestão das instituições e do próprio Estado. Razão pela qual as discussões corporativas, quase sempre nos limites da legalidade burguesa, ocupam cada vez mais as agendas sindicais.
Outro problema, que deriva igualmente de fonte correlata, é a idéia de que “o sindicato é correia de transmissão do partido”. Este primeiro executa e o segundo pensa as políticas de médio e longo prazo. Tal lógica acaba por conferir status diferenciado a quem pensa e a quem trabalha, justificando, inclusive, o afastamento de trabalhadores por longo tempo da base em tarefas de direção que, no mais das vezes, tornam-se uma porta para a burocratização. Alguns, inclusive, vinculados a partidos político, como referido anteriormente, acabam por não ter clareza entre o papel de quadro partidário e de liderança sindical.
Mas tal prática encontra, sim, suporte na teoria, uma vez que boa parte dos partidos de esquerda percebe no sindicato um meio para levar adiante o programa do partido, a dualidade pensamento-ação passa, dentro do âmbito da classe, a vivenciar seu correspondente prático. Mas, existe aí um princípio deletério para a autonomia dos trabalhadores. Uma vez que o programa do partido pode substituir o da classe, este programa igualmente pode estar cumprindo o papel do Estado. Assim, um tipo específico de ideologia substitui o governo e abre caminho para uma nova burocracia, uma nova instância decisória, que se assemelhará, no conteúdo, à ordem que se pretende derrubar. Ela é parcialmente estranha à classe, pois foi gestada fora dela, ou antes, por um princípio que acredita pouco nas experiências não tuteladas. A autonomia, para tal concepção, pode não passar de um “espontaneísmo” ou falta de consistência ideológica.
O entendimento que temos é o de que a organização dos trabalhadores é, portanto, indivisa. Não se pode separar as instâncias política, econômica e social. O ato de pensar não pode estar desvinculado do ato de fazer. O programa da classe tem que partir dela própria, do acúmulo de suas experiências na luta por uma sociedade livre e socialista. Os corpos sociais não podem ser fragmentados, secionados em câmaras estanques, postos para dialogar apenas articulados por direções “bem intencionadas”, porém equivocadas no método. Nesse sentido, é fundamental a criação das organizações de base e a definição do papel destas no contato com o coletivo de representantes de toda a unidade de produção.
O papel da ideologia, entretanto, é fundamental. O debate de idéias no interior do sindicato se faz necessário. Mas tal debate deve obedecer aos fóruns organizativos e com eles dialogar permanentemente. A pluralidade das tradições de esquerda, sem a qual tudo se tornaria saber de manual, deve ser contemplada e as diversidades devem ser encaradas, todas elas, como um conjunto patrimonial a ser apropriado pela classe. Apropriado na medida das necessidades, daquilo que o conjunto de trabalhadores entenda pertinente para o tempo e o espaço presentes. A ideologia deve servir à classe e não o inverso. São os trabalhadores que, em ultima instância, vão mudar as coisas. Não contribui para a autonomia dos trabalhadores um sindicalismo que faça opção tácita por qualquer ideologia de esquerda; se assim fosse, estaria fazendo papel de partido e não de entidade de classe.
Podemos afirmar que a separação que hoje experimenta o sindicato em relação aos movimentos sociais, para além do fato da burocratização, pode ser explicada pela associação desse com os partidos políticos, confirmada na adesão de muitos às campanhas eleitorais. É bom ainda que se diga que, uma vez que os trabalhadores têm posições políticas diferentes, as paixões eleitorais acabam fracionando ainda mais o corpo sindical. Um programa próprio, que não implicasse na utilização de candidaturas institucionais, mesmo sob a alegação tática, diminuiria significativamente a divisão e atribuiria aos programas de médio e logo prazo a importância que estes realmente possuem.
Outro fato que pode ser verificado, cada vez com mais clareza, é que a associação dos sindicatos aos partidos trouxe, com a crise destes últimos, significativos desgastes para aqueles. Associa-se livremente, com o respaldo de inúmeros exemplos, os sindicatos aos fracassos da democracia representativa burguesa. Figuram as entidades de classe nos mesmos veículos de denúncia onde deveriam estar apenas os partidos. O sindicalismo, assim, cai na “vala comum da crise”. Por um motivo que é alheio à sua natural área de atuação colhe os frutos amargos da difamação junto com as instituições que dele fizeram uso para uma política ainda mais alheia à classe.


Sindicalismo, burocracia e movimentos sociais

No geral, o que temos abordado desde o início do texto à esta parte é, por assim dizer, o problema da burocracia, da clausura e dos limites dos métodos adotados pelos sindicatos. Limites que afastam o sindicato do paradigma revolucionário e de seus virtuais parceiros na direção da emancipação dos explorados. Embutidos na apreciação geral estão elementos importantes a serem considerados para uma posterior tomada de decisão em relação aos caminhos a serem trilhados pelos trabalhadores. O diagnóstico, longe de evidenciar inteiramente o problema, convida, a partir de indícios, à busca de soluções. Sempre optando pela ação coletiva de indivíduos inseridos em sua classe e representados em suas categorias profissionais.
O socialismo é o eixo propositivo e seu algoz, ainda tanto quanto o próprio capitalismo, a burocracia. Segundo Cornelius Castoriadis: “O socialismo é a supressão da divisão da sociedade em dirigentes e executantes, o que significa ao mesmo tempo gestão operária em todos os níveis – da fábrica, da economia e da sociedade – e poder dos organismos de massa – sovietes, comitês de fábrica ou conselhos. O socialismo tampouco pode ser, em nenhum caso, poder de um partido, qualquer que seja a sua ideologia e sua estrutura. A organização revolucionária não é e não pode ser um órgão de governo. Os únicos órgãos de governo em uma sociedade socialista são organismos tipo soviético, abarcando a totalidade dos trabalhadores. O caráter burocrático das organizações ‘operárias’ atuais não se expressa somente em seu programa último, o qual – sob a cobertura de uma fraseologia mistificadora – não visa mais do que modificar as formas de exploração para melhorar seu conteúdo. Expressa-se igualmente, ao mesmo tempo, em sua estrutura própria e no tipo de relação que mantêm com a massa operária: quer se trate de partidos ou sindicatos, esses organismos formam ou tentam formar direções separadas das massas, reduzindo essa a um papel passivo e tentando domina-la, reproduzindo uma profunda divisão entre dirigentes e militantes (ou contribuintes) em seu próprio seio”.
A questão da autonomia, portanto, é fundamental para manter um órgão de classe fiel aos postulados emancipatórios sem afastar deste, por uma conveniência político-partidária, alheia quase sempre às necessidades dos trabalhadores, os objetivos de médio e longo prazo resultantes da experiência da classe. Neste sentido, os movimentos sociais hoje podem servir de horizonte para o reforço de algumas práticas de autonomia; a despeito da participação de militantes com o duplo vínculo, partidário e ativista de classe, a dinâmica organizativa e mesmo setores hostis ao atrelamento partidário contribuem sobremaneira para dificultar o processo de burocratização. Com base em tais reflexões, e certamente não serão estas as únicas ponderações a serem feitas sobre o assunto, é fundamental hoje para os sindicatos a construção de uma agenda que possa articular seus interesses mais imediatos às lutas dos trabalhadores em geral, não apenas os formalmente admitidos no mercado de trabalho, mas todo aquele que estiver disposto a lutar e se organizar em favor de uma transformação radical e efetiva da sociedade rumo ao socialismo.


Bibliografia:

Bernardo, João. Democracia Totalitária. São Paulo: Cortez, 2004.
Bruno, Lúcia. O que é Autonomia Operária. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Castoriadis, Cornelius. A Experiência do Movimento Operário. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Colombo, Eduardo (org.). História do Movimento Operário Revolucionário. São Paulo: Imaginário, 2004.
Leval, Gaston. Bakunin, fundador do Sindicalismo Revolucionário. São Paulo: Imaginário, 2007.
Marx, Karl. O Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985.
Rodrigues, Leôncio Martins. Cut: os Militantes e a Ideologia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
Thompson, E. P. Formação da Classe Operária Inglesa. Vol. I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.


Revisão: Kátia Mota.


* Alexandre Samis é militante da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ).

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

“ A Convergência Anarquista Brasileira e Latino Americana ”


Desenho do MPL
Mov. Passe Livre








A atualidade Brasileira e Paulista das Lutas Sociais Latino Americanas, vem se alastrando e ampliando suas organizações a partir 1980, indicando a necessidade da convergência dos Anarquistas a partir do final de década de 80 para com os Movimentos Sociais.
Caracterizando os Centros Anarquistas uma escola Ideológica e os Movimentos Sociais na América Latina uma escola de Lutas, perdas, resistências e conquistas. Nasce neste aprendizado uma possibilidade de resgate do vetor Social do Anarquismo e neste aprendizado encontrasse desde indivíduos e grupos Anarquistas que convergem com os Movimentos Sociais.
Entre estes grupos, ainda existe aqueles que querem que os Movimento Sociais sejam Anarquistas e aqueles que separam o que é nível ideológico e nível Social de lutas, orientando a luta anarquista no método dos círculos concêntricos de Bakunin.
Entre estes grupos que convergem com os Movimentos Sociais, encontrasse os Especifistas e os Autonomistas.
Os Especifistas propõem uma unidade de organização ideologia para ter maior Força junto aos Movimentos Sociais e os Autonomistas que propõem apenas a união pontual, não convergindo com a unidade orgânica em uma Federação especifica de Anarquistas.
Os Especifistas não divergem com os Autonomistas nesta união pontual, mas acreditam na necessidade devido as experiências dos Anarquistas que participam junto aos Movimentos Sociais na convergência destes em um nível de organização especifico dos Anarquistas que atuam nestes Movimentos Sociais.
Esta convergência interna leva a uma unidade orgânica na constituição de Federações especificas de Anarquistas que atuam junto a estes Movimentos, tendo estes como ponto de construção de um projeto e programa político social que norteie os princípios das Federações Anarquistas.
Estas Federações entendem que a desagregação em vários grupos Anarquistas sem unidade orgânica, não converge para um Processo Revolucionário junto a este Movimentos Sociais e que existe a necessidade de se pensar e propor uma organicidade e atuação em toda extensão geográfica: Locais, regionais, nacionais e internacionais.
Em São Paulo não é diferente e a pró FASP caminha nesta estrada se organizando localmente e propondo a unidade Regional no Estado de São Paulo para posteriormente se organizar junto a outras Federações Anarquistas Organizadas Socialmente no Brasil e na América Latina somando forças políticas de Anarquistas junto aos Movimentos Sociais na Construção quem sabe de uma Confederação dos Anarquistas Organizados Socialmente.

Por Eduardo Preto
militante do nucleo pró FASP da Capital

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Magonismo e Zapatismo Paradigma Latino de Resistência




"Ao contrário das tentativas de mudança que se dão por dentro do Estado, há aquelas alternativas que se dão fora do âmbito do Estado."

Magonismo e Zapatismo
Paradigma Latino de Resistência

Ao contrário das tentativas de mudança que se dão por dentro do Estado, há aquelas alternativas que se dão fora do âmbito do Estado. É inevitável falarmos em disputa de poder, mas entendendo poder como espaço político, e não como o poder do Estado e como a dominação. Poder não necessariamente implica em dominação. Por isso, é claro que os movimentos sociais, apesar de se constituírem, geralmente, fora do Estado, disputam espaço político com o Estado e os representantes da democracia representativa. Os movimentos que têm ou tiveram na História o objetivo de proporcionar uma mudança do status-quo, e dar a ele um sentido mais libertário, certamente disputavam espaço político com a reação e com o Estado. Na grande maioria das vezes, reivindicavam algo, de maneira organizada, o que lhes fazia constituir um movimento.

A América Latina tem uma grande tradição de movimentos sociais e, para essa discussão, acredito ser relevante recorrer a duas delas, ambas do México no contexto da Revolução Mexicana do início do século XX, e que continuam a ter protagonismo na América Latina até os nossos dias: o magonismo e o zapatismo.


Magonismo


Em 1876 tem início a ditadura de Porfírio Dias, um governo caracterizado pela exploração das classes de trabalhadores e camponeses, concentração de riqueza, do poder político e do acesso à educação, basicamente em famílias de latifundiários e empresas estrangeiras, vindas principalmente da França, Inglaterra e Estados Unidos. A concentração de terras no México era absurda, e os fazendeiros proprietários eram “donos absolutos de homens e coisas”, com um poder e recursos quase incomensuráveis. Apesar de o povo viver na miséria extrema, a ditadura de Diaz assegurava grandes lucros aos investimentos capitalistas do exterior. Nove milhões de mexicanos eram analfabetos. Conforme colocou Pier Francesco Zarcone:

“Os dois pilares principais do sistema das propriedades rurais eram:

a) as tiendas de raya – lojas de gêneros alimentícios, licores e roupas de baixa qualidade (os proprietários delas eram os próprios fazendeiros), onde os camponeses de uma fazenda eram forçados a fazer as compras, também e principalmente a crédito; por este sistema, os fazendeiros – que revendiam bens de pouco valor a preços superiores – quase recuperavam o dinheiro atribuído aos salários e os camponeses endividados não podiam mover-se das fazendas onde trabalhavam antes de pagarem as dívidas assim contraídas (o sistema ainda está em uso em muitas partes de América do Sul);

b) a ley de fuga – que permitia aos donos matar o camponês fugitivo; para os trabalhadores rebeldes um castigo muito usado consistia em pôr o rebelde num buraco na terra, com a cabeça fora, e fazê-la pisar pelos cavalos a galope.”[1]

Com o objetivo de combater essas injustiças, constituiu-se, já na segunda metade do século XIX, uma resistência libertária, riquíssima em sua diversidade. Muitos foram os exemplos de associações de socorro mútuo (Sociedad Particular de Socorros Mútuos), grupos militantes (A Social, Sociedad Agrícola Oriental), greves organizadas pelos trabalhadores, escolas libertárias (Escuela del Rayo y del Socialismo), grupos de estudo (Grupo de Estudiantes Socialistas), e a formação do Congresso General Obrero da República Mexicana. Podemos citar a própria constituição do Partido Comunista Mexicano, que tinha tendência bakuninista. O governo inicia uma onda de repressão fechando os círculos anarquistas e acabando violentamente com duas revoltas organizadas pelos trabalhadores.

Alguns anos depois, já no início do século XX, Ricardo Flores Magón seria um dos grandes representantes dos ideais libertários na luta contra a ditadura de Diaz. “O apóstolo da revolução social mexicana” como foi chamado por Diego A. de Santillán, inicia sua campanha contra uma nova candidatura de Diaz, alguns anos antes da virada do século, e pouco a pouco vai se orientando cada vez mais ao socialismo libertário. Em 1900 funda o periódico Regeneración que logo se tornaria um dos maiores veículos da imprensa operária e cujo objetivo era a derrocada da ditadura e do estabelecimento do comunismo libertário, que Magón tão bem aprendera com as leituras de Kropotkin. Na descrição de Diego Abad de Santillán: “Em 7 de agosto de 1900 apareceu no México o primeiro número do Regeneración, redigido por Ricardo Flores Magón e sei irmão mais velho, Jesus. A linguagem desse periódico, que havia de exercer grande influência nos destinos do povo mexicano, levou o espanto ao ânimo de Diaz e dos ‘cientistas’; viu-se logo que atrás dessa atrevida publicação havia uma vontade indomável; sem esforço algum os antiporfiristas da Cidade do México foram agrupando-se em torno de Ricardo Flores Magón, no qual viram o cérebro mais consciente e a vontade mais decidida contra a tirania do general Diaz”[2]

Magón também integra em 1901 o Partido Liberal Mexicano (PLM) que havia sido fundado um ano antes. O programa do partido tinha um sentido liberal radical e os objetivos giravam em torno da crítica ao clero político católico que emergia em defesa dos interesses dos grandes proprietários e empresários capitalistas. Além disso, ressaltava a importância da reivindicação dos direitos dos cidadãos mexicanos e do abandono da crença de que no governo estaria a solução para todos os males. Ressaltava ainda a ação coletiva como principal elemento das democracias.

Durante todo o período da ditadura, tanto o PLM quanto o periódico Regeneración – ambos muito influenciados por Magón – foram grandes opositores do regime, defendendo o fim da ditadura e do regime porfirista. Aliás, por razão da influência libertária presente no partido, a partir da segunda metade da década de 1900, o PLM se radicaliza, tornando seu discurso mais combativo e criando uma tensão interna no partido, o que afasta os elementos menos radicais. Vale ressaltar que o partido não concorria às eleições e servia somente como um espaço de articulação horizontal dos revolucionários libertários da época, sem objetivos de tomar o Estado e estabelecer uma ditadura, mas para colocar um fim ao governo de Diaz, estabelecendo o comunismo libertário em seguida. Em 1906 o PLM lança seu programa e também o Manifesto à Nação Mexicana, um documento de grande importância para o movimento revolucionário da época e que propunha uma estratégia para acabar com a ditadura de Diaz e com as estruturas fundiárias. O PLM tornou-se clandestino e organizou em todo o México mais de 40 grupos de resistência armada e também contou com membros indígenas, conhecidos por sua luta pelos direitos das comunidades e contra a propriedade capitalista. Após a radicalização, Francisco Madero – um empresário que simpatizava com as reformas sociais e que chegou, ainda em 1905, a tecer elogios ao PLM – estabeleceu uma discordância de que os meios pacíficos para tirar Diaz do poder estariam esgotados.

A fraude eleitoral de 1910 comandada por Diaz, daria início à explosão da Revolução Mexicana. Com a prisão de Madero, seu adversário nas eleições, conseguiu reeleger-se novamente. Exilado em San Antonio, no Texas, Madero redige o Plano de San Luís, convocando um levante armado para 20 de novembro, além de declarar nulas as eleições de 1910, rechaçando a eleição de Diaz e instituindo-se como presidente provisório. Muitos rebeldes atenderam ao chamado revolucionário, entre eles Emiliano Zapata, que tinha um importante papel na organização dos indígenas da região de Morelos, e Pancho Villa, um ex-ladrão de gado e assaltante de bancos, muito reconhecido pelos humildes das regiões de Durango e Chihuahua. Estavam unidos, em uma frente anti-reeleicionista, que dava a cada grupo relativo grau de autonomia e independência.

Já em 1911 e em meio à Revolução e com apoio do sindicato norte americano IWW, os anarquistas, que tinham à frente Magón, ocupam a região da Baixa Califórnia, tomando cidades de importância como Mexicali. Ao fim do mês de janeiro, constituem a “República Socialista da Baixa Califórnia”, a primeira república socialista do mundo. Os magonistas tiveram ainda vitórias em cidades como Novo León, Chihuahua, Sonora, Guadalupe e Casas Grandes; espaços esses que seriam perdidos após a repressão ocasionada pelo governo de Madero. Aliás, lembremos que antes da subida de Madero ao poder, Magón foi convidado para ser vice-presidente do México, o que negou, em honra à sua bandeira do comunismo libertário.

Grande parte dos revolucionários rompe com Madero por razão da constituição amplamente burguesa de seu governo e que não possuía qualquer aspiração de ir além do liberalismo. Uma dessas revoltas, organizada por Zapata no estado de Morelos e o Plan de Ayala lançado em novembro de 1911 (e que pedia a derrubada do governo de Madero e propunha um processo de reforma agrária com controle das comunidades camponesas) constituíram-se como instrumentos na luta dos camponeses pela revolução social no país, sempre inspirados pelo lema Tierra y Libertad. Como ressalta o historiador Alexandre Samis: “o grito revolucionário de Tierra y Libertad [...] teria sido entoado primeiro pelo poeta e militante anarquista Praxedis Guerrero e depois disseminado pelos magonistas”. Foi então que “Soto y Gama, um magonista muito próximo a Emiliano Zapata, viria a popularizá-lo junto ao exército revolucionário zapatista.”[3] Um outro interessante fato que comprova a proximidade entre Zapata e Magón acontece quando Zapata convida Magón, em 1915, para levar o periódico Regeneración para Morelos, colocando à sua disposição meios que dariam ao jornal uma expansão nacional. Isso acabou não dando certo por razão dos problemas de saúde e prisões que aconteceram com Magón, e por ele acreditar que se o jornal permanecesse nos EUA (o que acontecia naquele momento), a perspectiva internacionalista seria favorecida.

Depois disso, o México afundou-se em um período de guerra civil e tentou estabelecer uma Convenção, já nos fins de 1914. Os fatos que se deram em seqüência, como a tentativa de tomada da Cidade do México por Villa e Zapata, a convocação da Assembléia Constituinte por Carranza, que depois seria eleito presidente e assassinado e os conflitos que se seguiram no país acabaram constituindo o pano de fundo da decadência do período revolucionário no país.


Zapatismo


Inspirados abertamente neste contexto da Revolução Mexicana, já no início da década de 1990, surge o novo movimento zapatista. Insatisfeitos com a política de devoção ao capitalismo neoliberal adotada pelo mundo, índios camponeses do sul do país – mais especificamente da região de Chiapas no México – concentraram-se na selva mexicana e iniciaram um processo de discussão e uma tentativa de unir forças e adesões na sua luta contra o neoliberalismo e as conseqüências das políticas do NAFTA, que estava marcado para entrar em vigor em primeiro de janeiro de 1994. Segundo os indígenas, a assinatura do NAFTA seria uma sentença de morte a eles, um tratado que beneficiaria ainda mais os ricos do México, aumentando a concentração de riquezas no país e prejudicando os mais pobres. Para o mesmo dia do início do NAFTA, esse grupo de índios que se chamou Exercito Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), programou um levante, que acabou marcando de forma bastante severa, todo o mundo. Sua avaliação do contexto mexicano indica que o EZLN via a situação do México como a de um país colonial dominado pelos EUA e que para poder fazer a transição para a democracia e o socialismo seria necessária uma revolução. Dessa forma foi escolhido o nome do EZLN.

O EZLN envia, a partir de então, comunicados para todo o mundo, criticando o capitalismo neoliberal e contando as realidades do levante ocorrido e da comunidade autônoma que havia se formado em Chiapas. Assim, a história de Chiapas ultrapassa as fronteiras do México. Mesmo sendo o EZLN um movimento armado e de libertação nacional, ele não recebe rechaço da população mundial e internacionaliza-se, sendo solidário às causas de outras localidades do mundo.
Mesmo que grande parte da população mexicana não estivesse disposta a se juntar à luta armada, a insurreição zapatista acabou inspirando grupos e movimentos por todo o mundo. Sobre o fato de ser um movimento armado, o EZLN justifica: “Mas para que soldados não sejam mais necessários é preciso virar soldado e disparar uma certa quantidade de chumbo quente, escrevendo liberdade e justiça para todos, não para alguns, mas para todos, todos os mortos de ontem e de amanhã, os vivos de hoje e de sempre, por todos aqueles que chamamos de povo e pátria, os excluídos, os que nasceram para perder, os sem-nome, os sem-rosto.”[4]

A concepção do EZLN de educar a sociedade civil por meio dos fatos foi posta em prática com a divulgação da realidade política das comunidades de Chiapas e assim, os zapatistas insurgentes se tornaram um modelo para toda a esquerda mundial. O combate incansável à política neoliberal e pela desmilitarização da zona autônoma que havia sido criada, foi uma fonte de inspiração a todos os militantes que preconizavam a luta política feita por meio da ação direta, com decisões tomadas de forma democrática, levando em conta a autonomia e a igualdade entre gêneros. A crítica à democracia representativa e os objetivos coletivistas dos zapatistas também podem ser citados como traços marcantes do movimento. Eles dizem que “o povo simples limita-se apenas a eleger ‘representantes’ que lhes são oferecidos. O seu envolvimento só ocorre na hora da eleição, de dar o seu voto para este ou aquele candidato. No restante do tempo, é mantido como mero espectador da cena social e não se faz o menor esforço para envolvê-lo quando o assunto é organizar a vida econômica e política do país. [...] Para que seja possível reverter essa situação, o EZLN torna-se uma referência e um caminho para que as pessoas deixem de ser espectadoras e passem a ter uma participação ativa no cotidiano da vida social, para que a rebeldia e a resistência ganhem corpo e sentido, para que seja possível concretizar a esperança de que as coisas podem ser diferentes do que são e que a construção de um mundo melhor só depende do envolvimento e da participação de cada um para eliminar toda forma de discriminação e de exploração.” Os membros do EZLN “Não querem ter a honra de chegar sozinhos, não buscam o privilégio de sentar nos lugares mais elevados, mas se dedicam incansavelmente a fazer com que haja tudo para todos.”[5]

Após a dissolução da Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN) – braço civil do EZLN e cujo objetivo era constituir-se enquanto uma organização política, civil e pacífica que não lutaria pela tomada do poder – em 2005, o EZLN deu início à Outra Campanha. Com isso, o EZLN pretende dedicar-se a um trabalho político aberto, civil e pacífico, dando espaço a uma nova etapa da luta zapatista com vistas à democracia, liberdade e justiça. Continuando a crítica radical à política institucional e propondo um rompimento formal com o Partido Revolucionário Democrático (PRD) mexicano – uma suposta esquerda do país – presentes na Sexta Declaração da Selva Lancandona, o EZLN propõe uma forma de política que opõe as eleições e os meios institucionais, realçando os movimentos sociais de esquerda e anticapitalistas. Para eles, nesta campanha, o foco é levar a sua concepção, enquanto um movimento social, para outras regiões do México e do mundo. É mostrar que o poder das decisões e da gestão da vida do povo não deve ser conferido a um governo ou a qualquer poder institucional que está acima dele. É mostrar que o povo deve organizar-se enquanto povo para tratar dos seus próprios assuntos e tomar o espaço político (em termos de tomada de decisões) que lhes foi roubado pela burocracia dos governos e dos partidos políticos institucionais.

Com o objetivo de dar conta das demandas criadas com o estabelecimento dos municípios autônomos, surgiram as Juntas de Bom Governo que constituem um outro interessante exemplo de política feita pelos movimentos sociais contemporâneos. As Juntas têm por objetivo funcionar como uma escola de democracia direta, dando espaço e encorajando a população a tomar as decisões, de maneira não hierárquica e sem corrupção: a própria autogestão ou o autogoverno. Como dizem os próprios zapatistas, mandam obedecendo, e assim estimulam as discussões e tomadas de decisão coletivas. As Juntas foram constituídas para reorganizar os antigos municípios autônomos zapatistas, levando em conta as demandas, tanto dos zapatistas, quanto dos indígenas e camponeses mexicanos. Dessa forma, servem como ponte para a articulação entre as diversas municipalidades zapatistas, preservando a autonomia em relação ao Estado comandado atualmente por Vicente Fox.


Um Paradigma de Resistência Atual


Creio ser importante ressaltar o “neo-magonismo” em crescente desenvolvimento no México. Da mesma forma inspirados nos princípios levantados na Revolução Mexicana, e em grande medida zapatistas, os magonistas contemporâneos também estão trabalhando para a criação de alternativas ao poder do Estado, estimulando a autonomia para que possam exercer seus direitos na prática. Assim, magonistas e zapatistas de nossos dias têm estabelecido um diálogo que se dá nas bases organizativas de um pensamento de esquerda, fora do âmbito institucional, que dê conta da questão indígena em bases revolucionárias, não hierárquicas e antiautoritárias. Fruto desse intercâmbio, surge em 2000 a Aliança Magonista Zapatista (AMZ) que, constituída por grupos indígenas e organizações militantes, declara sua luta contra as injustiças que acontecem contra o povo pobre e oprimido, trazendo novamente à tona o lema “Terra e Liberdade”, símbolo da cooperação zapatismo-magonismo num passado não tão recente. Além disso, ressaltam a importância da “outra forma de fazer política” e do rechaço ao poder de Estado, dizendo: “não aspiramos exercer o poder, mas sim construir um mundo livre, justo e democrático”.

Àqueles que esperam traçar um paradigma de lutas do século XXI, que tenha por objetivo acabar com a exploração, vale saber que mesmo dentro de nossa América Latina estão acontecendo movimentos de grande importância e que possuem em seu bojo, muito mais democracia e liberdade que todos os projetos estatais hoje em voga. O magonismo e o zapatismo mexicanos são somente dois exemplos de outras tantas mobilizações que, como setores dos piqueteros na Argentina, setores dos movimentos sem-teto e sem-terra no Brasil, o Movimento Passe-Livre, dentre outros, questionam de fora do Estado o status-quo e oferecem perspectivas libertárias de transformação do mundo. Resta saber se os socialistas libertários de hoje acompanharão estes movimentos, e tentarão influenciá-los o quanto for possível, ou se simplesmente abandonarão o bonde da história, deixando a eles somente os tentáculos do Estado, a alienação do capitalismo, e os maus-elementos que lhes tentarão aparelhar dia após dia.

Felipe Corrêa
Junho de 2006

Notas:

[1] Pier Francisco Zarcone. Os Anarquistas na Revolução Mexicana. Utilizei esse ótimo artigo para nortear esse trecho sobre a Revolução Mexicana. O artigo, com um novo apêndice do autor discutindo zapatismo e magonismo hoje, será publicado pela Faísca Publicações ainda em 2006.
[2] Diego Abad de Santillán. Ricardo Flores Magón: o apóstolo da revolução mexicana. Rio de Janeiro/São Paulo: Achiamé/FARJ/Faísca, 2006.
[3] Alexandre Samis. “Apresentação” In: Ricardo Flores Magón: A Revolução Mexicana. São Paulo: Imaginário, 2003 p. 19.
[4] Emilio Gennari. Chiapas: as comunidades zapatistas reescrevem a história. Rio de Janeiro: Achiamé, 2002 p. 60.
[5] Ibidem. pp. 58;59;13.

* Este artigo é um trecho de Mobilizações Sociais na América Latina: da nacionalização dos recursos bolivianos à resistência no México.

* Felipe Corrêa é militante da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) e da pró Federação Anarquista de São Paulo (pró - FASP).
Related Link: http://www.farj.org

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

1º Encontro Libertário: Anarquismo e Movimentos Sociais


De 08 a 11 de dezembro

A Organização Resistência Libertária (ORL) vai estar realizando em Fortaleza o I Encontro Libertário: Anarquismo e Movimentos Sociais.


O Encontro contará com a participação de militantes de organizações políticas anarquistas de várias cidades do país, militantes de movimentos sociais, pesquisadores e simpatizantes. Com esta iniciativa pretendemos criar um espaço para a troca de experiência e metodologias entre aqueles que atuam no sentido da construção de idéias e formas concretas de luta anti-capitalista numa perspectiva libertária.

Serão quatro dias de oficinas, debates, discussões, palestras, exposições, atividades culturais e encontros informais em torno de temas como anarquismo social, educação libertária, mídias independentes, movimentos semteto e luta pela moradia, ecologia social, movimento estudantil, organização libertária, resistência étnica, luta anti-capitalista, etc.

Acreditamos que a luta anti-capitalista só pode avançar de forma conseqüente e duradoura se assumir radicalidade e dimensões sociais cada vez mais amplas. Neste sentido, pensamos que o anarquismo deve colocar-se como um elemento inserido e a serviço das lutas sociais, estimulando a autonomia, a ação direta, a combatividade e a democracia direta. Esta inserção não deve buscar de forma alguma dirigir ou submeter as lutas a interesses particulares, mas contribuir para que ultrapassem as reivindicações imediatas e assumam um caráter libertário, revolucionário e de superação da sociedade capitalista.

Convidamos a todos e todas a participarem desse momento de encontro e conhecimento coletivo, e que possamos somar esforços e seguir dando passos mais longos e mais firmes no sentido de pensar e construir concretamente experiências de organização e de luta que se coloquem numa perspectiva libertária e anti-capitalista.

*Os grandes só são grandes porque estamos de joelhos. Levantemo-nos!*


*Organização Resistência Libertária*


*PROGRAMAÇÃO:*

*08/12 (segunda-feira)*

*16h -Recepção de convidados e participantes*

*18h -Abertura do Encontro*

*18h30 -**Debate: */*Anarquismo Social e a Construção de Contrapoderes*/

*Debatedores: *Felipe Corrêa (Federação Anarquista do Rio de Janeiro – FARJ) e Mateus Júnior (Magão) (Organização Resistência Libertária – ORL).

*Local: *Pátio da História – UFC

*09/12 (Terça-feira)*

*9h –**Oficinas e exibição de vídeos*/***/

*14h –**Mesa-redonda: */*Movimento Operário e Imprensa Anarquista*/

*Participantes: *Adelaide Gonçalves (Universidade Federal do Ceará - UFC) e Rogério Nascimento (Universidade Federal de Campina Grande – UFCG)

*Local: *Auditório da História – UFC

*18h30 – **Debate: */*Anarquismo e Movimentos Sociais*/

*Debatedores: *Alexandre Samis (Federação Anarquista do Rio de Janeiro – FARJ / Movimento dos Trabalhadores Desempregados - MTD) e Victor Pereira (Movimento estudantil da UFC / Organização Resistência Libertária – ORL)

*Local: *Pátio da História – UFC.

*10/12 (quarta-feira)*

*9h –Oficinas e exibição de vídeos**

*14h –**Mesa-redonda: */*Pedagogia Libertária e Educação Anarquista no Brasil*/

*Participantes: *José Damiro de Moraes (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM) e Sandro Soares (Universidade Federal do Ceará – UFC)

*Local: *Auditório da História - UFC

*18h30 - **Debate: */*Anarquismo e Movimento Estudantil*/

*Debatedores: *Henrique Bezerra (Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares - CAZP / Movimento estudantil da UFAL), Patrícia Pinheiro e Thiago Roniere (Movimento estudantil da UFC / Organização Resistência Libertária – ORL)

*Local: *Pátio da História – UFC

*11/12 (quinta-feira)*

*9h – **Oficinas e exibição de vídeos*/***/

*14h - **Mesa-redonda: */*História e Historiografia do Anarquismo no Brasil*/

*Participantes: *Alexandre Samis (UFF / GEA-NEC), Allyson Bruno (Universidade Estadual do Ceará – UECE) e Carlo Romani (Universidade Federal do Ceará - UFC)

*Local: *Auditório da História – UFC

*18h30 – **Debate: */*A Luta dos Povos Indígenas Contra o Avanço Capitalista no Ceará*/

*Debatedores: *João Paulo Vieira (Historiador / Organização Resistência Libertária – ORL) e Representantes de comunidades indígenas do Ceará

*Local: *Pátio da História – UFC

*21h- Encerramento e confraternização*

*Oficinas confirmadas:*

*Wen-do / João Pessoa* (auto-defesa feminina)

*Projeto Ciclovida *(ação ecológica no campo)

*Grupo de Capoeira Angola Pelourinho *(oficina de capoeira angola)

** Demais oficinas, comunicações livres, exposições e exibições de vídeos serão divulgadas numa programação especial*

*Propostas de oficinas e comunicações serão aceitas até 28 de novembro
pelo e-mail: _encontrolibertario@gmail.com_
*

*De 8 a 11 de Dezembro de 2008*

*DURANTE O EVENTO SERÃO LANÇADOS OS SEGUINTES LIVROS E PUBLICAÇÕES:*

*e, 2700 - Fortaleza-CE*

*Os Enganadores*

*A Política da Internacional*

*Aonde Ir e o Que Fazer*

/*Mikhail Bakunin*/

*Co-edição entre Imaginário e*

*Faísca Publicações Libertárias*

*A Idéia dos Sovietes*

/*Pano Vassilev*/

*Co-edição entre Imaginário e*

*Faísca Publicações Libertárias*

*A Concepção Libertária da Transformação Social Revolucionária*

/*Rudolf de Jong*/

*Edição Faísca Publicações Libertárias*

*Manifesto da Organização Resistência Libertária*

*Declaração de Princípios da Organização Resistência Libertária*

*Semente Libertária*

(Jornal da Organização Resistência Libertária)

*Folder em anexo!*

*Programação:*

*_http://encontrolibertario.blogspot.com_
*

*Inscrições e mais informações pelo e-mail: *

*_encontrolibertario@gmail.com_*


*I Encontro Libertário: Anarquismo e Movimentos Sociais*

*De 8 a 11 de Dezembro de 2008*

*Local: Centro de Humanidades II da UFC*

*Av. da Universidade, 2700 – Fortaleza-CE*

*Realização:*

*Organização Resistência Libertária*

*Apoio:*

*Universidade Federal do Ceará*

*Federação Anarquista do Rio de Janeiro*

*Faísca Publicações Libertárias*

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ANARQUISTA Federação Anarquista Uruguaia (FAU)


A FAU pretende ser uma expressão política dos interesses das classes dominadas, exploradas e oprimidas; e, colocando-se a serviço delas, aspira ser um motor das lutas sociais. Um motor que nem as substitui e nem as representa. Mas que pretende dinamizá-las e organizá-las, contribuir para a superação do aspecto meramente espontâneo, transcender os vaivéns da conjuntura e assegurar a continuidade das rebeldias, das lutas cotidianas, das expectativas, aspirações, etc.

Para nós, a organização política é também o âmbito em que se vai acumulando a experiência de luta popular, tanto em nível nacional como internacional. Uma instância que impede que se dilua o saber que os explorados e os oprimidos vão adquirindo com o tempo.


ORGANIZAÇÃO POLÍTICA

A organização política atua ainda como local de produção das análises conjunturais e das orientações fundamentais pertinentes. Por isso, é a organização política a instância adequada para assumir os distintos e complexos níveis de atividade, que o trabalho revolucionário pode exigir, a única instância capaz de assegurar o conjunto de recursos técnicos, materiais, políticos e teóricos, etc. que são condição indispensável de uma estratégia de ruptura.

Nossa visão da organização política é contrária às distintas formas de “vanguardismo”, de “guardiões da consciência”, enfim, de grupos auto-eleitos, que se sentem tocados pelo dedo de Deus. A organização, mantendo e promovendo o espírito de revolta, assume como próprias todas as exigências presentes e futuras de um processo revolucionário. E a partir do trabalho militante organizado, e somente a partir dele, que se pode promover coerentemente e com força redobrada a criação, o fortalecimento e a consolidação das organizações populares de base, que constituem os núcleos do poder popular revolucionário. A organização política não é uma coisa acabada, e está sujeita às influências diversas que vão exigindo adequações. Também é uma instância especial de aprendizagem em relação às lutas sociais com as quais se articula. E finalmente, no estrito âmbito da ação política (e não desconhecemos a existência de outros, mas reivindicamos o político como um âmbito separado) a FAU aspira ser a ferramenta para tornar realidade nossos princípios libertários.


NÍVEL POLÍTICO E NÍVEL SOCIAL


O problema do poder, decisivo em uma transformação social profunda, só pode ser resolvido a nível político, através da luta política. E esta requer uma forma específica de organização: a organização política revolucionária. Só através de sua ação, enraizada nas massas, pode conseguir a destruição do aparato estatal burguês e sua substituição por mecanismos de poder popular.

A atividade política não pode ser reduzida à luta econômica, à prática sindical, ainda que esta possa conter, como efetivamente contém, elementos “políticos”. (...) Mas esta luta econômica não produz espontaneamente a luta contra o poder político como tal. (...) Por isso, o espontaneísmo, as mobilizações espontâneas de massas, reflexo de um acúmulo de problemas sem solução que logo “estouram”, se não forem canalizados e instrumentalizados adequadamente, dificilmente transcendem ao plano político em termos de modificar as relações de poder.

A destruição do poder [burguês...] supõe a criação de uma outra ordem social, a qual exige a adoção de um outro “modelo” de organização (que implica uma ideologia) e, além disso, uma inevitável luta que implica meios técnicos, que o movimento de massas, por si, espontaneamente não pode desenvolver com êxito. Este é, em nossa época, o ensino a extrair dos grandes movimentos espontâneos de massa.

Não é possível uma insurreição, nem um processo de luta prolongada de costas ou distantes das massas. A predisposição espontânea dessas, que é função da organização política canalizar em termos de organização e desenvolver ideologicamente, tem sempre um papel absolutamente principal. Não se pode realizar uma revolução à margem ou apesar da gente. E menos construir um novo sistema social sem a adesão inicial pelo menos de um setor bastante amplo do povo.


LUTA POLÍTICA E IDEOLÓGICA

Daí a necessidade de uma atividade ideológica de esclarecimento (e de dispor dos elementos necessários a ela) que não é contraditória, mas complementar a outros níveis de luta (econômico, militar, etc.). Por atividade ideológica não entendemos, obviamente, a pregação intelectual, “educacionista”, que se remete mais ou menos exclusivamente à difusão de “teoria” revolucionária, ainda que, esclareçamos, esta também possui sua importância. Atividade ideológica é algo mais que a mera difusão de conhecimentos teóricos. Os fatos, a própria prática política, são ingredientes, elementos decisivos da integração de um nível de consciência revolucionária.

Um resultado ideológico essencial firma-se em demonstrar diante do povo uma perspectiva de vitória, um caminho de esperança, de confiança na possibilidade de uma transformação profunda, revolucionária. (...) E esta função “demonstrativa” (...) é função de uma minoria politicamente organizada, com um nível ideológico, de consciência que não pode ser gerada na prática espontânea das massas. Um nível que supõe a superação do espontaneísmo.



* Texto composto com trechos da “Carta de Princípios da FAU” e do artigo “La Organización Política es lo Decisivo” em Juan Mechoso. Acción Directa Anarquista: una historia de FAU. Montevideo: Recortes, s/d pp. 194-195.

* Tradução e seleção: Felipe Corrêa

terça-feira, 14 de outubro de 2008

“ O pentagrama das Organizações Anarquistas ”


Quando falamos em Organizações Anarquistas, buscamos as referencias Históricas e da atualidade.
Longe de dizer quem é mais ou menos Anarquista ou qual forma de Organização é mais Anarco, pensei em ressaltar as 05 formas de Organização Anarquista existentes na nossa atualidade histórica em São Paulo – Brasil, para esclarecer as diferenças e comparações com o Especifismo.


1) O Especifismo:
Nasce com Bakunin e seus grupos de afinidade como a “ Aliança da Democracia Socialista ”, se desdobra nos diversos grupos de afinidade como o partido Anarquista de Errico Malatesta que buscavam se inserir nas Lutas Sociais, criando junto a estas uma força política capaz de orientar a Luta Social aos objetivos Libertários.
Ou seja: um grupo de minoria ativa onde seus militantes tem o compromisso na atuação com os Movimentos Sociais.

2) O Anarquismo Social: Nasce com a intensa ação e propaganda Anarquista no Movimento Social, promovida pelos Grupos de Afinidade Anarquista ao longo do tempo, estes fizeram uma inquebrável pratica de Inserção Social junto a estes Movimentos.
Os exemplos históricos são as diversas organizações Sindicais de orientação Livre e Revolucionaria, os Movimentos Feministas, de Juventude, Ecologistas entre outros...

3) O Plataformismo: Nasce com a Revolução Russa em especial com a experiência Ucraniana, com os relatos de exílio de Mackno e Arckinov.
Os Plataformistas falam da importância da Auto-disciplina com a preparação dos Anarquistas para o Avanço das Lutas, onde será inevitável o confronto com a Reação Burguesa.
Ou seja os Plataformistas estam a falar do nível de segurança, onde as condições indiquem para a formação de um Exercito de Insurgentes.

4) O Sintetismo: Nasce com Sébastien Faure na França:
Os Sintetistas acreditam na criação de uma Federação Anarquista onde convirjam todos os diferentes Grupos Anarquistas inclusive os individualistas, no Objetivo de unir todos os diferentes grupos em torno da propaganda Anarquista.

5) O Autonomismo: Nasce nesta nossa atualidade não tem um pai especifico, mas reúne diversos grupos de matrizes ideológicas diferentes, não só de Anarquistas.
Os Autonomistas reivindicam a união pontual em momentos especificos.
Ao contrario dos Sintetistas, estes não propõem uma Federação de Grupos, somente a união pontual que respeite as diferenças ideológicas.
Vários grupos se reivindicam Autonomistas: Marxistas Heterodoxos (Conselhistas e Luxemburguistas), grupos de Contra – Cultura e Juventude, pequenos grupos de propaganda Anarquista com perfil cultural, Situacionistas entre outros...


A pró FASP converge com o Especifismo, pois acredita que este é a expressão do Anarquismo Organizado que une os Anarquistas em um grupo de minoria ativa e de afinidades capaz de resgatar o Vetor Social do Anarquismo ou seja o Anarquismo Social.

Mas diverge do Anarquismo Social daqueles que querem dar títulos de Anarco ao Sindicalismo, ao Ecologismo, ao Feminismo, aos Movimentos de Juventude e Contra - Cultura Punk entre anarco-ismos ... Se diferenciando com estes no debate sobre níveis e Frentes de Inserção Social.

O Especifismo converge com o debate dos Plataformistas, mas diverge no debate sobre níveis de Inserção Social, onde os Plataformistas dão maior peso ao debate do nível de segurança.

O Especifismo diverge com os Sintetistas em torno da Organicidade da Federação, onde os Sintetistas falam da convergência de grupos diferentes para com a Federação, o Especifismo fala de uma outra via onde a Federação Anarquista converge para o nível Social de Lutas junto aos Grupos Sociais e não destes só para com a Federação.

Diverge com isto o Especifismo com o Sintetismo na forma de união em torno da propaganda Anarquista proposta pelos Sintetistas. O Especifismo fala da propaganda em torno da ação Revolucionaria dos Anarquistas Inseridos Socialmente.

O Especifismo acredita que é possível estar junto numa mesma trincheira em momentos pontuais e específicos na propostas dos Autonomistas, mas não numa mesma Coluna, pela diversidade de grupos que se reivindicam Autonomistas contrários a unidade em torno do Organismo Federalista.

Mas defende o Especifismo a Autonomia dos Movimentos Sociais, diferente da proposta de uma união pontual chamada de Organização Anarquista como Autonomismo.

Esta pratica de discernimento em separar o joio do trigo é uma pratica da escola positivista, herança dos trabalhadores Franceses.

Para buscar esclarecer e encontrar o melhor discernimento da sabedoria do caminhar, nas analises de conjuntura por exemplo !

O pentagrama das organizações Anarquistas traz com sigo uma formula de analise que segue o seguinte critério:

1) O que ?
2) Quando ?
3) Como ?
4) Porque ?
5) onde ?


Estas 05 perguntas devem ser lidas no sentido horário para fazer sentido a ordem de acontecimentos históricos das organizações Anarquistas.

A pentagrama é em resumo o corpo humano e um método de construção de conhecimento, tendo por base o tempo e espaço histórico.

Um exemplo de aplicação do método de conhecimento do pentagrama com as organizações Anarquistas:

1) O Especifismo corresponde a resposta da 1º pergunta: - O que ?
Pois é a cabeça e a origem da organização especifica dos Anarquistas;

2) O Anarquismo Social é o punho esquerdo que erguemos como Símbolo de nossa Luta, o lado vermelho da Luta Social de nossa bandeira e corresponde a resposta da 2º pergunta: - Quando ?

3) O Plataformismo é o pé esquerdo da Cavalaria Pirata corresponde a resposta da 3º pergunta:
- Como ?

4) O Sintetismo é o pé direito, a eterna duvida e o descompasso de organização, que quer que todos convirjam a ela, corresponde a resposta da 4º pergunta: - Porque ?

5) O Autonomismo é a mão direita com maior agilidade e corresponde a resposta da 5º pergunta:
- onde ?

Com isto temos um raciocínio de conhecimentos em ordem histórica através de um método de conhecimento.

Por Eduardo Preto
Do núcleo pró FASP da Capital.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Princípios da Resistência Popular


Carta de Princípios da Resistência Popular

O sentimento que nos move


Vivemos num mundo extremamente injusto e desigual. Enquanto uma minoria tem toda riqueza nas mãos, a maioria vive na miséria e na pobreza e sem nenhum poder de decisão política.
A minoria é dona das fábricas, do grande comércio e dos bancos. São eles também os que governam e/ou bancam a eleição daqueles que desejam colocar no poder. Esta minoria dominante é uma classe: a burguesia. A maioria não é dona de nada, é obrigada a trabalhar em péssimas condições para sobreviver, caso contrário passa fome, não é dona de empresas, nem de bancos, quando muito tem sua casa simples, não está no poder, não disputa eleição e sofre com o governo da minoria. Essa grande maioria pertence ao conjunto das classes trabalhadoras, o povo pobre.
Para que essa maioria da população possa viver com dignidade, é preciso que haja a socialização integral, da riqueza produzida e das decisões políticas. Por isso as classes trabalhadoras da sociedade precisam se organizar e lutar, é preciso resistência popular.

Nossa história

A Resistência Popular é a coordenação solidária que agrupa diversas expressões do movimento social pautadas pelo caráter combativo e autônomo, pelos princípios da ação direta, classismo, solidariedade de classe, horizontalidade, democracia direta e protagonismo popular.
A Resistência Popular tem a intenção de impulsionar a construção de um movimento social unificado nacionalmente, com laços solidários internacionais que a longo prazo contribua para a edificação do socialismo , através da construção de um processo de avanço do poder popular e ruptura revolucionária. Por isso mesmo, mantemos relações solidárias com a Resistência Popular de vários estados do Brasil e com movimentos sociais latino-americanos de caráter autônomo e combativo.
Fundada em janeiro de 1999 na Grande São Paulo, a RP-SP segue na luta desde então, passando por várias etapas, sempre procurando estar presente nas várias expressões de luta de nossa classe e mantendo a coerência com os nossos propósitos.

Nossos Métodos e Posturas


Para chegar onde queremos não serve qualquer caminho. Temos uma forma de trabalhar que segue alguns princípios, coerentes com a nossa proposta de transformação social. São eles:

Ação Direta e Protagonismo Popular

Ação direta é quando as pessoas e os grupos decidem e agem diretamente em tudo aquilo que tem relação com suas vidas. A ação direta abre caminho para a maior participação e discussão possível, de todas as decisões e ações, impedindo assim que haja uma burocratização nos processos decisórios, ou seja, que intermediários queiram assumir o controle das decisões que dizem respeito ao povo. Desse modo a ação direta fortalece o protagonismo popular onde o povo pode e deve tomar as rédeas de seu destino.
Acreditamos que só há mudanças significativas quando o povo organizado se coloca em movimento. Sabemos que muitas vezes as ações dos políticos são devidas às pressões do povo ou quando querem ampliar sua margem de eleitores. Nós que fazendo parte da classe trabalhadora conhecemos os problemas pelos quais passamos, consideramos fundamental o trabalho no movimento social e popular, e por isso a Resistência Popular não participa de eleições, nem apóia vereadores, prefeitos, deputados.

Classismo e Solidariedade de classe

A sociedade capitalista em que vivemos produziu no decorrer de sua história classes antagônicas, uma que explora e governa retendo para si a riqueza de quase tudo o que se produz, e um conjunto de outras classes, em que se encontra a maioria da população, que quase sempre tem acesso somente ao mínimo necessário para sobreviver e não possui acesso significativo às decisões políticas.
Esta situação social é tensa, gera conflito, faz nascer o que se chama luta de classes. Tem momentos em que esta luta fica mais calma, em outros, mais tensa, mas ela vai permanecer existindo enquanto a sociedade for injusta e desigual. Por este motivo é de extrema importância para nós que seja definida de que lado se está nesta luta e que seja fortalecido a cada momento a solidariedade das classes trabalhadoras. Cabe lembrar, no entanto, que mesmo as pessoas que não pertençam às classes trabalhadoras podem fazer uma opção de classe, e se juntar a nós que buscamos uma sociedade mais justa e igualitária para todos.
A consciência e a afirmação de classe é uma condição necessária para que um dia não existam mais classes e nos vejamos apenas como parte de uma mesma humanidade.

Horizontalidade, Delegação e Democracia Direta

Para que haja a participação de um maior número de pessoas nas discussões e decisões, acreditamos que a melhor forma de se organizar é através da democracia direta, da horizontalidade e da delegação.
Ao contrário da democracia representativa burguesa, em que geralmente o máximo da participação popular é o ato de votar nas eleições, a democracia direta pressupõe que as decisões sejam tiradas de um coletivo formado pelo próprio povo, que discute, apresenta propostas e depois decide a melhor solução.
Sabemos, entretanto, que a democracia direta funciona somente em pequena escala, já que é impossível reunir uma multidão e garantir que todos tenham direito a voz e participação efetiva. Então o que se faz? Cada local se reúne e discute suas propostas e tira uma pessoa para levar estas propostas numa reunião, esta pessoa será um delegado. As propostas que os delegados representam são as do coletivo e não as suas opiniões pessoais. Isso diferencia claramente nosso método da democracia representativa burguesa, vigente na sociedade. Os delegados, se reúnem, discutem e tiram uma posição coletiva. Esse jeito de trabalhar chama-se delegação.
Uma vez que o maior número de pessoas participem das discussões e decisões, fica garantida a horizontalidade que busca que todos tenham o mesmo peso participativo.
Horizontalidade, democracia direta e delegação, juntos tornam viável a organização popular, mesmo em grande escala, ou seja, para cidades grandes, estados e até para um país. Esse método de se organizar nós praticamos e procuramos aplicar nos movimentos sociais onde atuamos.

Poder Popular e Orientações Revolucionárias

A sociedade em que vivemos, a capitalista, é baseada na exploração do trabalho das classes trabalhadoras. A ação organizada das classes trabalhadoras diante dessa exploração gera o que consideramos ser o poder popular, nos movimentos sociais. Diariamente o poder popular convive com o poder da burguesia, que sem dúvida no atual momento retém o poder econômico, político e social, sem falar no poder das leis que em sua maioria foram criadas para privilegiar a classe exploradora.
Sabemos que não se trata de uma tarefa fácil eliminar a exploração da burguesia e seus privilégios de séculos. Porém, acreditamos que somente o fortalecimento do poder popular pode levar a uma ruptura revolucionária, único meio, em nossa concepção, para que a classe trabalhadora possa ter em seu controle a distribuição das riquezas produzidas, da cultura, da educação, enfim, a conquista de uma vida plena e igualitária, que não produza parcela alguma de seres humanos explorados por outro ser humano.
Por isso, nossa orientação leva ao caminho da revolução, do socialismo. Sabemos que o caminho que escolhemos não apresenta soluções rápidas, fáceis, mas se trata de uma construção no dia a dia. Porém nos afastando de ilusões que levam somente a uma reforma do capitalismo. Estamos fortalecendo o poder popular e assim fazendo com que os verdadeiros sujeitos da revolução, nós, o povo, busquemos sempre a saída revolucionária, para construção de um mundo justo.

Como nos organizamos?

Acreditamos que a organização é fundamental para concentrarmos nossas forças e orientarmos nossas ações. Por isso compõem a Resistência Popular diferentes setores dos movimentos sociais. Nos organizamos nos sindicatos, escolas, universidades, locais de trabalho, moradia e movimentos populares.
Na Resistência Popular cada frente de atuação tem dinâmica própria e autonomia quanto à sua organização específica e bandeiras de luta, mas buscamos ter uma orientação comum que reúna as diversas lutas no caminho de um mesmo objetivo existindo o intercâmbio entre as diferentes frentes, o debate sobre as estratégias comuns e a coordenação de ações solidárias entre todos. A revolução social, deve estar presente em vários sujeitos sociais. Não basta estarmos organizados junto aos trabalhadores nos sindicatos, juntos aos estudantes nas escolas e universidades ou apenas nos movimentos populares. Só quando as diferentes lutas se unificarem num mesmo sentido, mesmo se originando de diversos pontos, poderemos visualizar que o nosso caminho está sendo seguido de forma eficaz.

Base de Acordo

1 - Caráter, Princípios e Objetivos

a) A Resistência Popular é um movimento social combativo e autônomo, que agrupa diferentes frentes de luta de militância social pautadas pelos princípios de ação direta, classismo, solidariedade de classe, horizontalidade, democracia direta e protagonismo popular.
b) A Resistência Popular tem como principal fundamento a ação direta das classes trabalhadoras para conquistar as reivindicações pelas quais luta e construir o poder popular, lutando para que os movimentos sociais sejam os protagonistas destas lutas.
d) A Resistência Popular trabalha para impulsionar a construção de um movimento social unificado nacionalmente e com laços solidários internacionais.
e) A Resistência Popular tem como objetivo de longo prazo, contribuir para a edificação do Socialismo (entendido como um processo de socialização integral onde a liberdade é fundamental), através da construção de um processo de avanço do poder popular e ruptura revolucionária.

2 – Composição

2.1 - A Resistência Popular é um movimento social com características próprias, mas que abrange diferentes frentes de militância social que tenham sua prática pautada por princípios e objetivos comuns.
2.2 - Podem compor a Resistência Popular:
a) entidades de base: grêmios estudantis, associações de moradores, sindicatos e/ou seções sindicais;
b) movimentos reivindicativos: movimentos de moradia, de sem-teto, de saúde, de educação, de negros, mulheres, juventude, catadores e recicladores, ecologia social etc.;
c) tendências: estudantis, sindicais etc.
d) núcleos: que atuem dentro de bairros, escolas, espaços de trabalho etc.

3 – Instâncias

3.1 – frentes: é a instância na qual se discute e encaminha as questões específicas de cada frente de atuação social, por exemplo: frente estudantil, frente sindical, frente comunitária etc.
3.2 - instâncias locais: são as reuniões regulares de cada entidade de base, movimento, tendência ou núcleo da Resistência Popular. Nestas instâncias se discutem e encaminham os problemas específicos de cada frente de militância social e se repassam os informes gerais do movimento.
3.3 - instâncias gerais: são as instâncias onde se fazem presentes todas as instâncias locais da Resistência Popular para discutir e decidir sobre os assuntos que dizem respeito ao conjunto da Resistência Popular, através das quais se coordena coletivamente as atuações locais do movimento. As instâncias gerais podem assumir várias formas orgânicas a depender das necessidades da conjuntura e do crescimento do movimento, sendo definidas através de outro documento.

4 - Método Decisório

O método decisório da Resistência Popular, é fiel ao princípio da democracia direta garantindo a unidade na ação. Todas as decisões serão tomadas por consenso, nos casos onde isso não ocorrer realiza-se votação por maioria. A posição da minoria deve ser registrada para avaliação posterior.

5 – Bandeira e Simbologia

A bandeira tem formato retangular, dividida ao meio na horizontal, com as cores vermelha em cima e negra embaixo. O nome Resistência Popular será escrito na parte superior da bandeira e o nome específico da frente ou instância de base na parte inferior da bandeira, ambos em letras brancas e em forma de arco, cujo centro está ocupado por um punho fechado que é o símbolo do movimento, apenas no caso da bandeira geral do movimento as letras não precisam ser em arco com Resistência sendo escrito na parte de cima da bandeira e Popular na parte de Baixo.



A RESISTÊNCIA POPULAR – SP foi fundada em 24 de janeiro de 1999, na cidade de Guarulhos, São Paulo. Esta Carta de Princípios e Base de Acordo foi atualizada na Plenária da RESISTÊNCIA POPULAR – SP em 28 de agosto de 2005, na cidade de São Paulo.


Quem Somos ?



O que é Resistência Popular?

A Resistência Popular é a coordenação solidária que agrupa diversas expressões do movimento social pautadas pelo caráter combativo e autônomo, pelos princípios da ação direta, classismo, solidariedade de classe, horizontalidade, democracia direta e protagonismo popular.A Resistência Popular tem a intenção de impulsionar a construção de um movimento social unificado nacionalmente, com laços solidários internacionais que a longo prazo contribua para a edificação do socialismo , através da construção de um processo de avanço do poder popular e ruptura revolucionária. Por isso mesmo, mantemos relações solidárias com a Resistência Popular de vários estados do Brasil e com movimentos sociais latino-americanos de caráter autônomo e combativo. Fundada em janeiro de 1999 na Grande São Paulo, a RP-SP segue na luta desde então, passando por várias etapas, sempre procurando estar presente nas várias expressões de luta de nossa classe e mantendo a coerência com os nossos propósitos.

O que é a JULI-RP?

A Juventude Libertária da Resistência Popular (JULI-RP) surge da necessidade de organização de militantes que participavam de diferentes grupos que compunham a RP, cujas formas de atuação e projetos eram semelhantes dentro do Movimento Estudantil. Sua construção vem sendo consolidada a cada dia, com a proposta de uma forma de organização dos estudantes autônoma, independente de grupos políticos organizados, tendo sua luta pautada sempre pelos princípios que norteiam toda a Resistência Popular.Para nós, o Movimento Estudantil só tem sentido se for entendido como um movimento social, também capaz de ser transformador da realidade. Acreditamos que a luta dos estudantes não deve ser isolada, mas unida a outras lutas, pois uma real mudança na educação só pode vir acompanhada de uma mudança em toda a sociedade. Propomos que os estudantes estejam organizados horizontalmente, se opondo à atual forma de organização do movimento estudantil, caracterizada pelo aparelhismo partidário e pela burocracia, que lhes usurpam o direito de participação direta nas discussões e lutas que envolvem a todos.
A Nossa concepção de Movimento Estudantil
Atuamos no Movimento Estudantil por acreditar em sua capacidade de potencialização das reivindicações da classe oprimida, através da difusão do conhecimento adquirido por meio da educação formal e da utilização das técnicas apreendidas na instituição de ensino, canalizando esse conhecimento para a luta. Acreditamos também, ser a militância um meio de formação de indivíduos críticos da realidade em que estão inseridos, podendo-se pensar nessa aproximação dos estudantes com as lutas pela emancipação popular como um processo contínuo de contestação da concepção de educação, de sua finalidade e de seu papel na sociedade.Nesse sentido, a partir de nossa concepção de movimento estudantil, extraímos o que de fato nos leva a atuar nessa frente: a busca pela consolidação de uma nova prática, que nos permita ir além dos muros que cercam grupos que atuam em diferentes frentes isoladamente, fazendo com que se articulem em torno de causas conjuntas. Por isso afirmamos que somos um movimento social.A idéia de que o movimento estudantil deve se pautar na luta de nosso povo é que nos faz acreditar que organizados podemos agir diretamente, em relação a tudo o que nos diz respeito, sem a mediação de "representantes", tendo como requisito fundamental a consciência de classe, em defesa de nossa classe explorada e uma orientação revolucionária, que nos permita fazer parte da construção de um poder do povo, de um poder popular.
O momento em que vivemos
Vivemos em um mundo em que vemos, por um lado novas tecnologias, novas formas de entretenimento, segurança e a renovação de ilusões (em proveito da classe dominante); por outro lado, a acentuação da miséria, dos conflitos e guerras, surgimento de novas formas de exploração, dominação, violência e de novas formas de luta da classe explorada. No Brasil isto ficou bem claro com as mudanças ocorridas nos anos noventa, época do dito período “democrático”, com o aumento da pobreza e dos conflitos sociais (movimentos por terra, moradia, transporte, etc.); nos últimos governos, principalmente o de Lula e do PT que para muitos era uma esperança e acabou por atacar os direitos dos trabalhadores com as Reformas Sindical e Trabalhista, e iniciar a destruição da Universidade Pública ("desvio de verba" para Universidades Particulares, garantindo um ensino precário, entre outras coisas). Todas essas medidas estão sendo geradas por um processo de globalização (executado por uma classe dominante) que atingem o mundo inteiro e é responsável também por guerras e conflitos, como no Haiti e no Iraque.
Os estudantes, sejam eles secundaristas ou universitários, se deparam no Brasil com a destruição do ensino público: falta de investimento, não atendimento de demandas básicas como professores e infra-estrutura, e péssimas formas de administração. Nesse sentido a Reforma Universitária vem para formalizar a mercantilização do ensino superior, deixando o tripé ensino-pesquisa-extensão entregue às leis de mercado e determinando uma disputa das universidades públicas com as universidades privadas pelos recursos estatais. Além disso, essa reforma possibilita a quebra da autonomia político-administrativa e acadêmica do ensino superior público, o que já pode ser visto em andamento nas parcerias público-privadas estabelecidas desde os anos 90 no Brasil. Em oposição à forma vigente de universidade (excludente às classes populares, hierarquizado, burocratizado e voltado para o mercado), o mesmo que a reforma universitária busca acentuar, propomos a construção de um outro modelo: a Universidade Popular.A luta contra a Reforma Universitária e a mobilização pelo Passe-Livre em várias cidades do país (uma reivindicação da juventude e dos trabalhadores desempregados, que visa a democratização do acesso à educação, à cultura, ao trabalho e ao lazer) iniciaram um novo processo de mobilização estudantil no ano de 2004. Diante desta situação, as respectivas burocracias das entidades representativas de universitários (UNE) e secundaristas (UBES) se encontram claramente desvinculadas das lutas travadas pelas bases estudantis, tomando posições abertamente conservadoras junto ao governo federal e constituindo um verdadeiro entrave ao movimento. Por esses motivos, tais entidades devem ser combatidas. Uma alternativa de luta
Para combater essa dominação burocrática e buscar uma alternativa democrática e popular no atual momento em que vivemos, a classe explorada deve se organizar de forma a assumir o curso dos eventos, determinando a sua direção e reforçando a sua autonomia. É daí que surge a necessidade dos movimentos sociais combativos e independentes como a Resistência Popular.

PRINCÍPIOS DA FEDERAÇÃO ANARQUISTA GAÚCHA


DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS APROVADA NO 3º CONGRESSO DA FAG
Outubro de 2000



APRESENTAÇÃO

A Federação Anarquista Gaúcha (FAG) foi fundada em 18 de novembro de 1995. É fruto de mais de uma década de militância libertária, na qual após o ressurgir do anarquismo no Brasil em meados de 1985, foram tentados diversos caminhos de atuação até um grupo de militantes optar pelo anarquismo especifista, isto é, por constituir uma organização política especificamente anarquista.
Este é um projeto também de construção de uma organização anarquista brasileira, onde outras federações e núcleos anarquistas coordenados projetem e apontem para isso. Este projeto se traduz na Coordenação Nacional do Anarquismo Especifista, que pretendemos impulsionar.
Em nível continental temos a intenção de construir uma Coordenação Anarquista Latino-Americana (CALA), com o objetivo de uma intervenção conjunta na realidade do Continente. Este projeto político ampliado (brasileiro/latino-americano) é a única via e garantia que pode nos permitir lutar por um processo revolucionário de longo prazo.

O PENSAMENTO POLÍTICO-IDEOLÓGICO DA ORGANIZAÇÃO

Esta Declaração de Princípios é uma síntese do pensamento e método de trabalho da força política organizada dos anarquistas gaúchos. Representa um esforço de atualização da ideologia anarquista às condições históricas concretas da luta das classes oprimidas e da sua vinculação com a identidade rebelde do povo gaúcho e dos povos brasileiros e latino-americanos.
Sabemos que a realização desses propósitos não é tarefa simples, requer sobretudo uma atividade crítica e reflexiva em torno das bases do pensamento e teoria anarquista visando sua inserção no processo de mudanças políticas e sócio-econômicas que se pretende para a América Latina. Há uma batalha que se trava cotidianamente, uma resistência física e cultural de bravos anônimos batizados de povo que se opõe à crueldade sistemática do capitalismo junto a qual queremos nos somar, como anarquistas mas também como povo que somos.
Para isso, procuramos instrumentalizar aqueles princípios libertários de maneira que possamos obter capacidade política para intervir e participar das distintas situações históricas que envolvem o movimento popular. Essa busca de laços orgânicos com o povo em luta é concretizada com uma dedicada militância de base e trabalho teórico sobre a realidade que orienta nossa intervenção anarquista. É também manifestação de uma dinâmica em que a ação política libertária se corresponde com o nível de consciência das classes oprimidas.
O atual modelo de dominação das elites já dá mostras de seu esgotamento ao encontrar cada vez mais resistência por parte dos oprimidos desse sistema. Com maior ou menor sentido de mudança se processam lutas reivindicativas da classe trabalhadora, expressões organizadas dos desempregados, o avanço da luta no campo, movimentos específicos que reúnem índios, negros, mulheres e temáticas da luta popular. Está em jogo novamente um horizonte, um caminho que aponte para libertação que está apenas no começo. Queremos estar junto nessa caminhada de uma forma cada vez mais profunda. Esperamos que essa Declaração de Princípios seja uma colaboração efetiva para a construção de um caminho de movimentos, lutas, avanços, conquistas e vitórias populares.
Vamos a ela, porque temos muito, muito para construir.
Não tá morto que peleia!
Viva a Anarquia!

FAG E A COORDENAÇÃO NACIONAL DO ANARQUISMO ESPECIFISTA

Para nós, a luta a nível nacional, num processo de construção que atinja - ou ao menos se esforce ao máximo para atingir - todo o país, é nossa única chance num largo prazo. Como anarquistas, somos partidários da organização política federativa. Entendemos que a melhor forma de construir uma Organização Anarquista para todo o Brasil, é através da construção e coordenação simultânea de organizações federativas a nível estadual-regional (como é o caso da FAG).
Não existe um Brasil, mas sim vários brasis que se encontram e muitas vezes se chocam. Vivemos em um país rico com seu povo condenado à fome, miséria e desespero. Reconhecemos e reivindicamos as diversidades locais e regionais mas estamos totalmente contra qualquer forma de separatismo.
Buscamos realizar uma luta popular e libertária que coordene as características regionais com os aspectos nacionais da classe oprimida brasileira. Assim, vemos como possível a construção de uma Organização política anarquista de intenção revolucionária atuando em todo o Brasil.
Sabemos que não é e nem será fácil. Estamos de acordo com o que dizia a parcela mais lúcida das organizações guerrilheiras dos anos 60: “no Brasil não existe fórmula pronta nem receita de bolo para fazer a revolução. Aqui tudo é muito complexo, a revolução brasileira tem de ser inventada!”
Alguns dos possíveis caminhos para esta “invenção” acreditamos que já podem ser indicados, pois são fruto do aprendizado histórico e das experiências concretas realizadas por nossa classe e povo durante 500 anos de luta. O papel das organizações políticas de intenção revolucionária é aprender e implementar estes caminhos. Esta luta tem como conseqüência abrir caminho em um longo prazo para um processo de revolução social brasileira.

A FAG E A COORDENAÇÃO ANARQUISTA LATINO-AMERICANA

Atuar de forma integrada na América Latina é proposta e intenção antiga por parte dos anarquistas. Desde o final do século XIX até os dias de hoje, nossa militância vem buscando formas de enfrentar o inimigo no Continente.
No nosso caso, a tarefa é dobrada, pois temos a missão de combater o inimigo de classe por dentro de sua potência regional sub-imperialista (o estado-nacional do Brasil). Desde os tempos da colônia passando pelo império e agora república, o papel das classes dominantes brasileiras em nível continental sempre foi o de contenção e ação contra-revolucionária. O último exemplo deste papel é o Brasil como motor de integração das economias capitalistas latino-americanas. Devido a dimensão de continente (não é exagero conceber este território como a América Brasileira), aqui operam outros impérios além do império norte-americano. Esta soma de estado-empresa-império fez do capitalismo brasileiro, promovido pela ditadura militar, recordista em crescimento econômico e desigualdades sociais.
Em nível continental, reproduziram-se diversas variantes deste modelo de crescimento, de equilíbrio na balança comercial, da função do estado como gerador de subsídios e infra-estrutura para o capital privado, da entrada de multinacionais de peso, do fator militar como garantia das mudanças dos rumos do sistema.
Agora é a vez do capitalismo neoliberal, flexibilização do trabalho regular, reajuste do sistema, contenção dos gastos públicos (incluindo os gastos sociais), aumento da competitividade, mais e mais vantagens oferecidas para o capital, menos e menos direitos para os trabalhadores e marginalizados.
Nesta etapa de desenvolvimento do sistema se faz necessária uma resposta adequada em todos os níveis da luta popular e ideológica, tentando com isso criar condições para uma resistência em larga escala, que pode vir a gerar um processo e uma situação revolucionária.
Outra função da Coordenação é tentar dar resposta ao inimigo também de forma integral. Isto faz de nossa luta libertária também luta anti-imperialista e solidária com os movimentos revolucionários latino-americanos. Combater o imperialismo norte-americano (atual polícia do mundo) e os outros imperialismos neste Continente, que o inimigo pensa ser seu quintal, é tarefa de todos os revolucionários. Queremos apoiar mutuamente as lutas populares latino-americanas através de nossas organizações coordenadas, participar nos processos revolucionários deste Continente, para termos a chance de conquistarmos nossa libertação como classe e povos irmanados.

A ORGANIZAÇÃO E A IDEOLOGIA

Anarquismo - Federalista e Internacionalista


O anarquismo é uma ideologia, matriz de pensamento e teoria revolucionária cuja razão de existir é a luta por uma profunda transformação da sociedade. Esta transformação social, resultante de um processo prolongado de luta de classes deve adquirir, segundo a nossa visão, o caráter prático de uma revolução socialista e libertária, com seu programa de propriedade coletiva dos meios de produção, de socialização completa dos bens, serviços, administração da justiça, organismos de defesa e da descentralização do poder político nas organizações de base dos trabalhadores e do povo. Acreditamos ser a luta revolucionária um processo de longo prazo, onde se atua em diferentes níveis de ação e situações históricas específicas que conformam sua maneira de organizar e expressar o conflito social no dia a dia.
Porém não podemos afirmar que essa é uma definição que encerra o conceito e a instrumentalização do anarquismo. Esse conjunto de idéias e aspirações de uma sociedade sem classes e sem estado, orientado por uma ética solidária baseada na liberdade e na justiça social tem expressões político-ideológicas (na qual nos incluímos), mas há outras mais. Há quem reivindique o anarquismo como uma filosofia de vida, estilo de comportamento, corrente do pensamento humano, práticas alternativas para o cotidiano, inspiração e formas artísticas e até mesmo uma visão da espiritualidade. Tudo isso também é anarquismo, com a devida noção de pluralidade que isto implica, pertencendo ao que se costuma chamar de Movimento Anarquista (MA), e numa forma mais ampla, Campo Libertário. Sendo que, o referido “movimento” embora chamado convencionalmente assim, na prática não age dessa forma, pois dentro deste amplo entendimento de anarquismo muitas vezes se toma caminhos diversos e até mesmo opostos.
A FAG não nega estes tipos de anarquismo. Reconhecemos as mais variadas formas de anarquismo, mas nos assumimos dentro da corrente organicista-especifista da ideologia. Resgatamos nossa história e reafirmamos nossos objetivos e razão mesma de existência, que é ser parte da construção de um caminho revolucionário para libertar nossa classe e povo.
Vendo o anarquismo a partir do ponto de vista militante, temos então um instrumento de luta revolucionária. Este instrumento tem uma rica história, da qual somos fruto e parte dela.
Podemos afirmar que nossa ideologia se vê fortalecida mundialmente a partir da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864, a qual atuava basicamente nos países europeus.
Foi no seio da 1ª Internacional onde se identificaram duas correntes distintas, cada uma lutando à sua maneira pela emancipação da classe trabalhadora e o socialismo. Uma era a corrente autoritária-estatista (encabeçada por Marx e Engels), que pregava, entre outras coisas, a formação de partidos políticos da classe operária e, posteriormente, a tomada do poder do estado por estes partidos. A outra corrente é a ala federalista da 1ª Internacional, cujos objetivos são a emancipação da classe trabalhadora por via da ação direta revolucionária e a construção de um tipo de sociedade baseada na auto-organização dos trabalhadores na cidade e no campo. Isso, a partir da destruição do estado-nacional burguês e de sua classe dominante. A vitória da classe oprimida vem com a Revolução Social, se concretizando na autogestão da sociedade e na formação de um Poder Popular (não-estatal).
As mais distintas correntes socialistas sempre tiveram sérias polêmicas e divergências conosco. Experiências históricas provaram o que nossos companheiros já diziam na metade do século XIX. Em suas polêmicas com Marx, Bakunin já alertava: “Os marxistas pretendem que somente a ditadura, evidentemente a sua, pode criar a liberdade do povo; a isso respondemos que nenhuma ditadura pode criar a liberdade do povo; a isso respondemos que nenhuma ditadura pode ter outra finalidade senão a de durar o máximo possível, que é apenas capaz de gerar a escravidão no povo e de educá-lo nesta escravidão; a liberdade só pode ser criada pela liberdade, isto é, pelo levante do povo inteiro e pela livre organização das massas trabalhadoras de baixo para cima.” E ainda na crítica à concepção estatista: “(...) conforme a teoria do Sr. Marx o povo não apenas deve destruir o Estado, como, ao contrário, deve consolidá-lo, torná-lo ainda mais forte e, sob esta forma, colocá-lo à disposição de seus benf
eitores, de seus tutores e de seus educadores, os chefes do partido comunista, em suma à disposição do Sr. Marx e de seus amigos, que começarão a libertá-lo à sua moda. Tomarão nas mãos as rédeas do governo, porque o povo, ignorante, necessita de uma boa tutela; criarão um banco de Estado único que concentrará em suas mãos a totalidade do comércio, da indústria, da agricultura e até da produção científica, enquanto a massa do povo será dividida em dois exércitos: o exército industrial e o exército agrícola, sob o comando direto dos engenheiros do Estado, que formarão uma nova casta sábio-política privilegiada.”
O desenrolar dos regimes de capitalismo de estado (também chamados de “socialismo real”) é a mais séria prova que não pode haver socialismo sem liberdade e que onde houver um estado haverá uma sociedade dividida em classes. É também prova de que nenhuma classe dominante se auto-destrói, e por isso temos que destrui-la, e nenhum estado pode ser uma etapa para chegar ao socialismo. Os estados são reprodutores de diversos privilégios e funcionam com uma lógica de coação, servindo ainda como uma forma de frear e iludir os trabalhadores e oprimidos para não alcançarem seus objetivos caminhando com as próprias pernas.
Por lutar rumo a uma outra forma de vida em sociedade, o anarquismo se define como federalista e internacionalista.
Historicamente o anarquismo se opõe ao capitalismo e ao estado, que é seu organizador político por excelência. Propõe o federalismo como estrutura contestadora da lógica centralizadora e como ferramenta necessária para a articulação das liberdades políticas sem prejuízos autoritários. O federalismo está pensado como uma forma político-econômico-social para organizar todo o funcionamento da sociedade humana. Também como uma forma de funcionamento de organizações políticas, movimentos populares, entidades de base e todo o processo de ruptura e de reconstrução rumo ao socialismo. Lutamos para criar estruturas federativas revolucionárias capazes de derrotar e substituir o sistema capitalista e seu modo de produção e dominação.
Por entender que a luta contra os opressores e seu sistema capitalista ultrapassa as fronteiras (criadas pelo inimigo de classe comum a todos os oprimidos), o anarquismo entende a luta de classes como internacional, respeitando as características, identidades e processos de cada povo e região.
Estas linhas básicas foram formuladas nos embates, discussões, e também na ação direta, durante a 1ª Internacional. Logo ganham certa força nos países mais pobres da Europa, alcançando depois diversas outras partes do mundo, como em nossa América Latina.
De todo este processo foi gerada uma ideologia revolucionária capaz de aglutinar diversos povos em luta, um conjunto de idéias e ações protagonista de episódios da história quando os trabalhadores e oprimidos tomaram suas vidas e destinos nas próprias mãos.
Podemos dar como exemplos mais fortes disto dois episódios:

A Revolução Russa (1917-1921)

Um longo processo de luta levou a um momento de crise e ruptura da Rússia czarista. Como forma de luta de classes os soviets (conselhos de operários, camponeses e soldados) criaram uma estrutura de Poder Popular (o lema “Todo poder aos soviets!” era, de fato, um lema libertarizante) que foi depois manipulada e dominada pelo partido bolchevique. Apesar disso, a estrutura original dos soviets se manteve e se desenvolveu em algumas regiões. Foi o que aconteceu na Ucrânia, quando nossos companheiros organizaram o Exército Insurrecional dos Camponeses da Ucrânia. No meio de uma guerra revolucionária contra o exército branco e depois obrigados a combater contra o exército vermelho, o povo em armas autogestionou uma economia com milhares de camponeses e operários. Outro importante momento em que os conselhos populares (soviets) protagonizaram a luta dos trabalhadores russos foi na Revolta do Kronstadt. Os marinheiros de Kronstadt, identificados com os mais profundos interesses da cl
asse trabalhadora, entraram em conflito com o estado bolchevique. Resistiram até o último combatente contra a repressão do exército vermelho, já então integrado por ex-oficiais, mercenários e cossacos do czar (imperador), todos dirigidos pelo partido bolchevique.
Anos depois, Nestor Mackhno, Piotr Archinov e outros combatentes anarquistas da Revolução Russa elaboraram um importante documento denominado “Plataforma”, que fazia uma avaliação da atuação dos anarquistas neste processo. Neste documento eles avaliam que um dos fatores que impediu que os anarquistas tivessem uma ação mais incisiva para combater os desvios autoritários tomados posteriormente foi justamente a inexistência de uma organização política anarquista na Rússia, que propusesse um outro projeto para os rumos da revolução que não os traçados pelos bolcheviques. Este documento é uma das mais importantes fontes do anarquismo especifista, que também ficou conhecido como anarquismo plataformista.

A Revolução Espanhola (1936-1939)

Após uma trajetória de quase três décadas de lutas operárias ininterruptas, atuando sempre com uma metodologia de ação direta, de forma clandestina ou pública, a Confederação Nacional do Trabalho/Federação Anarquista Ibérica (CNT/FAI) levantou-se em armas contra o fascismo. Simultaneamente, fez a guerra contra o franquismo apoiado pelas potências do eixo nazi-fascista e também foi processando a revolução social. Em muitas zonas, o processo revolucionário espanhol gerou a mais impressionante coletivização e autogestão de campos e fábricas da história da humanidade. As milícias libertárias (operárias-camponesas-juvenis-internacionais) combatiam por uma economia e sociedade controlada e gerida pelos próprios trabalhadores, do campo e da cidade, através de seus sindicatos e entidades de base. Também se provou, outra vez mais, que é possível fazer a luta armada sem militarizar, produzir sem patrão nem hierarquia e funcionar a sociedade sem estado - tudo isso sendo efetivado com
maior planejamento e eficiência. Devido à supremacia bélica dos fascistas, a não-intervenção das democracias capitalistas ocidentais, a traição dos comunistas e também por nossas insuficiências, entre elas a falta de uma definição adequada do poder no projeto político libertário, os trabalhadores espanhóis e do mundo inteiro foram derrotados na revolução mais avançada de sua história.
O anarquismo mundialmente perdeu força após sua derrota na Espanha. Recobrou um pouco de sua versatilidade, tendo um novo discurso, com os ventos do maio de 1968 (embora ainda longe da força e do classismo libertário). Na desilusão com o dito “socialismo real”(capitalismo de estado) e a partir de metade da década de 1980, o anarquismo ressurge em algumas lutas socialistas e populares. A queda do muro de Berlim e do bloco soviético reforça nossos argumentos de que não existe socialismo sem liberdade.
É verdade também que ainda estamos bem longe da inserção que tínhamos até as três primeiras décadas do século XX. Nesses tempos, nossos companheiros protagonizaram as lutas do proletariado em muitas partes do mundo. Mas em distintos países o anarquismo, mesmo que de forma tímida em muitos lugares, busca constantemente ocupar de volta sua função de ser uma opção real e viável, como método e caminho para a libertação popular.

TRAJETÓRIA DE UM POVO EM LUTA

A Ideologia na América Latina


A ideologia anarquista, por ser uma ferramenta de trabalho e construção revolucionária, pertence ao povo em luta. Vem daí nossa melhor história e tradição, tanto no Rio Grande do Sul, como no Brasil e na América Latina.
O anarquismo nesse pedaço do mundo tem uma longa e forte trajetória. Em todos os países latino-americanos, a imensa maioria dos sindicatos - as primeiras organizações dos trabalhadores - foram formados com o suor e o sangue de nossos companheiros. Este sangue e suor dos operários que tombaram nos dois massacres de Santa Maria de Iquique (Chile), no massacre da Patagônia Rebelde (Argentina), e de inúmeras lutas e esperanças em cada canto de nosso Continente é para nós sagrado.
Houve movimentos de massas trabalhadoras, protagonizados por militantes anarquistas, na maioria dos países latino-americanos. As grandes conquistas de nossa classe, em especial da classe operária, foram fruto do esforço e dedicação de nossos companheiros e companheiras que muitas vezes entregaram suas vidas pela classe e ideologia de que somos parte.
Na Revolução Mexicana (1910-1917), a luta camponesa com orientação libertária transformou-se em guerra revolucionária. Por “Terra e Liberdade” os indígenas, mestiços, camponeses, operários e todos os oprimidos mexicanos lutaram até as últimas conseqüências. Se levantaram em armas contra uma elite que lhes oprimia e oprime desde 1500 até hoje. Em todo esse processo revolucionário, uma organização anarquista foi um de seus fermentos na ideologia e na ação. O Partido Liberal Mexicano –que inicialmente tinha uma orientação liberal-radical, depois se torna anarquista mas manteve o nome anterior - e seus militantes atuaram por mais de duas décadas, antes e durante a luta revolucionária, pela conquista das terras coletivizadas, pela libertação indígena, camponesa e operária e para formar um Poder Popular para derrotar o estado e a classe dominante. São esses mesmos gritos, essa mesma ação direta que hoje vemos no México em diferentes expressões.
Ricardo e Henrique Flores Magón, Práxedes Guerrero e milhares de outros companheiros e companheiras anarquistas se dedicaram de corpo e alma pela mais justa das causas. Estas sementes, mesmo depois de mais de 70 anos de revolução traída, continuam e sempre continuarão dando frutos.
Outro exemplo de anarquismo e povo em luta vem do vizinho Uruguai, a antiga Banda Oriental. Do povo hermano que vive um pouco mais ao Sul, vem uma tradição de luta libertária ininterrupta desde 1870. Sua expressão mais forte foi nos anos 60 e 70, quando a Federação Anarquista Uruguaia (FAU, fundada em 1956 e hoje nossa co-irmã) enfrentou o estado, a oligarquia e o imperialismo. Colocada na clandestinidade em dezembro de 1967, a FAU através de seu braço de massas (a Resistência Operário Estudantil - ROE) e de seu braço armado (a Organização Popular Revolucionária 33 orientais - OPR-33) promoveu a luta de classes e a ação direta em todos os níveis. Inúmeras passeatas estudantis, ocupações de fábricas (1/3 do movimento operário era de influência libertária), levantes e apoios nos bairros proletários. Na resposta ao golpe militar no Uruguai (junho de 1973), a maior greve geral da história desse país, com ocupações em todas as fábricas por mais de 15 dias.
Durante toda sua luta revolucionária a guerrilha urbana anarquista agia para aprofundar o processo global de transformação e para apoiar o movimento operário e popular (onde estavam profundamente inseridos) com ações como: expropriações bancárias, sabotagens, propaganda armada e seqüestros de patrões e outros inimigos de classe.
Depois do golpe no Uruguai, por três anos a FAU resistiu aos militares, operando desde a Argentina. Até que o golpe militar também naquele país (maio de 1976), e o posterior assassinato de dezenas dos militantes anarquistas mais experientes, impediu esta Organização de atuar organicamente por quase uma década. Mas ela se reproduziu em gente nova que foi assumindo a luta contra a ditadura uruguaia (1973-1985) a partir de 1980. Com os militantes que saem da prisão, que voltam do exílio e aqueles/as jovens que assumiram a luta libertária nos últimos anos da ditadura, a FAU se recontrói em 1985. Hoje é parte viva e ativa das lutas populares uruguaias e do anarquismo no Continente.
Os dois referentes mais importantes de organizações especifistas-anarquistas-revolucionárias na América Latina estão nas organizações acima mencionadas: o Partido Liberal Mexicano (PLM) e a Federação Anarquista Uruguaia (FAU).
A influência anarquista na América Latina também gerou uma identidade de combate. Desde o século XIX é identificada a resistência popular com as cores negra e vermelha. Devido a essas influências, as guerrilhas latino-americanas e outros movimentos políticos e populares seguem utilizando nossas cores até os dias de hoje.
No Brasil, o anarquismo chegou na metade do século XIX (sua primeira aparição histórica foi durante a Revolução Praieira, 1848, em Pernambuco; através da corrente mutualista). Junto com os operários imigrantes, a partir da década de 1890, ganhou força real, atuando com sentido classista e revolucionário. Até 1930 fomos hegemônicos no movimento dos trabalhadores urbanos. De 1930 a 1937, disputamos palmo a palmo contra o bloco amarelo-comunista-trabalhista o protagonismo das lutas operárias e urbanas.
A classe trabalhadora brasileira conseguiu suas conquistas históricas lutando com a bandeira e a ética libertária. As mesmas conquistas que hoje tentam nos tirar (as 8 horas de trabalho, o respeito aos direitos do trabalhador, o salário mínimo e a cesta básica, etc.) vieram do suor e do sangue dos trabalhadores em inúmeras lutas, nas greves gerais de 1917, na tentativa de insurreição no Rio de Janeiro em 1918, nos enfrentamentos contra a patronal e a repressão, na luta e organização das Federações Operárias estaduais e da Confederação Operária Brasileira (COB, com seus congressos em 1906, 1913 e 1920). Toda uma cultura operária e anarquista era combustível moral e militante para a luta de classes libertária, de forma que além da atuação sindical se constituíram escolas libertárias, centros de cultura, teatro social, coletivos feministas e inúmeros jornais operários.
Entre as medidas repressivas que incidiam frontalmente contra as atividades militantes dos anarquistas se inclui a criação de uma colônia penal na Clevelândia (Oiapoque), em plena floresta amazônica, entre os anos de 1924-27. Para lá eram mandados acusados de crimes comuns, meninos de rua e presos políticos, em sua maioria anarquistas. Lá, em condições precárias, os prisioneiros que não lograssem fugir logo morriam vítimas da malária. Entre os mártires da Clevelândia se encontram militantes do movimento operário gaúcho, como Nino Martins.
Assassinatos, deportações, torturas e desaparições já eram práticas comuns do governo em relação aos militantes de esquerda.
O anarquismo a partir do golpe do Estado Novo (1937), quando foram fechados os sindicatos livres e toda a ideologia condenada a clandestinidade, sofreu a maior derrota de sua história no Brasil. É verdade também que algumas limitações, tais como falta de uma análise da conjuntura que se desenhava, nos impediram de buscar uma forma de organização para militarmos nas condições adversas que o inimigo nos impôs. Depois, de 1945 até o golpe militar de 1964 o anarquismo perde sua força de outrora mas ainda assim mantêm militância em alguns sindicatos e desenvolve trabalho cultural e de propaganda. A partir de 1985 veio o ressurgimento em maior escala de nossa ideologia. Após mais de uma década de diversas tentativas, uma parte dos anarquistas (a qual nos incluímos) tenta abrir o caminho libertário junto das lutas de nossa classe e povo.

História das Lutas do Povo Gaúcho

No Rio Grande do Sul, como em todas as partes da América Latina, entendemos nossa ideologia como parte dos 500 anos de resistência.
A história das lutas populares neste pedaço do Brasil começa com as lanças charruas, minuanas e de tantos outros povos indígenas, erguidas contra os conquistadores portugueses e castelhanos. Sentimos na própria veia tamanho sangue derramado pela ganância dos impérios mercantilistas. Mas também sentimos na alma a dignidade dos primeiros povos gaúchos, que domesticaram o cavalo trazido pelo invasor e sobre ele montados pelearam até o último combatente.
Quando Portugal e Espanha entraram em acordo sobre a possessão destas terras, seus filhos se levantaram em armas outra vez. Livrando-se da tutela colonialista, as Missões Guaranis enfrentaram as potências da época. Uma guerra de libertação foi travada, e o povo trabalhador guarani - que vivia de cultivar a terra e de manufaturas -, largou da enxada, arado, martelo, entalhadeiras e forno de barro e ergueu a lança missioneira contra o invasor. Sepé Tiaraju, Nicolau Languiru e milhares de outros anônimos combatentes escreveram a história com o sangue e a alma dos filhos da terra em luta.
O Continente de Rio Grande de São Pedro foi colonizado como fronteira viva, por latifundiários-militares, peões-soldados e trabalhadores escravos. A rebeldia dos descendentes de charruas, guaranis das missões e mestiços gerou a cultura gaudéria numa terra antes sem cerca nem fronteira. É esta mesma cultura e espírito de liberdade que reivindicamos, que cultivamos como semente da luta popular cotidiana das pessoas simples que não abaixam a cabeça para os poderosos.
As guerras da colônia, depois província do Império, contra o território hermano da Banda Oriental (Uruguai) e contra as províncias argentinas vizinhas, levou a um povo da mesma cultura (apenas sotaque diferente) a guerrear entre si por interesses de latifundiários, impérios, comerciantes, ditadores e caudilhos.
Também uma série de conflitos entre os partidos das oligarquias gaúchas cansou de atirar povo contra povo quando havia necessidade. Pela “cor de um lenço”, mas não pelas terras para serem compartidas, a gauchada se matou a mando dos fazendeiros até o princípio da década de 1930.
Os trabalhadores negros escravizados nas charqueadas, olarias e estâncias conquistaram sua liberdade campo afora, ou em armas (mesmo quando enganados), nas mais diversas ocasiões (como durante a Guerra dos Farrapos). É esta mesma liberdade que tem de ser conquistada todos os dias. De forma consciente ou espontânea, por instinto de sobrevivência e dignidade, o povo negro daqui resiste. A cultura da etnia afro-brasileira, todos os dias é marginalizada ou manipulada. No cotidiano de milhões de negros e negras, está o enfrentamento e a peleia contra uma elite racista que manda no Rio Grande do Sul.
Os camponeses imigrantes chegaram aqui e foram trabalhar na lavoura ou criaram minifúndios. Ao contrário da maioria dos descendentes de imigrantes, seguem pertencendo a sua classe de origem e seguem sendo trabalhadores rurais. É dessa cultura e luta de classe que tem origem o MST.
Com a chegada de uma leva maior de operários imigrantes, veio junto a ideologia anarquista, e uma capacidade nunca antes vista de organizar os trabalhadores e oprimidos.
Este estado viu crescer uma das maiores lutas do proletariado brasileiro desde 1870, quando os comerciários foram os primeiros a se organizar, até tomar forma, corpo e conteúdo organizado. A primeira vez que se parou num 1º de maio neste estado foi em Porto Alegre, em 1892. Já nessa ocasião, a classe operária se reuniu na Praça da Alfândega, prestando homenagem aos mártires anarquistas e participando do ato promovido por nossos companheiros.
Com a Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS) presente em quase todo o estado, a luta de classes cresce de maneira impressionante. São operários gráficos, pedreiros, marceneiros, carpinteiros, professores, têxteis, garçons, da construção civil, ferroviários, metalúrgicos, condutores, vidreiros, comerciários e diversas outras categorias que se organizam. Os sindicatos são revolucionários e de orientação anarquista. O maior momento foi em 1917, quando uma série de greves radicalizadas levou à greve geral em Porto Alegre. Esta greve, de tão profunda, ganhou o nome de “Guerra dos Braços Cruzados”. A classe organizada ganhou as ruas, ocupou e tomou os meios de produção e expulsou a Brigada Militar na base da dinamite! Durante este conflito, os militantes anarquistas foram a principal influência na Liga de Defesa Popular (LDP), comitê operário que orientou e dinamizou a greve geral vitoriosa.
Sabendo que somos fruto e parte desta história, modestamente, mas com firmeza, queremos ocupar nosso lugar nas lutas dos povos gaúcho, brasileiros e latino-americanos. Fazemos nosso o sangue e a esperança índia, negra, dos gaúchos livres e dos trabalhadores imigrantes. Esperança também que está nos sentimentos da gurizada das vilas, cujo destino é uma incógnita e o futuro é o dia de hoje e quem sabe, o de amanhã.
Parte desta luta já tem um caminho apontado, pois plantando a justiça no chão ocupado e semeado, os Trabalhadores Rurais Sem-Terra provam na prática que a luta é a única saída. Os companheiros e companheiras camponeses que tombaram em diversos enfrentamentos, como em Anoni e em Santa Elmira, não caíram em vão. Da dor de nossa gente que tombou pela mesma causa tiramos a energia e a vontade de superar os problemas e as dificuldades para seguir lutando.
Hoje em dia a responsabilidade de todos os militantes populares é imensa. Vivemos uma época difícil, de pouca esperança em um destino diferente, de enfraquecimento das lutas populares. Como os primeiros militantes anarquistas da época da FORGS, estamos de corpo e alma para sermos uma semente a mais na caminhada, luta e libertação de nossa classe e povo.
Esta é a nossa história. Este é o nosso compromisso.

PRINCÍPIOS PARA A AÇÃO REVOLUCIONÁRIA

Ética & Valores


Compreendemos a luta pelo socialismo como um movimento político-social com fundamento ético, ao contrário de outras correntes socialistas e mesmo de alguns teóricos do anarquismo que tentaram justificar suas idéias e aspirações de uma nova sociedade com o apoio da ciência e da filosofia cientificista predominante em sua época.
Todos os coletivos humanos são regidos por uma série de códigos de valores e normas de conduta, um conjunto de posturas e posições que se costuma chamar de ética. Não existe só uma ética mas várias que se expressam conforme o que se crê melhor em um momento dado e suas circunstâncias.
Um sistema baseado na exploração e dominação, na competitividade entre os semelhantes, com uma força de repressão e controle social a serviço de suas classes dominantes não pode ter outra ética a não ser aquela que conserva e reproduz o seu poder. Difundir o individualismo, o desrespeito à vida humana e ao meio ambiente, acreditar e praticar o “princípio” de que tudo tem seu preço, comprar o que for preciso e matar ou mandar matar quem não quiser se vender: essa é a ética capitalista, e nesse sentido, as elites brasileiras são profundamente “éticas e coerentes”.
Por ser essa a ética do sistema, ela não está representada apenas no comportamento de uma classe social (no caso a que está em posição de dominação) mas difusa em toda sociedade como um eficiente mecanismo de poder. Assim a consciência de classe e as distintas expressões da cultura popular são combatidas e entorpecidas pelo egoísmo e outros valores da cultura de mercado capitalista.
Queremos gerar uma outra ética para as classes oprimidas. A luta pelo socialismo e a liberdade necessitam de um código de valores, conduta, comportamento e vida coletiva profundamente solidários. De pouco adiantam as teorias mecânicas do socialismo que diziam que os trabalhadores que perseguem seus interesses de classe se encaminham ao destino revolucionário quando estamos diante de operários, camponeses sem terra, trabalhadores precarizados e um amplo setor de marginalizados que reclamam pelas mais variadas necessidades. Em meio a um complexo universo de interesses e reivindicações específicas que confluem na luta de classes só a incorporação de valores e aspirações, sentimentos de coletividade e de convivência comum podem desenvolver uma vontade de transformação estrutural da sociedade.
O socialismo tem valores profundamente humanos, ecológicos e solidários. Também tem um senso de justiça social e de dignidade. Por mais difícil que sejam os tempos em que vivemos, com a maior parte do povo identificando suas necessidades com “sonhos de consumo” inventados pelos meios de comunicação, a única garantia de prosseguir lutando é a nossa firmeza na busca de um ética socialista e libertária.
Para nós a luta revolucionária é um processo contínuo, portanto em grande parte afirmamos que “os meios determinam os fins”. Por isso a importância de semearmos ideais de uma sociedade livre e igualitária em cada conquista das lutas populares, forjando a ética e os valores anticapitalistas.

Liberdade Responsável

O conceito e a prática da liberdade é um dos principais pilares do anarquismo. Todo mecanismo social que desata um poder repressivo e/ou inibidor das condições de desenvolvimento do instinto de criatividade das pessoas encontra firme oposição nos anarquistas, mesmo que com razões às vezes bem distintas.
Como advertia Bakunin, a liberdade é uma grande meta que no entanto precisa de uma boa definição para não dar margens a equívocos. A militância histórica do anarquismo, desde seus primórdios na metade do século XIX travou intensa luta teórica e prática por um lado contra as idéias liberais influentes nos movimentos revolucionários de corte nacionalista burguês e contra o totalitarismo embutido nas doutrinas socialistas que rejeitavam a liberdade como conteúdo do seu projeto. Por outro lado, tratou de contestar as concepções fantasiosas que havia no próprio movimento libertário e que se apoiavam no direito abstrato de agir como bem se entende sem o menor sentido de responsabilidade social.
No nosso entender a liberdade deve ser real, deve ser o poder de realização das faculdades humanas em condições que lhe permitem viver e agir sem submeter-se à vontade dos outros. Isso implica na mais completa igualdade em todos os níveis da vida social, ou seja, possibilidades iguais que socializem o acesso às ferramentas de trabalho, às riquezas, à instrução e todas as necessidades vitais do povo. Portanto, acreditamos na “liberdade íntegra e completa para cada um, igual, não somente em direitos, mas também quanto aos meios de sua realização para todos”.(Bakunin)
A nós sempre causou desacordo as receitas de igualitarismo social fabricadas pelas doutrinas que animaram as experiências socialistas que conhecemos. As noções de liberdade como prejuízo burguês, do Estado como instrumento de emancipação dos trabalhadores, de uma máquina partidária uniformizadora e vigilante das opiniões são elementos que não merecem mais do que o rechaço da história. Esse socialismo autoritário foi incapaz de construir uma sociedade mais justa e humana porque privou os trabalhadores da liberdade, da participação direta nos destinos da revolução, retirando assim toda sua potencialidade criativa em nome de uma vontade onipotente que dizia interpretar cientificamente seus interesses.
Para o anarquismo a liberdade está posta como finalidade e também como instrumento de mudanças no presente, mas vale lembrar que a liberdade a que se refere não é aquela oferecida pelo capitalismo, que está simbolizada na democracia liberal, na propriedade privada e na liberalização do mercado. O capitalismo só admite uma liberdade: a de suas classes dominantes. Mas para estas a liberdade é necessariamente individualista e fundada na exploração dos trabalhadores e na dominação política da maioria do povo, mecanismo que em condições de desigualdade social se traduz no privilégio de uns poucos erguido sobre a miséria e a ignorância de muitos.
“A liberdade sem o socialismo é a injustiça, o privilégio; o socialismo sem a liberdade é a escravidão, a brutalidade”, tal é a máxima do pensamento libertário.
Para as teorias do liberalismo, a liberdade individual é sempre ameaçada pela do outro e deve ser protegida assim como uma propriedade particular. Segundo estas teorias, o ser humano nasce livre e cede parte de sua liberdade para viver em sociedade. Uma liberdades se opõe a outra, ganha intensidade com a fraqueza das demais, as identifica como inimigas, concorrentes, “ladras” de sua condição de força. Nada mais falso...
Como anarquistas acreditamos que a sociedade longe de ser um obstáculo confirma a liberdade das pessoas como uma força que anima suas faculdades. Assim, não há ato livre no isolamento, fora das relações sociais, sem apoio na coletividade. A solidariedade, a ajuda mútua e a cooperação são as condições indispensáveis para o exercício da liberdade socialista e é uma falsa polêmica opor indivíduo e sociedade, uma vez que a sua realização individual só ocorre socialmente. A verdadeira oposição que existe está entre os que desejam realizar sua liberdade individual às custas da sociedade - individualismo – e aqueles que pretendem realizá-la em solidariedade com os demais.
Concebemos a liberdade não só como finalidade mas como meio, não só como objetivo da revolução mas como método necessário para sua concretização. Somos anarquistas nos propósitos assim como o somos no método.
A liberdade a qual nos referimos representa também a possibilidade do exercício de uma vontade consciente que se instrumentaliza nas lutas do presente, de uma força criadora que rompe a cadeia das fatalidades naturais e se expressa no protagonismo popular como motor da história.
O instrumento da liberdade responsável aplicado na luta popular organizada e seus métodos de funcionamento significa pluralidade de opinião, democracia direta e federalismo. Todos tem o direito e também o dever de exercer sua liberdade de participação e questionamento, bem como tomar as responsabilidades por suas atitudes. Essa liberdade de agir e participar da tomada de decisões fundamentais caracteriza uma metodologia libertária comprometida com um processo coletivo de libertação das classes oprimidas que garanta o mais amplo e responsável desenvolvimento das liberdades individuais.

Autogestão

Por afirmar a autogestão como princípio que expressa as novas relações sociais resultantes do socialismo somos partidários de uma crítica áspera ao controle das decisões exercido por interesses privados ou através de estruturas burocráticas.
A sociedade socialista, no nosso ponto de vista, tem que significar para os trabalhadores não somente a satisfação de suas necessidades materiais, mas a possibilidade concreta de tomada de controle das decisões e gestão direta dos meios socializados de sobrevivência com a mais ampla participação popular nos locais de trabalho, estudo, bairros, vilas e associações culturais do mais simples ao complexo.
Os anarquistas sempre defenderam as concepções de autogestão e se debatem frontalmente com as correntes socialistas que a postergam para a última etapa da luta social, com a instauração da sociedade comunista. Segundo esse socialismo classificado de autoritário por suas pretensões, o processo revolucionário deve necessariamente consolidar suas conquistas e preparar o povo para um novo modelo de convivência social a partir da concentração de poder político nas instituições do Estado. Essa fórmula foi definida por ditadura do proletariado e estava fundada ainda na existência de uma vanguarda intelectual que fosse capaz de assumir o governo do Estado identificada absolutamente com os interesses da classe trabalhadora.
A história nos brinda exemplos dramáticos de quando a energia e a imaginação revolucionária dos trabalhadores apoderados dos campos e das fábricas, das escolas e rádios foram assaltados por interesses de governo Em outras palavras: quando o poder exercido pelas organizações operárias e populares foi aos poucos absorvido pela classe técnico-burocrática instalada na administração do Estado.
Consideramos tão desumanizadora quanto a alienação que separa o trabalhador do resultado do seu trabalho a alienação do ser humano da sua vontade, da dimensão política da decisão.
Como esclarece Luigi Fabbri: “Os anarquistas admitem também – e como poderiam deixar de fazê-lo? – a necessidade de uma administração dos interesses sociais comuns; mas não dão a essa administração um caráter estatal, quer dizer, não dão aos administradores os meios e a faculdade de impor sua própria vontade, senão que somente lhes atribuem uma função executiva.” A heterogestão imposta pelo monopólio estatal do poder político além de um produto das classes dominantes é um produtor de classes dominantes.
Portanto, a autogestão para nós é um projeto de construção de autonomias individuais e coletivas que rompe com a alienação proveniente da dominação capitalista através da prática social e histórica de apropriação coletiva da economia pelos trabalhadores e da democratização do controle das decisões.
Não acreditamos numa autogestão econômica plena dentro do capitalismo e cremos menos ainda que modos de produção convivendo e comercializando com a exploração capitalista possam ser uma saída popular profunda. Contudo não descartamos que em determinadas circunstâncias unidades produtivas geridas pelos próprias trabalhadores pode se transformar num espaço complementar de organização e luta que experimenta novos valores nas relações de trabalho.
A autogestão é completamente oposta à realidade e aos objetivos da sociedade capitalista, fazendo parte das lutas das classes oprimidas contra o sistema pela busca de uma nova e mais humana sociedade.


Democracia Direta

Para que a autogestão se consolide em todas as formas organizativas de um povo em luta e em todos os níveis da vida em sociedade, esta deve primar pela democracia direta nas deliberações políticas, ou seja, assegurar a ampla participação, a liberdade de opinião, tudo o que garante um espaço de expressão das subjetividades em que possam ser definidos modos de relação, normas, códigos, instituições que conformam a função regulativa da sociedade. A democracia direta possibilita assim a ruptura com os modelos verticais impostos de cima para baixo e de fora para dentro, desenvolvendo o contrário: a horizontalidade nas relações políticas.
Como anarquistas rejeitamos o Estado e a sua democracia representativa que investe seus eleitos do poder de impor seus interesses particulares fazendo uso dos interesses coletivos. Rejeitamos essa democracia baseada no governo de uns poucos que concentram o poder político sobre a sociedade e que elege representantes sem vínculos orgânicos com a vontade e as aspirações de uma determinada base social.
Dessa constatação deriva nossa firme posição em prol de uma democracia real que não engendre dominação, de uma nova insticionalidade onde tenha lugar a autogestão, a democracia direta e o federalismo; uma organização político-social tal que a representação seja controlada por mandatos específicos e determinados dos grupos de interesse, e a revogabilidade das funções seja um recurso disponível em qualquer tempo.

Ação Direta

Freqüentemente a ação direta enquanto método de ação é vinculada ao uso de formas violentas de resistência e luta ou à atividades de cunho extra parlamentar. Entretanto, a ação direta enquanto uma ferramenta para a construção de um poder popular se torna um conceito com maior riqueza de conteúdo.
Em essência, a ação direta é o que faz prevalecer o protagonismo das distintas expressões que resultam da dinâmica organizacional das classes oprimidas, visando a menor mediação possível para que não se formem centros de decisão alheios e externos à luta destas classes pela sua emancipação. Neste sentido, a ação direta é um complemento da democracia direta, pois busca a participação social de tal modo que possa exercer pressão de forma direta nas lutas sociais em confronto com as classes dominantes utilizando o mínimo de instâncias intermediárias.
As classes oprimidas, na medida em que aumentam as possibilidades de uma prática política alicerçada na ação e na democracia diretas fortalecem o seu senso crítico e desenvolvem suas capacidades de ruptura com a alienação imposta. Desta forma, podem assumir, responsavelmente, a defesa de seus interesses, seus erros e seus acertos. Além disso, podem contrapor-se às fórmulas organizativas e aos objetivos desviantes dos seus reais interesses coletivos.
Prezar, dinamizar e potencializar a ação direta em todos os níveis é a tarefa primeira da organização anarquista. Isto significa que a ação direta pode ser estendida a todas as formas da vida social: política, economia, cultura, enfim, tudo o que constitui a essência e o conjunto do corpo social. A ação direta pode ser pacífica ou violenta, de propaganda ou de organização, das diversas lutas sociais e populares ou orgânicas, reivindicativas ou em uma etapa de avanços revolucionários.
Neste sentido, os setores oprimidos é que criam as condições de seu protagonismo através de seu próprio acionar, estendendo-o e aprofundando-o, forjando a sua história e o seu destino.
“A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”, assim era expresso esse princípio na Internacional. A unidade na prática política da ação direta é fazer valer esta premissa plenamente.

Classismo

Por ser uma sociedade baseada em um conjunto de mecanismos que ativam e reproduzem relações de dominação, o sistema capitalista conforma uma determinada estrutura de classes, ou seja, um ordenamento hierárquico de mando e/ou obediência onde estão posicionados distintos estratos sociais. Como relação que pressupõe, em linhas gerais, dominantes e dominados, a dominação é uma expressão dinâmica de um conflito que quando está situado em uma estrutura de classes dá lugar a luta de classes.
O poder das classes dominantes reside no controle privado ou burocrático dos meios de produção, comunicação de massas e serviços; na centralização das decisões políticas; nos aparelhos de repressão e coação; na ideologia burguesa e nos valores que difunde sobre todas a sociedade. Entendemos que o processamento da luta de classes constitui o motor da mudança social sendo que na sua condução em sentido revolucionário joga um papel as ideologias revolucionárias e uma adequada organização da vontade política.
O anarquismo é a instrumentalização das idéias e aspirações de justiça social com igualdade e liberdade que encontra na luta e na vida dos trabalhadores e dos oprimidos desse sistema a sua potencialidade. Sua noção de humanidade projeta uma sociedade sem classes nem dominação, meta que só a luta revolucionária das classes oprimidas pode alcançar. Por isso “qualquer tentativa de fazer do anarquismo um atributo da humanidade atual, de atribuir a ele um caráter humanitário geral seria uma mentira social e histórica”, pois em um sistema de dominação “não há uma humanidade, há uma humanidade de classes: escravos e senhores” (Plataforma).
Muito foi questionado sobre o caráter de classe do anarquismo como forma de combater a sua influência no movimento operário mundial. Os socialistas da matriz marxista mais ortodoxa fizeram uma campanha difamatória para identificá-lo com as ideologias da pequena burguesia, dos pequenos proprietários de terra ou para o vincular pejorativamente com os interesses do que chamaram “lúmpem proletariado” (camadas marginais da sociedade lançadas fora da esfera de produção capitalista).
Essas acusações situadas em um contexto de disputas de hegemonia na classe trabalhadora com início na 1ª Internacional já manifestavam sinais de totalitarismo incrustado no pensamento socialista, que evoluíram até configurar-se historicamente como marxismo-leninismo. Não aceitar a pluralidade ideológica revolucionária no interior dos movimentos de classe significaria mais tarde a instituição do partido único e de um eficiente aparelho repressivo contra as alternativas que não se enquadravam nas teses da “autêntica ideologia do proletariado”.
Assim concluímos que o anarquismo é uma ideologia de todas as classes oprimidas e exploradas enquanto tais, enquanto sejam capazes de se libertar sem oprimir ou explorar.

CRÍTICA AO SISTEMA CAPITALISTA E AS RELAÇÕES DE DOMINAÇÃO

O anarquismo não é um sistema fechado de idéias ou uma teoria científica acerca dos progressos sociais-históricos e suas leis fundamentais. A qualidade de ideário aberto articulado por alguns princípios básicos caracterizam o pensamento libertário e a sua firme posição anti-dogmática. Contudo, para fins de uma abordagem militante o definimos de uma maneira geral como crítica às relações de dominação em todas os níveis da vida social, crítica adequada a cada circunstância concreta a que está dirigida.
Nascida no século XIX, a ideologia anarquista se afirmou como crítica radical do capitalismo, realizando uma luta teórica sem tréguas, ora específica ora mais global, contra seus diversos mecanismos de poder.
A sociedade capitalista é um sistema baseado na dominação, um fenômeno histórico específico do poder, que está operacionalizado pela exploração e controle do trabalho pelo capital, com uma estrutura jurídica, política e repressiva que reproduz tal dominação.
É um sistema que conforma relações de produção, distribuição e troca que retiram os trabalhadores das esferas de gestão direta dos seus meios de sobrevivência, tanto pelo controle privado dos patrões quanto pelo controle burocrático dos aparelhos de Estado e seus dirigentes.
O capitalismo constitui uma organização social que se apoia na centralização do poder político no Estado, isto é, em um conjunto de instituições operadas por uma minoria posicionada sobre a sociedade, que atribuídas da noção de impessoalidade, regulam o conjunto social a partir de seus interesses particulares. Essa organização social funciona também através de uma série de símbolos e significações que se difundem e conservam no imaginário da população o fundamental de suas estruturas de dominação.
Não faltam exemplos que ilustram o caráter de sua ação classista tão danoso sobre os trabalhadores, os pobres e marginalizados do campo e da cidade. Em 1960 20% da população dos países mais ricos dispunham de uma renda 30 vezes superior à dos 20% mais pobres. Em 1995, essa renda era 82 vezes maior.
A fortuna das 3 pessoas mais ricas do mundo ultrapassa o PIB acumulado dos 48 países mais pobres, enquanto 3 bilhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por dia. 4% da riqueza acumulada das 225 maiores fortunas seriam suficientes para satisfazer as necessidades essenciais de toda a população dos países em vias de desenvolvimento: comida, água potável, infra-estrutura sanitária, educação, saúde… 2 bilhões de pessoas no mundo sofrem de anemia, das quais 0,4% estão nos países industrializados. O número de pessoas mal nutridas subiu mais que o dobro em 20 anos, passando de 103 milhões em 1970 para 215 milhões em 1990 (referência: PNUD 1998).
As 200 maiores empresas representam 24,5% do PIB mundial (1998) equivalente ao PIB de 150 países, enquanto que o patrimônio das 200 pessoas mais ricas do planeta passou de U$ 440 bilhões em 1994 para U$1.042 bilhões em 1998 representando 41% da renda acumulada de toda população mundial. Em 1999 existiam 1 bilhão e 500 milhões de pessoas pobres no mundo, sendo que o Brasil possui 28,7% de sua população abaixo da linha de pobreza, aproximadamente 47 milhões de pessoas. O desemprego estrutural em nosso país está a uma taxa permanente de 10% da população (fontes: IBGE-PNAD-1998 e PNUD-ONU-1999).
A crítica socialista e libertária resulta para nós em atitude revolucionária contra esse sistema porque a desigualdade social, a injustiça e a crueldade não são simples desvios mas traços de sua própria natureza, de sua estrutura classista, de sua ideologia individualista. Por isso rejeitamos o capitalismo e abraçamos o desafio de construir um mundo novo.

NOVA FORMA DE FAZER POLÍTICA

A Organização


O anarquismo não é e não pode ser contrário à organização e sua estreita relação com as sociedades humanas. Esta é um elemento impossível de ser subtraído da vida social e mesmo aqueles individualistas e antiorganizadores que a contestam como um prejuízo às liberdades e iniciativas pessoais têm necessidade de se organizar na hora de agir por um objetivo qualquer.
Por organização entendemos a soma das vontades de um conjunto de indivíduos que têm por base um acordo mútuo empregam determinados meios para realizar suas finalidades. Assim quando sofremos a vontade unilateral dos outros ou impomos nossa própria vontade em detrimento das demais estamos diante de uma organização autoritária consubstanciada por relações de dominação. Por sua vez, quando vivemos com os demais em fraternal acordo visando a satisfação comum, teremos uma organização livre e horizontal.
Toda sociedade supõe organização ainda que isto não signifique Estado, isto é, um conjunto de instituições políticas, jurídicas, militares, econômicas, financeiras, etc., por meio do qual o povo é alienado da gestão de seus próprios assuntos, da direção dos meios para seu bem estar pela centralização do poder por uma minoria que se vale da força coletiva e dos “interesses gerais” da sociedade. O Estado é a forma atual de organização político-social que os anarquistas combatem por seu caráter hierárquico e coercitivo.
Concordamos com a análise do anarquista italiano E. Malatesta quando considera: a organização como princípio e condição da vida social, hoje e no futuro; a organização específica anarquista e a organização das forças populares na luta anticapitalista. O anarquismo além de crítica radical ao Estado e à hegemonia autoritária, se constitui também em princípio organizativo que concebe a autonomia das práticas sociais e a federação criada a partir de interesses comuns.
Como militantes anarquistas nos articulamos com uma organização própria para efetivar uma prática política de intenção revolucionária. Estamos agrupados especificamente com métodos, acordos e estruturas que têm a função de criar a unidade de ação.
O anarquismo militante historicamente foi avesso ao modelo de organização adotado por outras doutrinas socialistas que esmaga a democracia interna e centraliza as decisões segundo a vontade de uns poucos dirigentes. Ao centralismo e seus pretensiosos adjetivos o anarquismo militante opôs o federalismo adequado à dinâmica de uma organização anarquista e às condições históricas concretas da luta em que se inscreve. Porém, vale comentar, o movimento libertário abriga distintas concepções organizativas que nem sempre atendem ao interesses de militância revolucionária.
A Federação Anarquista Gaúcha é adepta do especifismo, como tal uma organização política que concebe o federalismo como “concordância livre entre indivíduos e a Organização em trabalhar coletivamente rumo a um objetivo comum. Contudo, tal acordo e federação, que é baseada nele, só poderão se tornar realidade, ao invés de ficção ou ilusão, sob as condições essenciais de que todos os participantes do acordo e a Organização cumpram completamente os deveres assumidos, conforme as decisões compartilhadas”.(Plataforma)
A questão da organização deve resolver o problema da coordenação e convergência das atividades das forças militantes do anarquismo e se fazer instrumento eficiente de articulação das suas frentes de luta segundo uma estratégia de longo prazo que aponta para a ruptura revolucionária. Nesses termos não exime a noção fundamental de responsabilidade de seus membros, “uma certa disciplina, não automática senão voluntária e reflexiva, em perfeito acordo com a liberdade dos indivíduos (...) necessária sempre que muitos indivíduos, unidos livremente, empreendam um trabalho ou uma ação coletiva qualquer”.(Bakunin)
Acreditamos que a ordem como imposição vertical de uma vontade não é o único fator capaz de regular a participação coletiva, mas sim que esta pode ser organizada por um conjunto de relações postas em atividade por decisões baseadas no acordo livre e responsável. É possível e necessário promover a ação coletiva a partir de critérios que sejam respeitados por todos que dispensam a força e a disciplina militarista em favor de motivações solidárias conscientes em cada um. Isso vale para a organização específica anarquista, para os movimentos populares e para a sociedade que queremos, fazendo de cada experiência de luta e organização uma verdadeira escola de vida onde vamos aprendendo a confrontar e a superar os esquemas autoritários que conformam a natureza do sistema capitalista.

Prática Política

Pela vigorosa crítica ao parlamento, ao processo eleitoral burguês e a todos os mecanismos da democracia liberal oferecida pelo sistema capitalista, o anarquismo é acusado até os dias atuais de se omitir da luta política e por essa razão classificado como “a infância do socialismo”. Se podemos admitir que existem aspectos insuficientes no pensamento libertário, ou que em certas circunstâncias o zelo na aplicação termo a termo dos seus princípios acabou provocando atitudes politicamente inoperantes, não é correto dizer que seu rechaço a participação eleitoral dos trabalhadores nas instituições políticas governamentais é equívoca.
Na história do movimento socialista, muitos partidos viram nas instâncias representativas da democracia liberal burguesa um meio para promover mudanças sociais. Entre eles estão os reformistas, que crêem na possibilidade de transformações pacíficas e graduais operadas por dentro do sistema e aqueles partidos que mesmo afirmando a necessidade da via revolucionária jogam nos espaços permitidos da hierarquia estatal com uma política oportunista chamada de tática.
Com o tempo, se tornou corrente na cultura política de esquerda, através de suas variantes social democrata ou dos derivados do marxismo-leninismo, a reprodução acrítica da noção de que política fazem os profissionais eleitos para cargos nos órgãos executivos e/ou legislativos do Estado. Nessa lógica, que nada mais é do que a lógica do sistema que separa povo e política, sociedade e poder, a luta política está sempre agenciada pelas candidaturas e quem não vota não faz política, não busca soluções viáveis para o drama popular cotidiano.
A prática parlamentar e governamental é uma forma específica de fazer política, nunca a única política. Assim como o Estado é uma determinada expressão histórica concreta de organização do poder político. A luta política, com a objeção que se possa fazer, sempre foi um nível objetivado pela ação anarquista, só que de maneira distinta do socialismo autoritário.
Concebemos a prática política como toda atividade em que se manifestam relações entre as classes oprimidas e o poder político, entre o povo e o governo ou o Estado. A política também consiste, para nós, na capacidade de formulação de propostas que articulam e veiculam os interesses gerais e/ou parciais da população, nos conflitos contra o governo ou qualquer outra instituição do poder que questionam a forma de condução da vida social, e na defesa, conquista e ampliação das liberdades públicas.
Essa definição abarcativa nos faz identificar fortes componentes políticos na atividade levada por sindicatos e entidades do movimento popular, contudo não se reduz a isso. Há um vasto campo de enfrentamento com os organismos de poder manejados pelas classes dominantes no qual destacamos uma regular e específica ação política que pretendemos desenvolver. Através de uma prática política organizada queremos expressar a ideologia anarquista em uma linha adequada para as problemáticas reais dos oprimidos, a cada conjuntura que tem lugar e ao nível da correlação de forças em jogo, para estar em condições de sustentar uma estratégia de poder popular, um processo de protagonismo das organizações sociais dirigido a uma nova estruturação da sociedade.
A organização política anarquista não representa nem substitui a luta popular e suas expressões organizadas, funciona como um motor que a anima sem anular seu papel principal nos processos históricos.
Só uma organização especificamente política com uma ideologia revolucionária pode cumprir o papel de sustentar e orientar um processo de luta de longo prazo, luta revolucionária que exige recursos técnicos, políticos, teóricos e materiais que possibilitem a sobrevivência e o crescimento mesmo em condições difíceis, o que exige coordenar ações em setores muito diversos, em terrenos diferentes, em condições de complexidade crescente.
A prática política dever ser, então, o veículo que torna real nossos princípios libertários na luta de classes.

Inserção Social

Somente a partir do trabalho militante organizado é possível promover com firmeza e coerência a luta popular. Esta luta e suas conseqüências necessitam de um âmbito de elaboração da teoria-prática revolucionária. Este âmbito se compõe, entre outras coisas, de um nível social ocupado pelas organizações de classe e movimentos populares, e também um nível político específico ocupado pela Organização Anarquista.
A militância de base que fazemos é a única garantia de inserção social das idéias e conceitos libertários. A legitimidade do anarquismo está na sua participação nas experiências de luta e organização das classes oprimidas, na sua capacidade de ser útil para o seu aprofundamento. Por isso a organização política anarquista não deve ser de maneira nenhuma círculo sectário de idéias puras ou cenário de reflexões filosóficas abstratas, mas ferramenta que sirva aos propósitos de um processo revolucionário que põe as organizações populares no centro das iniciativas. Nesse esforço cotidiano nos somamos com um trabalho de base que respeita antes de qualquer linha partidária a independência de classe e suas expressões organizadas, sejam sindicatos, associações, comitês de luta, cooperativas autogestionárias, etc.
No Brasil, devido a inúmeros fatores, incluindo repressão política, mudança de panorama e padrões sociais e em boa parte por uma defasagem tático-estratégica, o anarquismo ficou quase 50 anos estagnado com pouca ou nenhuma inserção nos movimentos sociais. Após a restauração democrático burguesa dos anos 80 se realizaram tentativas de superação desse vazio que acabaram sem continuidade.
A inserção anarquista através de uma prática política organizada é uma das necessidades centrais e prioritárias da FAG. Pela nossa concepção, não existe “lutar para o povo” nem “lutar pelo povo”, ou se luta com o povo, como militantes que fazem uma opção de classe e que têm uma identidade popular, ou não existe luta libertária possível. Isso porque nada substitui gente organizada. Somente o povo auto-organizado pode criar o poder popular, aumentando o nível e a intensidade da luta a medida que amplia a consciência política de que a via revolucionária é possível e necessária. Portanto, na luta popular se prepara e se difunde a revolução social como alternativa para uma vida digna e livre.
Os militantes anarquistas têm de ser como peixes dentro d’água no seio das classes oprimidas, fluindo como sangue nas veias da luta popular. A inserção social é também o resultado de trabalhos metódicos e regulares. É ela que pode abrir caminho para outros níveis de luta e por isso mesmo é um objetivo constante, permanente e ininterrupto. Quanto maior for nossa inserção social, mais a organização política anarquista vai estar sintonizada com a realidade e mais vamos poder fazer para contribuir na transformação desta dura realidade.
A ideologia e a Organização se legitimam e se nutrem com a inserção social e a partir disto mais condições têm de construir soluções coletivas para as problemáticas da realidade concreta.

Nova Articulação do Político com o Social

Como dizíamos, é característico da ideologia burguesa a reprodução por todos seus aparelhos da noção que separa sociedade e poder, povo e política e todo tipo de significação que reforça o verticalismo nos processos políticos.
A própria esquerda assimila essas noções para realizar uma divisão taxante destas duas “lógicas” em pólos opostos onde de um lado se encontra o nível “social” caracterizado como elemento “inconsciente”, “espontâneo”, “meramente reivindicativo”, “de pouco alcance”, e por outro lado temos o “político”, representado geralmente por um agrupamento militante, pelos “mais formados”.
Dessa maneira, um enorme setor da esquerda desmerece o nível social, já que não reflete suas expectativas “revolucionárias”. É assim que se começa a gerar um modo de fazer política onde se perde todo contato com a base que é justamente o que dá conteúdo a qualquer projeto revolucionário.
A estratégia passa então por ganhar “novos militantes”, onde a organização política se torna um fim em si mesma, e a prioridade é dada ao seu fortalecimento e não ao do movimento popular.
Com esse tipo de prática não se faz nada além de aprofundar os marcos de representação da democracia liberal burguesa, onde as “pessoas comuns” podem realizar atividades no âmbito social, e a política fica em mãos de profissionais, de pessoas capacitadas na tarefa de conduzir o corpo social.
Existem, sem dúvidas, esses dois níveis. Tanto o social como o político são campos com uma dinâmica própria, com um alcance, com proposições de objetivos diferentes, que os distingue mutuamente. Nós acreditamos que a partir de reconhecer as diferenças, o que devemos fazer é buscar formas de articulação que as asseguram em seu ponto justo e não realizar políticas que tendem a acentuar tais diferenças. Por isso achamos que os dois devem coexistir em sua justa medida, sem que um se sobreponha sobre o outro e vice versa, mas com uma prática cotidiana inserida nos movimentos e organizações populares promover laços que funcionem como correia de transmissão, com o objetivo de superar as diferenças e encontrar um marco no qual cada um possa contribuir com suas virtudes e ajudar o outro a superar seus erros.
Nossa concepção não aponta para a acumulação e o desenvolvimento exclusivo da FAG e seu respectivo nível político específico, e sim faz da organização política anarquista um meio para gerar um desenvolvimento sustentado das lutas populares e conseguir estabelecer um marco de discussão e ação no qual tais lutas, tal “nível”, possa superar suas próprias carências. Superar significa que por exemplo uma luta social construída a partir de uma reivindicação concreta sinta a necessidade de meter a mão em assuntos que não são de sua especificidade, que se coordene com outras experiências e lutas em desenvolvimento, e que finalmente encontre em seu conflito particular um exemplo a mais de uma determinada condição de classe, que portanto sinta a necessidade de dar à sua luta específica um caráter global.
Cremos necessária a orientação de que o nível em que se organizam e expressam os movimentos dos trabalhadores e as entidades populares não deve ser forçado por perspectivas político-ideológicas nem manipulado por planos elaborados desde uma instância longe do cenário das lutas. A independência de classe e de suas organizações sociais é um critério necessário para as práticas políticas sem o qual não se rompe com o velho modelo elitista das vanguardas.
A articulação do político com o social é a base do que entendemos por poder popular, processo que convoca as duas perspectivas em um mesmo corpo, que se elabora a partir de uma estratégia que busca dar ao social uma estrutura tão organizada e consciente que assente as bases para desenvolver desde baixo uma capacidade a qual possa superar os limites de participação estabelecidos pela hegemonia estado-patronal , quebrar seu domínio e estabelecer as pautas de desenvolvimento da nova vida social.


CAMINHOS PARA UM PROJETO POLÍTICO LIBERTÁRIO

A Intenção Revolucionária


Na América Latina, são muitas as organizações revolucionárias e movimentos populares que lutaram e lutam pela libertação. Este é um conceito e objetivo que também está contido em nosso projeto revolucionário anarquista.
Entendemos que a libertação de nossa classe só será possível através da luta popular organizada, construindo um processo revolucionário de longo prazo. Nesta luta continental, a melhor contribuição que podemos dar é plantarmos todos os dias as sementes dos frutos que queremos colher. Isso significa que não acreditamos que um novo sistema social, baseado na igualdade, na justiça e na liberdade poderá nascer a partir de uma conseqüência natural e evolutiva do desenvolvimento do sistema capitalista, por meio de uma transição pacífica. Pelo contrário, o sistema capitalista tem dado provas suficientes de sua capacidade de se adequar a vários momentos históricos para que as suas estruturas fundamentais de dominação não se alterem. De acordo com a concepção anarquista, para que haja uma ruptura com o sistema capitalista e o início da construção de um poder popular deverão ser descartados instrumentos que o próprio sistema criou, certamente para se manter e não para dar oportunidade
à sua autodestruição.
Por outro lado, é evidente que para que se desenrole um processo revolucionário não basta apenas vontade. Deve-se avaliar criticamente as experiências revolucionárias da história, mas sem pretender-se transportar receitas de outras épocas e de países que não são o nosso. É necessário observar as particularidades do atual momento histórico e da região em que vivemos. Ver como isso se reflete em nossa classe, em suas organizações, em seu imaginário. O momento que vivemos hoje é bem diferente de trinta anos atrás. É preciso construir-se estratégias que atentem a essas particularidades.
Vemos a ruptura como um desenlace popular, o que implica a maior participação popular possível, por meio de suas organizações, organizando-se o enfrentamento contra a classe dominante em todos os níveis da ação direta.
Portanto, a FAG é uma organização política anarquista de intenção revolucionária, participando de uma luta brasileira e continental cujo caminho apontado pela Organização é o da libertação popular.

Programa Socialista e Libertário

Acreditamos que a consequência lógica da crítica ao sistema capitalista; das aspirações, sentimentos e anseios de uma convivência solidária, livre e fraterna entre os seres humanos; de uma forma de vida que gere harmonia da humanidade com o meio ambiente é o projeto revolucionário anarquista. Processo que pretende edificar uma sociedade socialista e libertária como fruto da luta revolucionária cujos protagonistas sejam os movimentos populares.
Quando falamos em socialismo libertário queremos demarcar como algo diferente do chamado “socialismo real” ocorrido na União Soviética, em Cuba e em outros países, que pela manutenção de estruturas de dominação melhor poderia chamar-se de capitalismo de estado.
A nível político se consolidou uma nova forma de dominação e o surgimento de uma classe social, a burocracia estatal. Esta dominação era exercida a partir da administração dos assuntos de estado, do excedente econômico, da manutenção da ordem interna (reprimindo qualquer contestação popular, logo tachada de contra-revolucionária), defesa do território nacional, da coesão ideológica e sua reprodução. Fatos que não constituem nenhuma surpresa à crítica anarquista ao modelo autoritário.
A construção de uma sociedade realmente socialista e libertária passa por uma socialização econômica – o que não significa mera estatização dos meios de produção -, como também por uma completa socialização das instâncias de decisão política.
Tal socialização deverá ser exercida pelas organizações básicas dos trabalhadores e do povo, e deve incluir os meios de produção, distribuição, crédito e troca, do poder político, da educação, da administração da justiça, organizações de defesa, fontes de saber e informação. Tudo isso pressupõe a supressão de toda classe dominante e de propriedade privada.
Tendo-se por princípio a supressão de toda forma de opressão, isso inclui dentro de nossos objetivos acabar com a opressão de gênero, de etnias, de opção sexual, etc. Opressões que tomam forma a nível político-econômico, como também no plano cultural. Que obviamente não acabarão por decreto, como não acabará dessa forma todo o aparato de dominação, mas por todo um processo contínuo de destruição e de construção de outras formas de organização e de novos valores.

Protagonismo da Luta Popular Organizada

A revolução social só acontece, na nossa concepção, quando existe protagonismo popular. Do contrário, seguirá existindo dominação de uma classe sobre outra. Tal protagonismo requer uma estratégia de construção do poder popular. Poder não pode ser confundido com governo.
Frente a uma estratégia de poder estabelecido destinada a perpetuá-lo, é necessário opor uma estratégia das classes oprimidas destinada a construir o poder popular. A concretização do poder popular requer a preparação das organizações de classe destinadas a assumi-lo e o fortalecimento destas organizações com a tarefa que lhes corresponde desempenhar, pois edificar o poder popular não significa que os elementos constitutivos do poder sejam conquistados por uma nova classe dominante supostamente representativa dos interesses dos trabalhadores. A experiência histórica estaria desqualificando esta opção autoritária. Não se trata de colocar o nome de poder popular as velhas e conhecidas formas de ação política e de representação que excluem ao povo de toda instância de decisão fundamental. Portanto, não se trata simplesmente se tomar das classes dominantes o atual poder político centralizado, e sim de difundi-lo, descentralizá-lo nos organismos populares, de transformá-lo em outr
a coisa. De transformá-lo em uma nova estrutura político-social.
Tomar o poder é tomar o poder nas fábricas, nos campos, nas minas, nas oficinas, nas escolas, nos hospitais, nas centrais elétricas, nos meios de comunicação, nas universidades, e o poder é dos trabalhadores e do povo quando são organismos por eles controlados, amplamente democráticos e participativos, onde os que o assumem apropriam-se das funções tutelares exercidas desde a esfera estatal. Por isso é que uma estratégia de poder popular deve ter como premissa essencial a construção desses organismos e esta é a tarefa política chave que desde já está jogando um papel de primeira ordem na determinação de se o futuro revolucionário será socialista e libertário ou não. Por isso que a derrota da ordem capitalista e autoritária e a construção de um autêntico poder popular está se produzindo todos os dias, em relação a como se orienta e concretiza nosso trabalho político e social.
Assim, criar ou recriar, fortalecer e consolidar as organizações operárias e populares e defender seu protagonismo é ir fecundando, passo a passo, o único socialismo possível: um socialismo com liberdade, onde todos os avanços que hoje conhecemos sejam postos a serviço de um melhor e humano funcionamento social que beneficie ao homem, ao povo todo.

Coordenação das Lutas e Movimentos Populares

Já foi colocado a necessidade de um desenlace popular, resultante de um processo revolucionário onde o protagonismo das organizações populares é peça fundamental. O que pretende-se abordar neste tópico é qual o objetivo a ser buscado todos os dias, para que se acumulem forças em direção a tal objetivo. Este passo hoje constitui a coordenação das lutas populares.
Primeiramente seria necessário demarcar que não entendemos tais lutas somente no seu âmbito econômico. Tampouco que as reivindicações econômicas conduzem à uma luta de classes com contornos revolucionários. Pelo contrário, poderia dizer-se a mera luta econômica tende ao corporativismo e ao reformismo.
De acordo com nosso entendimento a luta de classes pode ter motivações econômicas, políticas, ideológicas, culturais, e tantas outras mais; podendo ser protagonizadas por uma ampla gama de sujeitos oprimidos: trabalhadores do campo e da cidade, desempregados, estudantes; podendo adquirir contornos de luta de gênero, de etnia, ecológica, etc. Isso significa que não acreditamos que exista uma predestinação histórica em certos sujeitos sociais em fazer a revolução, como acreditam algumas correntes da esquerda, principalmente em relação à classe operária.
Como ferramenta de análise da realidade é preciso considerar como protagonistas da luta de classes uma ampla gama de sujeitos oprimidos, movidos por combates distintos contra o aparelho de dominação.
Para caminhar em direção à um poder popular, é preciso unir e coordenar estas lutas através de laços solidários e orgânicos, quebrando o isolamento, o corporativismo, a visão fragmentada da dominação, gerando um processo de tomada de consciência e de ação popular organizada.
Assim, para cada luta específica, deve-se aglutinar o maior número de entidades de base. Por exemplo, tentando fazer com que as reivindicações dos trabalhadores em educação pública e dos estudantes se transformem, a médio prazo, numa luta pela educação popular. A classe se veria representada por estas duas categorias, mais as comunidades locais, pais e mães de alunos, numa disputa não só por verbas, mas também pelo conselho comunidade-escola, o conteúdo curricular e o método pedagógico. O mesmo exemplo se aplica em todas as lutas concretas tais como: moradia, trabalho, saúde, saneamento, terra, libertação negra, das mulheres e demais segmentos.
As centrais dos movimentos e entidades populares devem contribuir para isso. Mas como já foi dito não haverá protagonismo nenhum enquanto essa coordenação seja mediada pelos partidos e organizações políticas, dependente de sua política classista ou não, conciliadora ou não. Onde não é o povo que toma consciência pela própria experiência o que acontece é uma linha política partidária baixada de cima para baixo.
Como organização política, nosso papel deve ser o de impulsionar essa coordenação, mas o papel principal cabe aos sujeitos da classe oprimida.

ETAPA DE TRANSIÇÃO ATÉ O SOCIALISMO LIBERTÁRIO

Pretendemos lutar por uma utopia realizável. Uma utopia que é uma forma distinta de organização social e de convivência entre os seres humanos.
Trata-se de uma forma de organização social ainda não experimentada. Nesse sentido, nos propomos o impossível para torná-lo realidade. Assim concebido, o impossível é o que demora um pouco mais, exige mais esforço, firmeza, imaginação e responsabilidade.
Existem duas exigências básicas: revolução e etapa de transição.
A transição é um tema que os socialistas revolucionários do século XIX não puderam abordar, por limitações históricas. Em nosso século, a defesa do “socialismo real” ou diversos modelos leninistas, condicionados por circunstâncias de sobrevivência, limitou, salvo honrosas exceções, a análise do tema a um nível panfletário ou muito simplista. Hoje, diante dos novos fatos históricos, há um retorno ao ponto de partida.
Em nosso movimento não existe literatura sobre esse tema. E mais, parece ser um tema que tem sido constantemente passado por cima. Às vezes aparecem, aqui ou ali, menções separadas e parciais do problema. Mas um tratamento metódico não foi feito.
Contudo, é um tema relevante, que tem efeitos sobre o conjunto do trabalho revolucionário a ser realizado antes e depois da desestruturação da ordem capitalista. Dependendo de como se interprete essa temática, determinados procedimentos e prioridades serão estabelecidas.
Temos designado como período de transição aquele que sucede à um evento revolucionário e dá começo a uma nova forma de organização social. Para nosso caso específico, esse começo é orientado para uma sociedade comunista libertária.
Antes de mais nada convém estabelecer uma ressalva que clareie nossa proposta. A sociedade socialista e libertária não pode surgir por “evolução” do seio da sociedade capitalista. Esta não dá lugar a modificações nessa direção, pelo contrário, combate firmemente toda tentativa de modificação de suas estruturas fundamentais. O capital é inimigo declarado desta transformação. Uma nova ordem social, correspondente a outro sistema, será conseqüência de uma ruptura. No processo anterior à ruptura, os elementos destacados da luta pela transformação serão ferozmente atacados pelo sistema capitalista, que sempre trabalha por sua reprodução. Qualquer componente que afete essa reprodução será violentamente atacado. Violência que pode expressar-se em distintos níveis: político, ideológico, econômico, social, físico.
De toda forma, é necessário destacar que existem atividades que podem e devem ser realizadas no seio das sociedades capitalistas. Atividades sociais e políticas que permitem a participação e a resolução de problemas da população. Atividades que geram, ao mesmo tempo, noções e experiências; que fazem o crescimento da consciência e a confiança nas próprias forças.
Tanto maiores serão as possibilidades de organização para o libertário, quanto mais esteja desenvolvida a participação popular na etapa prévia da revolução.
Antes de abordar o tema transição parece-nos necessário esclarecer outra premissa, para evitar equívocos.
A desestruturação de um sistema abre novas possibilidades, surgem combinações que não estavam na ordem anterior. Daí que não podemos ver os limites com um olhar pleno do horizonte capitalista que hoje temos frente a nossos olhos. Vão surgir possibilidades que não podiam ser imaginadas na situação anterior. Não seria correto, então, ver somente os referenciais anteriores, sem incorporar o “salto” que habilita a ruptura para iniciar um processo até o libertário.
De todas as maneiras o “salto” não produz possibilidades ilimitadas, possibilidades mágicas. As possibilidades de um determinado ordenamento social depois da revolução guardarão certa relação com a realidade que o precedeu.
Não mudará radicalmente toda uma cultura de corte autoritário, individualista, de pouca participação, de submissão aos que estão “por cima”. Uma milenária cultura que criou raízes. Citando Bakunin, podemos dizer que “o ser humano está determinado pelas inumeráveis relações políticas, religiosas e sociais, pelos hábitos, costumes, por todo um mundo de preconceitos, ou pensamentos elaborados através dos séculos”. “Trata-se em essência de educar para a liberdade, de elevar à consciência de sua força e capacidade a homens e mulheres habituados à obediência e passividade”, como dizia Malatesta.
Não devemos esquecer que a transição é um período altamente conflitivo, onde seus protagonistas se encontram abalados pela pressão de situações-limites, entre o que deveria ser e o que é, devendo tomar decisões que, lamentavelmente, não são sentidas como propriamente corretas em forma pura ou certa, situações que temos de assumir ou renunciar a participar da história. Muito menos devemos esquecer que, na história, são inumeráveis as transições que se tornam situações permanentes, além da vontade de seus atores. Às causas interiores assinaladas temos que somar as exteriores, sejam estas à nível internacional ou desde o interior da sociedade, sejam os elementos reacionários ou sejam aqueles que, em discordância com a sociedade anterior, propõem um modelo de mudança e de sociedade diferente, antagônico, ao que queremos construir.
E se trata, também, de ter em conta e valorizar os esforços cumpridos pela humanidade, através de sua história, para melhorar sua própria condição. Junto da sujeição, o ser humano é também portador de um instinto de liberdade, como o definem Bakunin e Noam Chomsky. As lutas dos povos por justiça, melhores condições de vida, etc., refletem esse instinto.
Portanto, mesmo considerando as possibilidades que geram o “salto”, uma revolução não cria o espaço para um ordenamento social libertário imediato. Ainda que tomando como modelo uma certa história de participação da população. “Entre o homem e a sociedade existe uma ação recíproca. Os homens fazem da sociedade o que esta é e a sociedade faz deles o que são. Para transformar os homens há que transformar a sociedade”, escreveu Malatesta.
De imediato, a revolução não será feita somente pelos libertários. É de se supor que várias organizações políticas e sociais, de distintas orientações ideológicas, estarão presentes; que forças da ordem capitalista destruída seguirão operando. Ao mesmo tempo as mudanças nos costumes e formas de pensamento das pessoas não serão tão profundas para matar todo um longo passado autoritário. Tudo isso limita o processo que se inicia. Importante é situar os limites para não propormos inviabilidades que nos deixam por fora de toda e qualquer incidência histórica. Pois, como disse Malatesta, ”a vida deve continuar um dia depois da revolução e se não se puder organizar libertariamente essa vida as pessoas preferirão o autoritarismo à ausência de funcionamento social”.
Baseando-se no critério de que não haverá uma sociedade libertária no dia seguinte à revolução, é obrigatório propormos tudo o que concerne a esse período de transição para o ordenamento social mais acabado. Quais são as propostas gerais, a adequar a cada circunstância histórica concreta, de formas de organização social para os distintos níveis: econômico, político, ideológico-cultural, militar (organismos regulares de defesa da revolução, ex.milícias populares), etc.
De acordo com o modelo de sociedade anarquista que queremos construir, nossa ação no presente - aqui e agora - e no amanhã da ruptura e da transição, dá-se sobre dois eixos básicos: o Poder Popular e a Organização específica. Sobre o primeiro, como já dissemos, todo ato de democracia direta, participação popular, toda instância autogestionária é uma contribuição na construção de nossa utopia. Mas, simultaneamente, é importante assumir a lição da história de que é impossível chegar a uma sociedade socialista e libertária sem uma Organização Anarquista inserida na realidade e forte politicamente, com uma estratégia revolucionária que contemple os métodos a aplicar em cada conjuntura.
Não bastam frases genéricas e vagas. É preciso pensar o funcionamento da economia, das instâncias globais de decisão política, a articulação das distintas áreas sociais, os valores a ressaltar, etc.
É comum encontrar em nosso movimento e entre os teóricos clássicos do socialismo, a suposição, não expressa mas de uma maneira implícita, de que os problemas que impedem uma justa e solidária organização social são externos às pessoas. Tratar-se-ia de estruturas econômicas e políticas, como o Estado, as quais estariam impedindo que fosse expressa uma certa bondade inata que está brigando para sair na superfície social. Tratar-se-ia apenas de acabar com essas estruturas (que assim vistas, ninguém sustenta) e o demais viria por si mesmo.
Daí, então, que basta uma luta constante pela ruptura do sistema. O resto não está revestido de complexidade. Uma parte disso, obviamente, é verdade. Mas daí a acreditar que a disposição ao socialismo libertário é algo dado, natural, há uma grande distância. As pessoas carregam em suas costas séculos de noções e representações, de referenciais políticos e de convivência, de individualismo negativo. Existem práticas políticas e sociais que tem profundas raízes. O poder não está só no Estado, exterior às pessoas. Existem egoísmos que podem reproduzir antigas ou produzir novas formas de exploração e opressão.
A complexidade de um tal processo de transformação exige um alto nível de compreensão dos mecanismos sociais. Caminhar com um projeto finalista que possa ser operativo nas mais diversas circunstâncias conjunturais. Propor e resolver problemas, períodos de ação, estar atentos às mudanças, calcular as próprias forças, as forças de inimigos e aliados pontuais. Desenvolver uma capacidade de análise que permita adiantar-se aos acontecimentos para poder agir com maior eficácia. Trabalhar por um desenvolvimento técnico e político que permita a incidência correspondente.
A construção de uma sociedade socialista e libertária é tarefa voluntária, vinculada aos processos reais. Não é possível efetivá-la de um dia para outro. É um processo social voluntário que requer um processo, um largo aprendizado de novas formas de funcionamento. Requer a destruição de velhos e vigorosos mitos.
A destruição do Estado (entendendo por Estado a forma atual, jurídico-política, da sociedade de classes, das relações sociais vigentes), não é um ato pontual, conjuntural, mas uma ação contínua, permanente de destruição e simultaneamente de construção de um novo relacionamento social, é um processo não necessariamente uniforme e linear.
A forma que poderia adquirir essa transição necessária a designamos com o nome de Poder Popular Democrático. A liberdade será uma orientação constante e prioritária de todo esse período. Se conjugarão aqui a nova situação pós-revolucionária, as forças sociais e políticas em jogo, as lutas ideológicas, o estado espiritual da população, os avanços possíveis e a atenção da vida social em todos os seus aspectos. Cada processo oferecerá suas possibilidades específicas, mas o modelo de transição parece ser comum a todos eles.
As propostas feitas mais atrás sobre democracia direta como sistema e ação direta como orientação guardam estreita relação com a definição que aqui fazemos de Poder Popular Democrático.
Outra coisa que é historicamente impensável é que serão os anarquistas que farão a revolução sozinhos. Igualmente impensável que faremos sozinhos a reconstrução. Pois isso implicaria uma concepção de ditadura que não permitiria a expressão da discordância ou de outras propostas. Mesmo no caso de sermos maioria estaríamos nos confrontando e também fazendo acordos. Esse é o princípio básico da política. Está fora de nossa concepção uma sociedade de doutrina ideológica única e de organização política única. A doutrina válida de liberdade está em estreita relação com o que possa construir cada sociedade nesse sentido.
É impossível adivinhar quais e com que características serão os atores hegemônicos em uma conjuntura revolucionária. Mas temos de admitir que podemos não ser a força majoritária. Nesse caso, podemos chegar a ser, e isso depende de nosso desenvolvimento político, uma força com alguma influência em algum processo revolucionário. O que implica ter claro tudo que é necessário confrontar e compartir.
De nossas experiências históricas como movimento, a mais completa que temos é a Revolução Espanhola, um projeto global de organização e uma força social de grande importância. Ainda que, bem sabemos, tudo que esta revolução teve de compartir e enfrentar.
Muitas vezes um pensamento desejoso se situa fora das realidades sociais. Acredita-se possível tudo o que se elabora ao nível de pensamento. Alguns discursos libertários têm algo disso. Daí a subestimação dos problemas concretos da acumulação de forças para a ruptura e a transição possível depois dela. Os dois temas apontados - 1) conceito de exterioridade e de como é o ser humano; 2) confusão de processos sociais com processos de pensamento - têm trazido um saldo muito negativo ao nosso movimento.
Uma sociedade com livre articulação de todas suas instâncias sociais, com todas as pessoas participando, não precisaria de instância política específica. O que se espera de uma sociedade completamente libertária é, ao mesmo tempo, transferido ao presente e à etapa de transição. Por aí pode vir essa falta de idoneidade política do anarquismo, essa falta de “ofício” que Peirats critica, referindo-se às experiências da Espanha e que é transferido, com caráter mais geral, ao anarquismo. Por seu lado, falta demonstrar que uma sociedade libertária possa prescindir da instância globalizadora que faz o político.
Aquela carência, aquela falta de ofício de que fala Peirats ao referir-se ao papel do movimento libertário na Espanha, é conseqüência de vários fatos:
1) A já mencionada carência e imprecisão sobre o período de transição. O absoluto, revolucionário e anarquista, eternamente adiado para amanhã, anula a possibilidade de buscar respostas para hoje.
2) O repúdio e a confusão sobre o que é ação política, identificada por nosso movimento somente com mecanismos e práticas próprias do sistema capitalista.
3) Uma visão totalizante do agir revolucionário, onde não se perceba como necessários nem a confrontação, nem os acordos e alianças com outras forças políticas.

Para nós, a ação política é uma instância, ao mesmo tempo que globalizadora, de síntese, que a sociedade deve possuir para ir resolvendo os problemas de caráter geral e nacional. É uma instância que vai mais além, abarca muito mais que o simplesmente corporativo, parcial ou regional. É através da ação política que se torna possível ir resolvendo o conjunto de necessidades e problemas globais da população de um país. A ação política é a instância específica e diferenciada e constitui um espaço particular das práticas. A organização que a expressa, ou seja, a organização política, deve compreender essa particularidade.
As confrontações, contradições, acordos tirados no campo político têm um teor geral e sintético. Pelo menos, hoje e no período de transição, a organização política se diferencia das outras práticas sociais pelos temas que aborda e a forma como os trata.
Os processos de ruptura e transição requerem uma organização política revolucionária forte e de desenvolvimento equivalente, com o adequado conhecimento: das forças em disputa, dos diferentes acordos que são possíveis de concretizar, dos movimentos gerais da conjuntura; do estado ideológico da população. Igualmente: bom desenvolvimento técnico; planos para períodos; propostas para todo evento relevante; especial conhecimento do meio em que se opera.
As precedentes considerações não esgotam, nem de longe, o tema. Temos procurado, nesta oportunidade, deixar proposto um problema que entendemos de principal importância para o nosso futuro. Como proposta geral para uma Declaração de Princípios, estimamos que é suficiente, mas para outros propósitos, insuficiente. Acreditamos que devemos continuar analisando a problemática formulada.

Site da FAG: www.vermelhoenegro.org
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

XI Congreso de la FAU


Resoluciones sobre el tema Estrategia

Nuestro 11 Congreso en su primera sesión consideró el tema Estrategia. Vió un conjunto de aspectos teóricos y políticos generales que estimó eran obligatoriamente previos al abordaje concreto del tema. Ellos tenían que ver con cuestiones teóricas vitales y evaluaciones políticas imprescindibles. Vale decir, aquellas herramientas teóricas que ibamos a usar para la clasificación y ordenamiento del material correspondiente y la ubicación de nuestro momento histórico general y particular.
No hubo pretensión de agotar estos complejos temas y ellos quedaron para seguir siendo estudiados y debatidos en proximas instancias. No obstante los debates realizados permitieron un significativo avance. Dejaron nociones muy enriquecidas y aproximaciones que permiten una visualización más ajustada del propósito central: una estrategia acorde con este momento histórico.

Este material comprende las decisiones del cuarto intermedio del XI Congreso. Están aquí todas las correcciones y agregados que se le hicieron al material base, al borrador, que el Congreso consideró.


Aspectos generales


En primer término se procura en este material tener presente las herramientas conceptuales que fueron consideradas en el Congreso, aún aquellas sobre las que sólo se inició una aproximación. Servirá de orientación el criterio establecido que dice: "Para entender lo que pasa -en la etapa, en la coyuntura- hay que poder pensar correctamente. Pensar correctamente significa ordenar y tratar adecuadamente los datos que se producen en montón, sobre la realidad.

Pensar correctamente es condición indispensable para analizar correctamente lo que sucede en un país en un momento dado de la historia de ese país o de cualquier otro. Eso exige instrumentos. Esos instrumentos son los conceptos. Para pensar con coherencia se requiere un conjunto de conceptos, una teoría.

Sin teoría se corre el riesgo de pensar cada problema solo en particular, aisladamente, a partir de puntos de vista que pueden ser diferentes en cada caso. O en base a subjetividades, pálpitos, embalajes, etc.".

En la definición del sistema capitalista sólo tomaremos una suprema sintesis de lo considerado: "Sistema dividido en clases y basado en la dominación, con una estructura económica, política, ideológica, jurídica y represiva que reproduce las características fundamentales de tal sistema de dominación".


Sobre el concepto de estrategia


Nuestra estrategia en lo social tenderá, en el marco de nuestra concepción, a trabajar por "un proceso de alternativa revolucionaria que no se inserte en el sistema".
La estrategia la entenderemos "como un conjunto de elementos sistemática y coherentemente reunidos que apunta a grandes objetivos" de tipo finalista.

A la acepción del concepto estrategia que une los objetivos finalistas con la realidad específica histórica, se le llamará: Estrategia en sentido estricto.

En todos los casos se entendió como primordial el tratar de ubicar los procesos que estamos viviendo, descansar nuestro programa de trabajo en las evaluaciones que tengamos, previo trabajo descriptivo, de etapas y coyunturas de la sociedad historica concreta, en nuestro caso la uruguaya.

Claro está que para una mejor y adecuada comprensión de nuestra realidad se hace necesario, más en este momento de mundialización de aspectos fundamentales del sistema, ubicar las coordenadas generales de la etapa específica en la que se encuentra el capitalismo. Pero, lo reiteramos, nuestro objeto es ver como se expresa todo eso en la sociedad uruguaya.

Estaremos viendo en todo momento al concepto estratégico-táctico como algo dinámico y en interacción.

Como dice el acuerdo de Congreso, la "estrategia debe cobrar vida en un programa de acción que establezca pautas generales para un periodo y/o etapa. Un programa debe hundir sus raices en la realidad de los diferentes niveles de nuestra sociedad.

Nuestra estrategia no está en condiciones de avanzar, de desarrollarse, si no tiene un contacto fluido con problemas concretos existentes en las distintas coyunturas que componen una etapa de acción".


Un programa de trabajo


Hemos dicho que al programa "lo situamos específica y concretamente en el campo de las prácticas sociales. En el campo que se expresan las tensiones y luchas sociales". Vale decir, allí donde están las movilizaciones, los conflictos obreros, las contradicciones de las fracciones de clase, las diversas peleas reivindicativas.

El programa recogerá la evaluación que se realice de la etapa en la que está el sistema en el Uruguay y ubicando el espacio de acción existente desplegará su trabajo.

El programa comprenderá "la orientación del conjunto de nuestra acción para un periodo". Se trata de no ir haciendo lo que salga, ni estimar aisladamente cada cosa que aparece, ni desanimarse por que el avance no es inmediatamente visible. Se trataría sí, de fijar objetivos y avanzar hacia ellos. De escoger acción y establecer prioridades en función de esos objetivos.

Lo dicho implica, claro está, que habrá actividades que no encararemos, hechos en los que no estaremos. Ellos pueden ser importantes y hasta espectaculares, pero, no cuentan si no encajan en los propósitos para la etapa de nuestro programa. En otros casos estaremos en minoría absoluta o con grandes complicaciones en actividades que condicen con nuestros objetivos. Elegir lo que más nos guste o menos complicaciones nos trae no es una polìtica correcta.

Por ejemplo, las diversas luchas por mejoras que lleva adelante la población debe contar con nosotros. Obviamente más aquellas de tono combativo y adecuado sentido social. Pero, solamente estar no alcanza. Hay que estar con una "intención".

Como se ha dicho en el Congreso, por la gran movilidad de la situación social es conveniente establecer programas de corto aliento.

Es imprescindible manejarse con tiempos. No resulta posible evaluar la eficacia de un trabajo en términos de meses o un año. Hay tareas que van dando sus frutos en términos de cierto tiempo. Las cosas hechas en perspectiva corta dejan poco o nada de saldo. Una acumulación político-social es tarea compleja y depende de múltiples factores. Se combinan en el tiempo aciertos y errores, correcciones y reiteraciones "cargosas".Para cierta cultura que anda en la sociedad podermos agregar que, creatividad no es cambiar de onda a cada rato sino "inventar" y refrescar en el marco de un objetivo. Una cosa es creación y otra inestabilidad.


Un proyecto de cierto tiempo requiere perseverancia y cierta estabilidad.


Que tiempo es pensable para nuestro programa en este momento? De acuerdo a las consideraciones hechas en el Congreso, creemos que alrededor de unos cinco años. Con subdivisiones, talvez, tal cosa al año, tal otra a los 2 y aquella a los 3. Tales subdivisiones serán etapas del programa.En mucho beneficia establecer lo que queremos y en que tiempo pretendemos lograrlo. Permite ir apuntando y disparando nuestra energía hacia determinados blancos.

El programa deberá evaluar constantemente nuestra fuerza energética. Cual es nuestra capacidad militante. La distribución del esfuerzo será en función de esa capacidad. Claro está que, antes que nada, todo los objetivos fijados deben guardar relación con la aludida capacidad. El programa no comprende solo el ordenamiento del trabajo hacia afuera implica necesariamente hacer lo mismo hacia adentro. Hay que articular los tiempos y las actividades en esos dos planos de manera sistemática. Descuidar la tarea en cualquiera de los dos planos nos trae de la mano una hipertrofia particularmente delicada. Hay que cuidar que el conjunto de la actividad marche armoniosamente. Que la organización específica no quede desatendida.

El "recipiente" que recoge los frutos del trabajo militante es la organización específica. Ella auna los esfuerzos y da continuidad y sentido a la acción. Es la custodia de una finalidad de cambio. Impulsa el crecimiento de conciencia combativa y transformadora en la población y va sufriendo su propia transformación en el marco de esa tarea. Si nuestra fuerza y presencia hacia afuera crece precisamos al mismo tiempo una organización específica con la fuerza correspondiente.
No tienen validez frases como: "no pudimos atender la actividad interna porque teníamos mucho tarea exterior". Si es mucha la tarea exterior es más imprescindible el buen y eficiente funcionamiento orgánico.


Algunos rasgos de la etapa actual del sistema capitalista


Nos planteamos las siguientes consideraciones por entender que están dentro de lo que debemos procurar establecer para mejor comprender lo que anda en la vuelta en nuestra formación social uruguaya. Las características generales que presenta el sistema hoy en el mundo ya están aquí o vendrán poco a poco a constituir nuestra realidad.

Estas características generales no se expresan de igual manera en todos lados. En los países desarrollados tienen una expresión y en los países pobres otra. Además de país a país ofrece sus particularidades que tienen que ver con factores de su específica historia.

Hecha estas salvedades entraremos en esta esquemática caracterización que pensamos sirve a nuestro propósito.

Caracterización del momento

-Cese de la llamada "guerra Fría" en sentido estricto
-Reorganización del poder mundial.
-Un imperialismo norteamericano con menos trabas para su agresiva y opresiva política.
-Profunda mundialización de la economía.
-Incidencia decisiva de organismos internacionales en los diseños fundamentales de las políticas nacionales, especialmente en los países pobres.
-Fortalecimiento de la ideología liberal-democrático burgués.
-Debilitamiento de las concepciones socialistas y anticapitalistas.
-Disminución de los procesos de ruptura del orden capitalista.
-Desaparición en nuestro Continente de los movimientos políticos de signo nacionalista y populista.
-Resurgimiennto del chauvinismo y la xenofobia.
-Generalización de expresiones armadas o militares de características distintas a las existentes en décadas anteriores. Tipo la Amia en la Argentina.
-Desaparición paulatina de los PC clásicos en Europa y América Latina.
-Crecimiento relativo de reivindicaciones culturales y políticas de diversas etnias, como por ejemplo los realizados en nuestro Continente por el Congreso indígena o en el marco del movimiento zapatista.
- Crecimiento de movimientos que cuestionan puntualmente al sistema como ecologistas, homosexuales, etc.
-Nueva Organización del trabajo que difiere de las características de décadas pasadas. Toyotismo por Taylorismo.
-Aplicación generalizada de la cibernética y la robotización en los procesos de producción.
-Aumento acelerado de la desocupación y la miseria a nivel mundial.
-Papel relevante del capital financiero y especialmente el "golondrina" que origina situaciones críticas de un momento a otro.
-Poder inmenso de los medios de comunicación condicionando o determinando situaciones políticas de primer orden.


El Mercosur y los problemas que nos plantea


Dentro de América Latina debemos prestar especial atención a lo que ocurre en los países que componen el Mercosur. Hay un conjunto de decisiones que en tal marco se van tomando que afectan especialmente nuestro proceso interno. Las decisiones de Brasil y Argentina repercuten fuertemente sobre nuestra situación interna.

Sería conveniente trabajar, con tiempo, en la confección de una información del estado actual del Mercosur y el ritmo real de avance que tiene.

Ante este hecho y todo lo que implica resulta de primordial interés un relacionamiento todo lo fluido que se pueda con el movimiento popular y el afin de esta área.

Pueden señalarse aspectos que operan como comunmente negativos para los intereses de la población de esta región "integrada".

-Fuerte presencia imperialista, con EE.UU. a la cabeza, con actualizadas y por momentos sofisticadas expresiones que abarcan a organizaciones y empresas europeas vinculadas a las norteamericanas -a veces con grados de enfrentamiento- que se mueven con una estrategia flexible a nivel del Continente.
-Los organismos políticos internacionales de coordinación de las fuerzas burguesas y reaccionarias como la Organización de Estados Americanos, la Asociación Latinoamericana de Integración, las actuales instituciones del Mercosur, la Junta Interamericana de Defensa, la Conferencia de Estados Americanos, etc.
-El rol de un grupo reducido de transnacionales que son en los hechos el "poder fáctico" como lo llama Chomsky. Fenómeno que se hizo patente recientemente en la Argentina en apoyo a Cavallo.
-El destino económico limitado de estos países, subordinados, cada vez más, en la división capitalista, a una dependencia casi total a los grandes proyectos imperiales y de las grandes trasnacionales.
-Ausencia de espacio para proyectos de orden nacional-burgués que alienten desarrollos propios.
-Procesos avanzados de privatizaciones que han dejado en manos de transnacionales resortes fundamentales economico-financieros de cada uno de estos países.
Junto a todo esto es de destacar también el recambio de estrategia del imperio y trasnacionales en relación con la problemática militar. Se procura ejércitos reducidos y destinados especialmente a la represión interna al tiempo que se procura desterrar la corrientes nacionalistas -fascistizantes en este casos- sustituyéndolas por las que se identifican con las ordenes de turno. La ideología de "derechos humanos" es la usada para instrumentar este recambio.


El movimiento popular del área en este contexto histórico


Han casi desaparecido los movimientos y partidos populistas de tipo nacionalista. No hay nada parecido a los Vargas, Peron, Luis Batlle.

Los partidos y movimientos que acceden al gobierno se inscriben en las coordenadas ideológicas conservadoras-neoliberales.

Los partidos de signo socialdemócrata: PT, Frente Grande, Frente Amplio enarbolan proyectos que no resultan esencialmente distintos a los de los otros partidos. La diferencia, si acaso, estriba en cierta propensión a realizar algunas reformas secundarias de poca relevancia.

Nadie sostiene ya políticas de desarrollo propio y formas polìticas como las que implicaban el llamada "Estado de Binestar".

Una alternativa que trabaja la ilusión popular es la posibilidad de la llegada de los mencionados partidos socialdemócratas al gobierno.

En lo que hace a nosotros, este proceso de los últimos 10 años, ha acelerado la desaparición del Uruguay que conociéramos hasta la años 73.

La situación nos va obligando a pensar los problemas en términos de área por lo menos. Las decisiones que toman Brasil y Argentina sobre aspectos relevantes tienen repercusión condicionante o determinante.

El sindicalismo en estos países del Mercosur son de orientación reformista-moderada. En general se encuentran debilitados y han sufrido pérdida de credibilidad. La CGT argentina está totalmente desprestigiada y corrompida a nivel de toda su estructura dirigente. La central brasileña altamente burocratizada y debilitada. Nuestro movimiento sindical merece capítulo aparte.
En lo que hace al área han sobresalido los estallidos en Argentina por reivindicaciones fundamentalmente salariales y las movilizaciones de los sin tierra en Brasil. En Uruguay la participación popular en plebiscitos por privatizaciones y Previsión Social y el combativo episodio en torno al Hospital Filtro.


Movimiento sindical


De nuestro movimiento sindical sólo destacaremos algunos rasgos fundamentales. Hay en otros materiales de la organización consideraciones exhaustivas.

Todo el conjunto sindical está debilitado. Federaciones y Sindicatos Únicos apenas sobreviven. Se ha reducido el nivel de afiliados y tienen poca vida interna.

A casi todos los sindicatos les cuesta realizar elecciones y asambleas representativas. Apenas logran mantener un reducido grupo de militantes que integran las comisiones directivas.

El descreimiento sobre el dirigente obrero es grande. Hay también importante nivel de descreimiento para el sindicato en sí. No obstante se mantiene un dual sentimiento de pertenencia.

Los gremios industriales son hoy débiles y reducidos. El cierre de fábricas y talleres tiene su cuota de importancia en esta situación. El 70% del potencial sindical está compuesto por empleados del Estado y trabajadores de servicios varios.

Los sectores de tono algo combativo han perdido influencia. La mayoría de la dirigencia pertenece al PS, PC, y "renovadores". El PC en los últimos 2 años a ido recuperando incidencia.

En tanto el PVP ha disminuido su gravitación en varios gremios en los últimos 4 años, le queda como lugar de importancia el sindicato del Gas. Mientras que la gravitación MLN-MPP no es de fácil ubicación. Tienen militancia en varios gremios pero su política sindical es muy diversa, casi que varía de gremio a gremio. El PT sobre aparece con cierta gravitación en el gremio de la construcción.

Especialmente en los dos últimos años las luchas obreras han cosechado derrota tras derrota. La Central no ha funcionado como tal. Lo concreto ha sido la coordinación, puntual, de algunos gremios en conflicto.

El sentimiento de impotencia fue en aumento. La Central no dio respuesta a los tremendos problemas obreros y generó la atomización de luchas. La mayoría de ellas hechas en tremenda desigualdad de fuerzas.

Pero, esta situación produjo un hecho. La masa obrera en virtud de la experiencia vivida y la desocupación que golpea sin piedad se ha tornado poco propensa a respaldar posiciones de lucha. Episódicamente aparecen situaciones de "explosión" que tienen buen tono.

Por lo regular a esta altura ganan elecciones dirigentes desprestigiados y que han sido muchas veces repudiados por las bases. Esto por lo generalizado refleja una situación y sugiere una lectura.

Al mismo tiempo parece estar afirmándose un estamento obrero, bien pago, que no quiere saber mucho de problemas generales y sindicales.

Todo esto ocurre en el marco del crecimiento de la cultura individualista de cuño burgués que los medios y el resto del aparato ideológico inyectan a diario.

Tenemos que ajustar nuestra política sindical a esta nueva realidad. Ver cuales son ahora los pasos a dar para ir operando una modificación positiva.


Las clases oprimidas como "sujeto" revolucionario


Dice el documento anterior: "Nos hemos planteado, en primer lugar, la necesidad de un desenlace popular como corolario de un largo proceso de luchas de orientación revolucionaria..." Agrega: "Claro está que en países capitalistas atrasados y dependientes como los latinoamericanos -con su particular estructura económica y de clase que ello determina- no puede pensarse en las posibilidades de una revolución protagonizada exclusivamente por los nucleamientos del proletariado fabril y quizás ni siquiera por los asalariados en su totalidad.

Menos aún en este momento histórico, donde por ejemplo nuestro continente tiene enormes contingentes de desocupados y semiocupados. Donde las estadísticas nos dicen que más de la mitad de sus habitantes están en la pobreza o por debajo de la línea de pobreza.

Es preciso pensar en la construcción, como herramienta estratégica básica de un frente de clases oprimidas que procure tener como núcleo central a la clase trabajadora pero que incluya además a los trabajadores rurales, campesinos, a la gran diversidad de trabajadores por cuenta propia -sector progresivamente engrosado por la crisis y las respuestas del sistema ante los cambios tecnológicos-, a los marginados que reclaman trabajo, al estudiantado". Es posible que haya que agregar aquí reivindicaciones por derechos de distintos sectores, tales como el movimiento negro, feminista y otros derechos humanos. Y considerar especialmente, desde determinado ángulo, la problemática ecologista.

Sin dejar de tener presente a la clase trabajadora, globalmente el "sujeto" es el espectro de clases oprimidas. Como lo afirma el documento: "El frente de clases oprimidas a que hacemos referencia se constituye como una red de relaciones permanentes, ligadas programáticamente, de la multiplicidad de organizaciones de base capaces de expresar en la lucha los intereses inmediatos de estos sectores sociales y de desarrollarlos y profundizarlos en el sentido de metas y orientaciones de tipo transformador..."

Esto se traduce en un trabajo de la organización en una variedad de problemas: luchas por la vivienda, contra los desalojos, por la defensa de fuentes de trabajo, apoyo a luchas obreras, defensa de conquistas y derechos humanos, la salud y la enseñanza, la Previsión Social, los jóvenes etc.

Las formas organizativas para poder abarcar un proceso de trabajo militante tan variado es todo un tema y ya hay cierto concenso en su aspecto básico. El tema tendrá su desarrollo en el capitulo: Nuestro Programa hoy.


Aspectos culturales con fuerte implicancia política


El aumento de agresividad e incidencia de la ideología liberal-democrático-burguesa después de la caída de los llamados países de "socialismo real" ha traído su resaca hasta las playas del movimiento popular.

Los "intelectuales" del sistema han teorizado sobre la muerte de las ideologías y el fin de la historia. Los intelectuales progresistas e izquierdizantes se han apurado a rebajar sus discursos. Para unos y otros, finalmente, el horizonte no pasa el mundo burgués. Hay que hacer lo que se pueda dentro del sistema y su marco social.

En esta escalada ideológica la burguesía inunda el medio social con sus valores: egoísmo e individualismo. Ataca la solidaridad y el sentimiento de lo colectivo. "Libertad" para poder tener todo el poder y la riqueza posibles, y la competencia y el éxito como valores que fundamentan y legitiman.

Empresas y mercado son dioses supremos. Una infame pleyade de tecnócratas y comunicadores revisten de tecnicismo esta situación social.

La sociedad debe respirar por todos los poros esta andanada ideológica con predominancia de términos económicos.

Es una verdadera escalada ideológica de la burguesía. Es una disminución de las concepciones anticapitalistas; aunque no todas las concepciones anticapitalistas han estado a su alcance.
Lo que tradicionalmente se ha designado como pensamiento socialista y progresista se encuentra disminuido, muy lavado o girando hacia el centro.

La "ingeliggentzia" de izquierda, independiente y progresista fue acomodando su discurso. La mayoría de estos intelectuales han ido haciendo abandono de cierto tono anticapitalista y de propuestas de socialismo como alternativa a este sistema. Aún el reformismo clásico a dado un paso hacia la "derecha".

Son todas concepciones de inserción al sistema y apenas si bosquejan algún planteo de cambio muy tibio que no ataca estructura alguna. Son intelectuales que asumen una postura muy "educada" que habilita un diálogo "constructivo" con los personeros del sistema. Algunos intelectuales de izquierda hacen los programas de estudio que solo apuntan a la reproducción social.

Pero la cosa no para solo en el nivel estamentario. Esta intelectualidad pertenece, en gran medida, a partidos políticos, son gravitantes en ellos.

Pero tampoco aquí termina la cosa. El conjunto de factores apuntados, y talvez algunos más que habrá que ir ubicando, determina un ambiente social complicado.

Tal ambiente social está impregnado de individualismo, de poca propensión al esfuerzo y sacrificio en aras de lo colectivo, de vivir el presente sin pensar demasiado en el futuro, de poca expectativa de que el mañana sea mejor que el presente, de inclinación de grupos y personas a ir resolviendo su propio problemas, de alto nivel de atomización en reclamos y propuestas.

La escalada ideológica burguesa procura profundizar determinados efectos sociales, nos sugiere que: no hay otra alternativa de sistema, es este y nada más; lo colectivo es una abstracción, lo que existe realmente es lo concreto personal; la solidaridad es también una abstracción y no acarrea ningún beneficio personal sino lo contrario; la competencia es lo que trae beneficios efectivos; la fraternidad es para los ratos de ocio, hay que poner el acento en el "espíritu de empresa" y en la reafirmación personal.

Mucho de esto, a veces mezclado con otros ingredientes, se encontrará en buena parte de nuevos agrupamientos populares. Sus prácticas, en consecuencia, serán básicamente espontaneístas, convivirán reafirmaciones personales con actividad colectiva, incluso llegando a usar lo colectivo para proyectos personales. En definitiva es predominante la confusión de lo personal y colectivo, su umbral es difuso.

Las lealtades se desplazan a zonas más limitadas, ya no son con una clase, una causa, un porvenir, una esperanza de futuro sino a tal fenómeno parcial y buena parte de las veces por razones afectivas.

En tal marco valores como: responsabilidad, consecuencia, autodisciplina, fraternidad, respeto igualitario, tolerancia real, tienden a ocupar poco espacio.

A nivel de unos 5 mil jóvenes como máximo, en nuestro país, muchos de estos valores se expresan combinados con un nivel, no siempre claro, de enfrentamiento a figuras o símbolos de autoridad-poder. Es una reacción que algunas veces, tiene encauce social de cierta importancia. En tal marco confuso hay un potencial que tiene expresiones combativas y que merece un estudio mayor.
Acotaremos de paso, que el problema de la droga se ha ampliado en los últimos 4 años. Barrios obreros donde su presencia era irrelevante hoy no lo es, abarca a buena parte de su juventud. No se ha ampliado solo el consumo sino también una mayor incorporación de jóvenes a su distribución. Esto plantea nuevos y graves problemas.

Cabe preguntarse, sobre el conjunto de toda la problemática aludida, si hay aquí un embrión de algo nuevo cuyo producto final será el resultado de un largo y complejo proceso y que lo que hoy tenemos són sólo algunos síntomas de algo altamente inconcluso.

De todas maneras, este espectro y tono ideológico está presente en la sociedad uruguaya de nuestro días y es él condicionante para ciertas propuestas y puede al mismo tiempo habilitar otras de signo un tanto distinto al de otras períodos o etapas de nuestra sociedad.
Será necesario trabajar más en la ubicación de esta problemática.


Etapa de resistencia


Las condiciones social-políticas e ideológicas parecen indicar que no se vive una etapa revolucionaria, ni siquiera de acumulación combativa.

Cambios de fondo en el corto y mediano plazo quedan desplazados del horizonte.
Importa precisar esto no para hacer una discusión teórico-abstracta sino para articular nuestro quehacer hoy.

En esta perspectiva "práctica" es que establecemos que la nuestra es una etapa de resistencia.
Decía el Documento: "Resistencia, entonces, para esta etapa. Para fortalecer luchas, para levantar el ánimo, para recrear la confianza en las propias fuerzas, para pensar en un mañana justo, para crear una alternativa colectiva, para combatir el individualismo y el derrotismo, para rescatar la solidaridad, para generar nuevas posibilidades revolucionarias".

Tenemos que trabajar para que el conjunto de las prácticas se inscriban con coherencia en el plano establecido. Es decir, que no coexistan, por inercia del pasado, prácticas en consonancia con otro momento de la sociedad uruguaya con las correspondientes a este momento histórico. El desfazamiento puede acarrear confusión y hacernos rebotar en el medio social.

Resoluciones instrumentales del XII Congreso sobre el punto Frente de los Oprimidos
Podemos decir, indudablemente, que hubo en lo fundamental un enfoque afín, una común preocupación acerca de donde poner el acento en este momento: instrumentación efectiva, funcional, continua, en el quehacer cotidiano de los lineamientos teórico-estratégicos ya resueltos en el anterior Congreso.

Se tiene conciencia que fueron muchos los temas que quedaron para procesar una mayor elaboración. Que hay categorías que sirven de soporte a nuestro discurso que merecen un tratamiento más exhaustivo. También hay conciencia que para todo ello será necesario realizar ciertos estudios e ir al encuentro de una información más precisa.

No es, lo que tenemos, algo acabado, si es que algún saber se puede dar por acabado en algún momento, es sólo un avance, con cierta actualización, que en el estado en que está sirve ya de instrumento para nuestro objeto inmediato.

De todas maneras hay aspectos de ciertas categorías que requieren su profundización y que paralelamente a la acción social-política de la Organización debieran ser atendidas.
Para este momento, sin subestimar las limitaciones a que hacíamos referencia más arriba, puede decirse que hay material suficiente con lo resuelto por el anterior Congreso en todo a lo que hace al nivel teórico-estratégico.

Este parece ser, entonces, el tiempo de precisar instrumentaciones y de llevarlas después a la práctica. Resolver el conjunto de herramientas de acción que nos permitan un tránsito fluido y eficaz por dentro de la estrategia de trabajo ya definida.


Esbozo de propuestas concretas para la primer Etapa de nuestro Programa


Queremos en el término de cinco años lograr una incidencia de cierta relevancia a nivel del movimiento popular. Una incidencia que contenga la orientación general que estimamos necesaria. Como ha dicho la Plenario barrial en 1994, una especie de ROE en consonancia con los tiempos que corren. Ir a la creación y desarrollo de una instancia de "masas" para la que habrá que tener en cuenta aquellas orientaciones y prevenciones que figuran en la Plenaria barrial aludida. Una organización popular que mantenga en todo momento su autonomía, para ello evitar la incorporación de otras instituciones fuertes que tienen su propia dinámica.

Queremos también, simultáneamente, tener una organización política con un desarrollo que nos permita a la vez impulsar la estrategia fijada y efectuar propuestas políticas de tipo general de algún peso.


16 propuestas y recomendaciones de acción para la Etapa Hacia lo externo

1) Trabajar ahora en la perspectiva de un proyecto de 5 años de Frente de Clases Oprimidas.

a) Ir hacia la construcción de un receptáculo social que permita la acumulación. Dada la experiencia hecha en el Espacio, lo que parece posible en lo inmediato es concretar un relacionamiento en base a los 4 05 lugares donde tenemos compañeros o afines. Dejando la coordinación de tipo institucional para más adelante.

b) Conversar con los compañeros de Sindicales la forma de hacer Agrupaciones que puedan en tanto tales formar parte orgánica del Espacio.
Igualmente en otro plano, el sindical y su propia estructura, ver con compañeros del medio la continuidad de una coordinación, que sin integrar orgánicamente el Espacio realice una actividad coadyuvante que habilite instancias de trabajo puntual común.
Estos dos planos de actividad sindical en relación al Espacio para mayor claridad lo desarrollamos un poco más en un anexo que va al final.

c)
Trabajar en aspecto puntuales de Derechos Humanos que se presenten.
Eventualmente hacer algún esfuerzo especial ya sea tomando alguna iniciativa o en hechos como el aniversario del Filtro.

d) En lo interno, ajustar la coordinación de los distintos Frentes de inserción. Asegurar, dentro de nuestras actuales fuerzas, la eficacia y agilidad que la tarea exige.

e) Establecer desde el comienzo el tiempo prioritario que se dedicará al Espacio. Por ejemplo, un tercio del total. Invertir los términos actuales:
acomodar, en la proporción mencionada, el resto de las tareas a esta y no a la inversa.

Obviamente, hay un conjunto de actvidades generales que son las que dan nivel de existencia y cohesionan el proyecto de Frente de Oprimidos. Todas las actividades de la organización que tienden a conformar una estrategia con su programa de trabajo son de F. de O. siempre que se haga ruptura con una dinámica de trabajo que parcializa dicha tarea. No basta cambiarle el nombre a una tarea para que esta cambie su "contenido".

Para decirlo alguna manera, el F. de O. precisa un "marco" que influya sobre las relaciones que lo conforman y que contribuya altamenta a que las partes, entre sí, intercambien influencias en determinada dierección.

No basta decretar vía resoluciones que tenemos una Estrategia, esta es tal si tiene nivel de existencia en la realidad social.

El "marco" a que hacemos referencia, y que debe acompañar e influir en la orientación articuladora puede estar compuesto de "cosas" tales como:

Periódico, boletín, manifiestos, declaraciones sobre determindados hechos, pegatinas, actos, movilizaciones, locales de referencia, accciones conjuntas regulares y cuando las condiciones lo habiliten alguna forma de estructura institucional.

Si no hacemos esto la resolución valdrá de poco, las tareasde cada Frente tenderán a mantener su caracter parcial, "chacral" y absorberán el 90% o más del tiempo militante. Hasta, es más que posible que la tendencia sea, en los hechos, priorizar el desarrollo de la "chacra".

Si esto ocurre, no se atenderá el "marco" y se dedicará a este aspecto general, de relevante importancia, e impulsor de la trandormación de la dinámica interna existente, un tiempo irrisorio e insostenido que condenará la actividad al fracaso.

2) Fijarse algunos objetivos para el año 97.

a) Concretar un pequeño aparato de propaganda que pueda estar en los acontecimientos relevantes con cierta rapidez. Dada la importancia de este punto hay que priorizarlo como corresponde. Que no nos vuelva a pasar como en el año 1996 que, si bien hubo momentos en que marco presencia, no pudo conformarse con solidez.

Designar una Comisión de Agitación y Propaganda que esté compuesta por compañeros de las diferentes agrupaciones. Compañeros liberados de tiempo para que efectivamente puedan trabajar en propaganda. Al mismo tiempo será responsabilidad de las Agrupaciones el seguimiento de la labor de los miembros designados.

b) Una presencia callejera cada tres meses como mínimo, murales, volantes, manifiestos, apoyo a luchas, participación en algunas manifestaciones, etc.
Como la consigna expresa en síntesis una línea política importa escogerla con mucho cuidado. Ella ayudará a prestigiar en el acierto o a desprestigiar en el error. No obstante la consigna casi siempre, salvo las de caracter general, están relacionadas con problemas urgentes, situación esta que exige agilidad, rapidez. Parece que el mecanismo agil que contemplar los dos términos planteados es la decisión del Secretario de Organización sobre la pertinencia de la consigna a lanzar.

c) Preparar con tiempo el 1º de Mayo del Cerro y Maroñas.

d) Preparar también con tiempo el planteo que tienda a asegurar la continuidad de la marcha estudiantil del 24 de Julio en recuerdo de Heber Nieto. Si no hacemos nosotros un esfuerzo es más que probable que esta marcha sea anulada.

e) Realizar algunas actividades culturales, charlas o debates a nombre del Espacio en diferentes lugares. Hay que asegurar unas 50 personas como mínimo en tales eventos.

f) Estudiar la posibilidad de sacar un periódico de 8 páginas cada 3 meses que sea la expresión del Espacio. Para aprovechar el relacionamiento de 7 años continuar con el nombre de "Solidaridad", que al mismo tiempo de tener historia expresa simbólicamente el contenido del Espacio. Antes de sacar el periódico hay que realizar un trabajo previo que asegure una adecuada distribución en medios populares.

g) En el correr del año avanzar lo máximo posible en temas como drogas, jóvenes y educación en relación con la exigencia del proyecto general del Frente de oprimidos.

h) Encarar una tarea regular de información precisa sobre el estado actual del movimiento popular en todos aquellos aspectos que interesan en lo inmediato.

3) En este primer año darle continuidad al Espacio en base a cosas fundamentalmente puntuales, lo que no excluye tomar algunas iniciativas y mantener alguna actividad general permanente.

a) No dotarlo de una estructura institucional que requiera una reunión semanal por ejemplo. Sí tratar de darle una estructura de relacionamiento, vale decir, darle continuidad a las relaciones de diferente manera a las "formales institucionales".

b) Hacerlo expresar fundamentalmente sobre temas sociales que anden en el ambiente.

c) Asegurar su nivel de existencia a través de elementos como: Periódico, manifiestos, pintadas, adhesiones, locales de referencia, presencia en luchas. Es de particular importancia establecer una consigna -o varias que se pinten todo el año a nombre del Espacio. Puede ser: contra la carestía, contra la desocupación, sobre la represión. Quizás en ese orden.

4) Ver como podemos hacerlo jugar para disminuir cierto aislamiento. Es notorio que, al pasar cada vez más hacia una vida institucional de tipo oficial, los grupos de planteo radical y la situación del propio contexto social, en algunos aspectos nuestro aislamiento se ha acentuado en estos 2 últimos años. Pese a ello nuestra organización en otros aspectos a podido sortear el aislamiento, no se ha estancado y fue aumentando su presencia en el medio. Pero el panorama ofrece sus peligros y exige estar atento.

a) Estudiar en cada caso puntual la posibilidad de ampliar la actividad con coordinaciones informales y a término. Analizar esta posibilidad en cada Frente para aplicarla cuando la oportunidad se presenta.

5) Las actividades sociales (las políticas también aunque parece que en menor grado) revisten un carácter irregular. Son intermitentes. No se estabilizan, tienen un fugaz momento de florecimiento y después comienzan lenta o rápidamente a decaer hasta su liquidación. En las de carácter general es más notorio que en las que tienen características parciales, un Sindicato comparado con una Federación, por ejemplo.

a) Hacer un seguimiento atento de esta situación y contemplarla especialmente en nuestro proyecto.

b) No nadar contra la corriente largos trechos, la extenuación puede ser la consecuencia obligada. No pensar que nosotros con nuestra sola fuerza podremos modificar esta situación general. Tampoco hacer un resignado seguidismo, pero, no tratemos de dar una continuidad ha algo que tiene una dinámica distinta, muy precisa y fuerte. Operar atento a esta realidad tratando de obtener la continuidad posible, que por ahora no será la de décadas anteriores.

6) Establecer como eje orgánico principal de la actividad del Espacio el barrio. Que este pase a ser lo que el sindicato en otros momentos. Esta parece ser la unidad que comprende, hoy por hoy, un espectro amplio de actividades y es lugar donde resulta posible una interesante continuidad y crecimiento.

a)
Ver la experiencia de "Las Acacias" y Cerro y sobre ella elaborar el criterio práctico de la acción del Espacio en su dimensión barrial.

b) Ajustar la relación de los otros frentes dentro de este lineamiento del proyecto.
Hacia lo interno

7) El grado de desarrollo de la actividad exterior debe ser acompañado con uno semejante en lo interno. Se trata de capitalizar toda la labor hecha afuera y quedar en condiciones de seguir impulsándola.

a) Procurar actividades y actitudes que mejoren la información y formación del militante. Los tiempos que corren piden ductilidad y creatividad al mismo tiempo que firmeza. Ver la forma de la creación de un clima que contribuya a fomentar el interés por la lectura y la información. Debe tenerse en cuenta que si no hay interés del militante no hay formación posible.

b) Aumentar la actividad del local con charlas y videos, tirando a que se realicen no menos de 4 meses por año. Tratar de que esta sea una forma de acercamiento de las relaciones que se van estableciendo con la acción exterior.

c) Mantener pegatinas generales cada 3 meses por lo menos. Ver de aumentar la cantidad de muros.

d) Seguir con los dos actos anuales: el del 1º de Mayo en el Stella y el de jóvenes en el local. Lo mismo para la Lucha Libertaria (3 o 4 anuales) y Opinión de FAU las que sean posible.

8) En Relaciones internacionales intensificar lo que queda comprendido en el Mercosur. Dentro de esto la prioridad del año establecerla para Brasil, continuando la política del 1996. Ver, como ocurrió durante el año 96, que materiales están precisando y procurar su elaboración. Ayudar a la formación de nuevos grupos. Se harán mejoramientos técnicos a través del acceso a Internet.

a) Realizar alguna visita más a Brasil y Rosario. Ir a Chile a tomar contacto con el nuevo grupo. Tratar de aumentar las relaciones con Paraguay, Bolivia y otros grupos argentinos.

b) Continuar con el Encuentro informal de jóvenes. Organizar otra instancia a la altura de agosto. Tratar de que se consoliden cosas que quedaron en proceso, darle a las bases mayor contextura antes de hacer el lanzamiento "formal".

c) Mantener con la actual atención el resto de las relaciones, teniendo siempre presente la prioridad para con los grupos de América Latina.

d) En Europa continuar con la relación especial para OSL y Alternativa Libertaria dentro de los grupos específicos. Procurar aumentar la relación con el grupo de Irlanda que también es especifista. En Norteamérica mantener en el mismo nivel actual de relaciones a Chomsky y Otero. Con el resto el mismo intercambio fraternal que hay ahora.

9) Procurar la formación de una nueva Agrupación sindical como estaba ya planteada. Lo más interesante sigue siendo la Construcción, le siguen la Salud, la Bebida y Magisterio.

a) Esto es vital para fortalecimiento interno de la organización y para darle, al mismo tiempo, mayor consistencia al Espacio.

10) Frente estudiantil. Sobre este tema no han circulado materiales que oficien de borrador. Igualmente pensamos que puede ser útil el realizar aquí algunas consideraciones preliminares.

a) Debe orientar la tarea estudiantil el mismo criterio general que existe para los otros Frentes. Vale decir, que el criterio político que se establece para la elección de lugares, prioridades, para barrial y sindical, deben correr para estudiantil. Ver aquí también, entonces, que lugares, que centros de estudio, son los que importan, hoy y en el estado actual del proyecto, a la organización. Acto seguido procurar que su militancia cubra esos lugares. A esta altura parece necesario una aclaración. No debe confundirse el gusto, la inclinación, la preferencia personal por un estudio determinado con lo que interesa al colectivo. Son dos planos que deben ser necesariamente diferenciados. La preferencia personal, altamente respetable, no hace al proyecto militante. Es decir, no puede la organización dedicar tiempo militante a aquello que está por fuera del proyecto político actual que articula con realismo su potencial.

Para decirlo de una manera gráfica, no puede quedar la organización al serviciode las preferencias personales de estudio, sino que a la inversa, desde el ángulo colectivo, es el militante estudiantil que debe cubrir aquellos centros que fueron fijados como parte necesaria y priorizada dentro del proyecto político de la etapa.

Si de lo universitario -o semejante- se tratara, la consideración concreta que sigue es indicadora del criterio sugerente.

Por ejemplo, si a la organización le interesa una agrupación Sindical de:

la contrucción, la salud, magisterio, todo parece indicar que debe priorizarse lugares de estudio como: magisterio, escuela de enfermería y escuela de la construcción de UTU.

Igualmente si la Organización necesita determinados saberes para su información y producción teórica debe verse en función de este objeto que Centros de estudio deben escogerse.

b) Para lo liceal el criterio general tendría que ser el mismo. Se escogerían aquellos Liceos que quedan dentro de una zona donde tenemos Agrupación barrial. Por ejemplo, si del Cerro se trata: Bauzá, La Teja, Liceo 11.

c) Claro está que surge la pregunta siguiente de manera natural: ¿adonde van los compañeros que no están en los centros de estudio fijados por la Organización en función de la Estrategia de desarrollo del F. de O.?

Es tema a considerar en concreto. Pero se puede arriesgar una respuesta inicial. Pueden ir a tareas militantes internas o barriales.

d)
Estudiar la forma de integración de compañeros provenientes del medio estudiantil. Establecer que características militantes interesan a la organización en este frente específico, cuales son los elementos que se considerarán fundamentales para la entrada a la organización.
Referido a lo liceal parece corresponder a las agrupaciones barriales el procesar a los simpatizantes con miras a mayores grados de integración.


Referido a lo universitario es necesario estudiar el tema.


11) Debemos redoblar esfuerzos para contar con medios de comunicación que nos permitan un contacto mayor con gente. Este año hemos dado un paso importante con las radios. Tenemos proyectos de tiempo atrás relacionados con videos, habría que ver si en el correr de este año podemos concretar uno, el de Molaguero por ejemplo.

Hay que ensamblar la actividad de radios con el Frente de Oprimidos y sus tareas. Es necesario producir pautas generales del accionar de las radios que a la vez que comprendan su especificidad den la adecuada cabida al proyecto de la Organización. Para la producción de estas pautas parece pertinente designar un compañero por cada una de las dos radios que hoy funcionan. Ellos serían los encargados de confeccionar un borrador para que oportunamente lo considere el Consejo Federal.

12) A nivel de la tarea barrial, que hemos pensado como eje del Frente de Oprimidos, hay que ver de profundizar la política que ya comenzara este año la Agrupación "Las Acacias" consistente en ampliar la zona de acción. El Cerro puede intentar el comienzo de una ampliación regular con La Teja. Sobre temas puntuales ya hay algo hecho.

13) La labor editorial y la imprenta. Hay planteada una ampliación de la tarea editorial. Se trataría de editar algunos libros cada año. Ya ha resuelto el Federal la autonomía financiera de esta actividad a los efectos de facilitar su inicial proyecto. Es importante que esta actividad se vaya desarrollando en el tiempo marcado para el proyecto general. Lo mismo vale para la imprenta. Parece necesario editar algunos folletos: Bakunin, Malatesta, Chomsky a los efectos de la difusión de nuestras ideas. La carencia de estos materiales crea limitaciones. Es necesario "recortar" en estos teóricos aspectos y problemáticas que están hoy y aquí en el tapete.

14) Hemos dejado casi para el final una consideración que estimamos de importancia. Se trata de que ha esta altura parece imprescindible, para asegurar un mayor crecimiento y dar estabilidad a lo ya logrado, mejorar la infra de "Las Acacias".

En particular nos referimos a lograr un local propio. Para nuestro proyecto de Espacio es fundamental que los dos polos barriales de desarrollo tengan su propio local. Sabemos todo lo que esto posibilita, más en un momento disperso como este. El Cerro sirve de ejemplo de lo que un local permite.

Que el 97 tenga en materia de infra una prioridad: concretar un local para el desempeño de la labor de "Las Acacias". Esto fortalecerá a lo interno y al Espacio. Y, en el marco de lo anterior se propone la creación de un fondo para tal fin exclusivamente.

15) Sobre la problemática Frente de Oprimidos ya se han dado múltiples instancias de discusión y resolución: "mezclas" federales y congresos.

Ahora es momento de poner el acento en el aspecto instrumental. Es de recalcar que están dadas por Carta Orgánica las instancias competentes para el nivel de instrumentación: los secretariados.
Como muchas veces se han pasado temas al Federal que no son de su competencia, nos parece oportuno resaltar que hay que tener cuidado en esta oportunidad de que no se nos tranque la puesta en práctica de los acuerdos con idas al Federal de temas que no corresponden.

Hay que fortalecer y respaldar toda la labor de los Secretariados para que impulsen la actividad referida. Que actúen con decisión y con la autonomía establecida para su nivel.

Un uso inadecuado del Federal desacredita sus funciones y hasta puede ser, sin quererlo, un escollo para que los otros niveles actúen con eficacia.

16) Fraternidad y solidaridad. A propósito, por el valor que todos le adjudicamos, hemos dejado para el final este capítulo. Es una forma de destacarlo.

Dice nuestra Declaración de Principios: "Entre nosotros, fraternidad y solidaridad no pueden ser palabra vana, deben ser un esfuerzo y una conducta... La organización debe ser una escuela ética, de acuerdo con los valores que propugnamos".

A nadie se le escapa que vivimos un momento en que hay una reducción del espacio para valores que mucho estimamos. Quizás los efectos negativos dejados por la dictadura, el individualismo inyectado por los medios, el descreimiento en tantos símbolo, la angustia y desesperación por la situación económico-social que vive la mayoría del pueblo, la falta de una perspectiva cercana de mejoría social y tantos otros factores que no ubicamos, han creado un cierto clima moral y afectivo que se expresa con bastante asiduidad. Nos referimos a esas reacciones que permiten descalificaciones personales de un momento a otro ante nimios episodios, ha efectuar juicios morales con ligereza, a que rápidamente, sin mediar episodio relevante alguno, una persona pasa de buena a mala. Nos referimos a ese clima de desconfianza en la persona humana, donde como si se estuviera esperando su error para confirmar que de barro somos; a ese clima tenso, propenso a lo agresivo, como queriendo aliviar nuestra carga volcándola en la relación. A esa actitud donde lo importante es lo de uno y lo de los demás es otra cosa. A esa sustitución del comportamiento por enunciados pomposos y vacíos, a verbalizar valores sin practicarlos.

Todo esto hace que se afeen las relaciones humanas y se rompan lazos sobre los que descansan posibilidades de acción colectiva.

Esto está en el ambiente social hoy, así parece. Más que nunca debemos tomar las providencias para que no pase él a constituir parte de nuestra vida social interna. Obviamente esto debilita, atomiza, quita cohesión, conflictua, hace perder perspectivas.

La fraternidad y la solidaridad siguen siendo armas fundamentales para un ambiente espiritual sano y para producir ganas de hacer. Su práctica no viene con una convocatoria, menos en este tiempo, es una tarea diaria y un esfuerzo. No importa que no estemos nunca en lo perfecto, lo importante es procurar caminar siempre lo más cercano posible a esos valores.

A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ESPECÍFICA


Federacão Anarquista Uruguaia (FAU)

A FAU pretende ser uma expressão política dos interesses das classes dominadas: exploradas e oprimidas; colocando-se a serviço delas, aspira ser um motor das lutas sociais.

Um motor que, nem as substitui e nem as representa. Mas que pretende dinamizá-las e organizá-las, contribuir para a superação do aspecto meramente espontâneo, transcender os vaivens da conjuntura e assegurar a continuidade das rebeldias, das lutas cotidianas, das expectativas, aspirações, etc.

Para nós, a organização política é também o âmbito em que se vai acumulando a experiência de luta popular, tanto em nível nacional como internacional. Uma instância que impede que se dilua o saber que os explorados e os oprimidos vão adquirindo com o tempo.

A organização política atua ainda como local de produção das análises conjunturais e das orientações fundamentais pertinentes. Por isso, é a organização política a instância adequada para assumir os distintos e complexos níveis de atividade, que o trabalho revolucionário pode exigir, a única instância capaz de assegurar o conjunto de recursos técnicos, materiais, políticos e teóricos, etc. que são condição indispensável de uma estratégia de ruptura.

Nossa visão da organização política é contrária às distintas formas de “vanguardismo”, de “guardiões da consciência”, enfim, de grupo auto-eleitos, que se sentem tocados pelo dedo de Deus. A organização, mantendo e promovendo o espírito de revolta, assume como próprias todas as exigências presentes e futuras de um processo revolucionário. E a partir do trabalho militante organizado, e somente a partir dele, que se pode promover coerentemente e com força redobrada a criação, o fortalecimento e a consolidação das organizações populares de base, que constituem os núcleos do poder popular revolucionário. A organização política não é uma coisa acabada, e está sujeita a influências diversas que vão exigindo adequações. Também é uma instância especial de aprendizagem em relação às lutas sociais com as quais se articula. E finalmente, no estrito âmbito da ação política (e não desconhecemos a existência de outros, mas reivindicamos o político como um âmbito separado) a FAU aspira ser a ferramenta para tornar realidade nossos princípios libertários.


* Trecho da Carta de Princípios. Tradução Felipe Corrêa.

A Importância da Teoria


Huerta Grande - A Importância da Teoria


Para entender o que acontece(a conjuntura) é preciso poder pensar corretamente. Pensar corretamente significa ordenar e tratar adequadamente os dados que se produzem, em quantidade, sobre a realidade.

Pensar corretamente é a condição indispensável para analisar corretamente o que acontece em um país em um momento dado da História desse país ou de qualquer outro. Isso exige instrumentos. Esses instrumentos são os conceitos. Para pensar com coerência é necessário um conjunto de conceitos coerentemente articulados entre si. Se exige um sistema de conceitos, uma teoria.

Sem teoria se corre o risco de pensar cada problema só em particular, isoladamente, a partir de pontos de vista que podem ser diferentes em cada caso. Ou em base a subjetividades, palpites, aparências, etc.

O partido pode evitar graves erros porque pensou a si mesmo a partir de conceitos que têm um grau importante de coerência. Também cometeu erros graves por um insuficiente desenvolvimento de seu pensamento teórico enquanto Organização.

Para propor um programa é preciso conhecer a realidade econômica, política, ideológica de nosso país. O mesmo vale para se formular uma linha política suficientemente clara e concreta. Se conhece-se pouco e mal não haverá programa e só poderá haver uma linha muito geral, muito difícil de concretizar em cada lugar em que o partido trabalhe. Se não há uma linha clara e concreta não há política eficaz. A vontade política do partido corre então o risco de diluir-se. O "voluntarismo" se converte em fazer com boa vontade o que vai aparecendo. Mas não se incide de modo determinado sobre os acontecimentos, na base de sua previsão aproximada. Se é determinado por eles e perante eles se atua espontaneamente.

Sem linha para o trabalho teórico, uma Organização, por maior que seja, é confundida por condições que ela não condiciona nem compreende. A linha política pressupõe um programa, ou seja, as metas que se quer alcançar em cada etapa. O programa indica que forças são favoráveis, quais são os inimigos e quem são os aliados circunstanciais. Mas para saber isso é preciso conhecer profundamente a realidade do país. Por isso, adquirir agora esse conhecimento é a tarefa prioritária. E para conhecer é preciso teoria.

O partido necessita de um esquema claro para poder pensar coerentemente o país e a região (América Latina) e as lutas do movimento operário internacional através da História. Precisamos ter um cabedal eficaz para ordenar a massa crescente de dados referentes à nossa realidade econômica, política e ideológica. Precisamos ter um método para tratar esses dados. Para ver quais são os mais importantes, quais se precisa primeiro e quais depois. Para poder assim administrar corretamente nossas forças disponíveis para cada frente de trabalho. Um esquema conceitual que permita vincular umas coisas com outras, seguindo uma ordem sistemática, coerente e que nos sirva para o que queremos fazer como militância de partido. Que nos aproxime exemplos de como trabalhar com esses outros esquemas conceituais que atuam em outras realidades.

Mas este trabalho de conhecer nosso país teremos que fazer nós mesmos, porque ninguém vai fazer por nós.

Não iremos inventar esquemas teóricos a partir do zero. Não vamos criar uma nova teoria em todos os seus termos. E é assim por causa do atraso geral do nosso meio e suas instituições especializadas e nossa escassa disponibilidade para empreender essa tarefa.

Teremos, então, que tomar a teoria conforme vamos elaborando, analisando-a criticamente. Não podemos aceitar qualquer teoria de olhos fechados, sem crítica, como se fosse um dogma.

Queremos estudar e pensar o país e a região como revolucionários. Então, entre os elementos que incluem as diferentes tendências da corrente socialista, tomaremos sempre os elementos que melhor nos sirvam para isso: para pensar e analisar de forma revolucionária o país, a região ou outras regiões e experiências.

Não iremos adotar uma teoria para pô-la em um "cartazinho de moda". Para viver repetindo "citações" que outros disseram em outros lugares, em outro tempo, a propósito de outras citações e problemas. A teoria não é para isso. Para isso a usam os charlatães.

A teoria é um instrumento, uma ferramenta, serve para fazer um trabalho, serve para produzir o conhecimento que necessitamos produzir. A primeira coisa que nos interessa conhecer é o nosso país.Se não nos serve para produzir novos conhecimentos úteis para a prática política, a teoria não serve para nada, se converte em mero tema de palestra improdutiva, de estéril polêmica ideologizante.

Quem compra um grande torno moderno e, ao invés de tornear fica falando do torno, faz um mal papel, é um charlatão. Da mesma forma aquele que, podendo ter um torno e usá-lo, prefere tornear à mão, porque era assim que se fazia antes...

ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE TEORIA E IDEOLOGIA

Cabe aqui pontuar algumas diferenças entre o que habitualmente se chama teoria e ideologia.

A teoria aponta para a elaboração de instrumentos conceituais para pensar rigorosamente e conhecer profundamente a realidade concreta. É neste sentido que se pode falar da teoria como equivalente à ciência.

A ideologia, em troca, é composta de elementos de natureza não científica, que contribuem para dinamizar a ação, motivando-a, baseada em circunstâncias que, ainda que tendo relação com as condições objetivas, não derivam dela, no sentido estrito. A ideologia está condicionada pelas condições objetivas, ainda que não seja determinada mecanicamente por elas.

A análise profunda e rigorosa de uma situação concreta, em seus termos reais, rigorosos, objetivos, será assim uma análise teórica de caráter o mais científico possível. A expressão de motivações, a proposta de objetivos, de aspirações, de metas ideais, isso pertence ao campo da ideologia.

A teoria torna precisa, circunstancializa as condicionantes da ação política: a ideologia motiva-a e a impulsiona, configurando-a em suas metas "ideais" e seu estilo.

Entre teoria e ideologia existe uma vínculação estreito, já que as propostas destas se confundem e se apoiam nas conclusões da análise teórica. Uma ideologia será tanto mais eficaz como motor da ação política, quanto mais firmemente se apoie nas aquisições da teoria.

OS ALCANCES DO TRABALHO TEÓRICO

O trabalho teórico é sempre um trabalho que se sustenta e se baseia nos processos reais, no que acontece na realidade histórica. Sem dúvida, como trabalho, se situa inteiramente no campo do pensamento: não há conceitos que sejam mais reais que outros.

A respeito disso cabe pontuar duas proposições básicas:

1 - A distinção entre a realidade existente, concreta, os processos reais, históricos e por ouro lado os processos do pensamento, apontados ao conhecimento e compreensão daquela realidade. É necessário, para dizer em outros termos, afirmar a diferença entre o ser e o pensamento, entre a realidade tal como é e o conhecimento que sobre ela se pode ter.

2 - A primazia do ser sobre o pensamento, da realidade sobre o conhecimento. Dito de outra maneira, é mais importante, pesa mais como determinante do curso dos acontecimentos o que se passa na realidade, do que o que sobre esses fatos se possa pensar ou conhecer.

A partir destas afirmações básicas, cabe realizar certos apontamentos para precisar os alcances do trabalho teórico, ou seja, o esforço do conhecimento guiado por propósitos de conhecimento rigoroso, científico.

O trabalho teórico é sempre realizado a partir de uma matéria prima determinada. Não parte do real concreto, da realidade propriamente dita, senão que parte de informações, de dados e noções sobre esta realidade. Este material primário é tratado, no processo de trabalho teórico, por meio de certos conceitos úteis, de certos instrumentos do pensamento. O produto deste tratamento é o conhecimento.

Dito em outros termos: só existem, propriamente falando, objetos reais, concretos e singulares (situações históricas determinadas, em momentos determinados). O processo do pensamento teórico tem por fim conhecê-los.

Às vezes o trabalho de conhecimento aponta para objetos abstratos, que não existem na realidade, que só existem no pensamento, mas que são instrumentos indispensáveis, condição prévia para poder conhecer os objetos reais (por exemplo o conceito de classe social, etc.). No processo de produção de conhecimento, portanto, se transforma a matéria prima (percepção superficial da realidade) em um produto (conhecimento rigoroso, científico, dela).

O termo "conhecimento científico" deve se tornar preciso no que diz respeito à realidade social. Aplicado a esta realidade, alude à sua compreensão em termos rigorosos, o mais aproximado possível da realidade tal como ela é.

Fica dito com isso que o processo de conhecimento da realidade social, como o de toda realidade objeto de estudo, é suscetível de um aprofundamento teórico infinito. Assim como a física, a química e outras ciências podem aprofundar infinitamente o conhecimento das realidades que constituem seus respectivos objetos de estudo, a ciência social pode aprofundar indefinidamente o conhecimento da realidade social. Por isso é inadequado esperar um conhecimento "acabado" da realidade social para começar a atuar sobre ela tratando de transformá-la. Não menos inadequado é tentar transformá-la sem conhecê-la a fundo.

O conhecimento rigoroso, científico, da realidade local, de nossa formação social, só se conquista trabalhando sobre informações, dados estatísticos, etc., por meio dos instrumentos conceituais mais abstratos que proporcionam e constituem a teoria, Através da prática teórica busca-se a produção desses instrumentos conceituais, cada vez mais precisos e mais concretos, que conduzam ao conhecimento da realidade específica de nosso meio.

Somente a partir de uma compreensão teórica adequada, ou seja, profunda e científica, podem desenvolver-se elementos ideológicos (aspirações, valores, ideais, etc.) que constituem os meios adequados para a transformação de tal realidade social com coerência de princípios e eficácia na prática política.

A PRÁTICA POLÍTICA E O CONHECIMENTO DA REALIDADE

Uma prática política eficaz exige, portanto, o conhecimento da realidade (teoria), a postulação harmônica com ela de valores objetivos de transformação (ideologia) e meios políticos concretos para conquistá-la (prática política). Os três elementos se fundem em uma unidade dialética que constitui um esforço pela transformação social que o partido postula.

Pergunta-se: devemos esperar um desenvolvimento teórico acabado para começar a atuar? Não. O desenvolvimento teórico não é um problema acadêmico, não parte do zero. Se fundamenta, se motiva e se desenvolve a partir da existência de valores ideológicos, de uma prática política. Mais ou menos corretos, mais ou menos errôneos, estes elementos existem historicamente antes que a teoria, e motivaram seu desenvolvimento.

A luta de classes existiu muito antes de sua conceituação teórica. A luta dos explorados não esperou a elaboração do trabalho teórico que desse razão para ela desencadear-se. Seu ser, sua existência, foi anterior ao seu conhecimento, à análise teórica de sua existência.

Por isso, a partir dessa comprovação básica é que surge como fundamental e prioritário a atuação, a prática política. Somente a partir dela, em sua existência concreta, nas condições comprovadas de seu desenvolvimento, pode chegar a elaborar-se um pensamento teórico útil. Que não seja uma gratuita acumulação de postulações abstratas com mais ou menos coerência e lógica interna, mas sem coerência com o desenvolvimento de processos reais. Para teorizar com eficácia é imprescindível atuar.

Podemos prescindir da teoria em nossas urgências práticas? Não. Pode existir, admitimos, uma prática política fundamentada somente em critérios ideológicos, ou seja, não fundamentada ou insuficientemente fundamentada em adequadas análises teóricas. Isso é o habitual em nosso meio.

Ninguém poderá sustentar que existe, em nossa realidade e ainda na região americana, uma análise teórica adequada; uma compreensão conceitual suficiente, menos ainda. Esta comprovação é extensiva, por outra parte, ao conjunto da realidade. A teoria é esboçada em uma etapa apenas inicial de desenvolvimento. Apesar disto, há muitos decênios se combate, se luta. Esta comprovação não deve conduzir ao desdém da importância fundamental do trabalho teórico.

À pergunta formulada antes cabe responder então: o prioritário é a prática, mas na condição de eficácia desta radica no conhecimento o mais rigoroso da realidade.

Em uma realidade como a nossa, com a formação social de nosso país, o desenvolvimento teórico tem que partir, como em todas as partes, de um conjunto de conceitos teóricos eficazes, operando sobre uma massa o mais ampla possível de dados, que se constitua a matéria prima da prática teórica.

Os dados por si só, tomados isoladamente, sem um tratamento conceitual adequado, não dão noção da realidade. Simplesmente adornam e dissimulam as ideologias a cujo serviço se funcionalizam aqueles dados.

Os conceitos abstratos, em si mesmos, sem se encaixar em uma base informativa adequada, não aportam tampouco ao conhecimento das realidades.

O trabalho no campo teórico que se desenvolve em nosso país, flutua habitualmente entre ambos extremos errôneos.


Federação Anarquista Uruguaia - Uruguai, anos 70.

FAU - EL COPEY.





Gerardo Gatti, militante anarquista e ativista sindical da CNT e dos gráficos uruguaios, foi um dos vários que ajudou a escrever este documento. Leitura lúcida e crítica da experiência foquista, é também uma defesa do protagonismo popular nos processos revolucionários latino-americanos.








Posição libertária sobre a luta avançada.


Este documento interno da FAU produzido em 1972 abordou o problema da luta armada quando as forças repressivas uruguaias cantavam vitória e faziam destroço da estrutura que restava dos Tupamaros. Estava “na onda”, naquele momento com muito vigor, a concepção denominada como foquismo. O projeto de luta armada dos anarquistas da FAU, diferia profundamente da formulação do foco. Desde que triunfa a Revolução Cubana, começou a formular essa diferença. Em discussões e documentos internos, em Comícios, em Lucha Libertaria, Cartas de FAU, foi se desenvolvendo nossa posição. Finalmente um companheiro se encarregou de sistematizar em um discurso exaustivo, a posição da FAU elaborada nesses anos. Esse trabalho se denominou internamente como COPEY, por razões de segurança. Pela extensão do trabalho, aqui se publica só fragmentos que resumem sua atualidade.



Tem sucedido coisas importantes. Fatos que introduzem variantes significativas para justificar uma revisão de temas táticos, que exigem mais afinamento dentro do novo marco criado por aqueles fatos. Sem dúvida, um dos aspectos mais importantes tem sido a ofensiva repressiva e seus efeitos, já bem visíveis.


...Nesses resultados obtidos pela repressão, a propaganda reacionária pretende fundar conclusões políticas: “A luta armada não é viável no Uruguai, e a violência como o crime não se paga”... Por sua vez os reformistas fazem coro: “A luta aramada não só não conduz ao poder, senão que é contraproducente, compromete o trabalho de massas, e “deixa queimados” os militantes que a levam a cabo”...

As classes dominantes querem impor que todos joguem o seu jogo. Um jogo inventado e previsto por eles, um jogo onde eles não podem perder... A derrota de hoje não é tampouco a derrota da luta armada. Esta existe e existirá como um nível da luta de classes... Sempre haverá organizações que assumam essa tarefa. O que não deve perdurar, é a concepção errônea que tem predominado aqui, até agora nessa matéria. O que está em crise, esperemos que definitiva, é a concepção foquista...


Propostas gerais da concepção foquista


- A necessidade de iniciar a tarefa armada a maior brevidade possível, sempre que existam condições econômico-sociais que a façam viável. Se partia da base, de que estas condições estavam em toda América Latina, como conseqüência do subdesenvolvimento.


- As condições políticas, e ainda ideológicas (chamadas “condições subjetivas”), se desenvolveriam como conseqüência da atividade do foco armado. Daí que a existência ou não da organização política revolucionária fosse considerado secundário, e seguramente não prioritário. A simpatia gerada pela atividade do foco, devia ser enquadrada em grupos cuja função era quase exclusivamente contribuir ao esforço e a vitória militar. Com meras tarefas de apoio logístico e de propaganda, recrutamento, etc. concentradas no desenvolvimento do foco. O desenvolvimento da luta seria medido em termos de crescimento da capacidade operativa... A expectativa e a confiança na vitória militar através da luta armada, era o logro e o requisito essencial no plano ideológico.


- A atividade militar do foco, inauguraria um processo onde cada ação, motivaria uma replica generalizada... Na medida em que a guerrilha fosse operando com uma intensidade maior, a níveis mais altos, a repressão iria endurecendo e se generalizando... Com esta repressão generalizada, maiores seriam as simpatias que convocaria o foco, e por tanto, maiores seriam suas possibilidades de desenvolvimento. Nessa dialética ascendente de ação-repressão, se gerariam condições políticas e sociais cada vez mais favoráveis a luta armada, até culminar em uma situação ideal em que importantes setores de população sustentam a guerrilha, sua “vanguarda armada”, impondo a caída do governo despótico só sustentado pela minoria privilegiada e o aparato repressivo...

A dinâmica antes dita em definitivo – proposta central do foco – emanaria dos êxitos armados... A atividade da guerrilha, a resposta repressiva, fecharia todas as portas a qualquer via que não fosse a luta armada, voltando necessariamente o povo para as filas da revolução. Assim se procederia, por um caminho curto, simples e direto, à “politização das massas”, e seu nucleamento detrás da guerrilha.

A partir dessa linha, foi subestimada a importância de toda tarefa vinculada com a atividade de massas (associativa, sindical, propaganda, atividade política pública) que não apontasse de maneira direta a favorecer o esforço bélico. Uma atividade de massas supunha, distrair esforços em aspectos considerados muito secundários e ainda negativos, que poderiam abrir expectativas e competir com a luta armada. Além do mais, se partia da base de que toda atividade pública, seria rapidamente varrida uma vez desatada a mecânica de ação – repressão, acionada pelo foco guerrilheiro. Dita influencia, pode ser atribuída a maioria dos fracassos experimentados em Cuba, logo do triunfo da revolução.


Nossa concepção de luta armada:


- Ainda com seus fracassos, é inegável que a prática ampla da luta aramada contribuiu decisivamente para modificar as pautas de ação política na América Latina. Desde então está aberto, o problema do método a empregar para desenvolver a via armada da revolução... O sistema capitalista não será destruído seguindo as regras do jogo que ele mesmo gera para garantir sua continuidade. Essa continuidade é a que contribui para manter quem se reduz a fazer só o que a legalidade burguesa permite, ou seja, só o que a legalidade criada e manejada pela burguesia recomenda que se faça.

A luta armada, concebemos como aspecto fundamental da prática política de um partido clandestino, que atua também com base em uma estratégia harmônica e global, a nível de massas. Uma organização é realmente revolucionária, se coloca para si e resolve adequadamente o problema do poder.


Uma pergunta: para que se faz a guerrilha, quais são seus objetivos, seu programa?


Os objetivos de uma revolução condicionam toda a política revolucionária, sem excluir tampouco seus aspectos militares. Daí que seja prévia a toda outra consideração, definir os objetivos, ou seja – em termos gerais o caráter do processo revolucionário no qual se inscreverá nossa prática político-militar...

Nas guerras de independência, a causa é “nacional”... A nação não é mais que a cão burguesa, onde dominam os burgueses. Desde um ponto de vista de classe, o único conceito de “nação” aceitável, é o que envolve a desaparição do capitalismo, a construção do Socialismo. Assim o “interesse nacional” da burguesia, nada tem em comum com o interesse nacional dos trabalhadores. Mas nas lutas anticoloniais, é geralmente a ideologia nacionalista burguesa a que prevalece e aglutina atrás das classes dominantes locais o conjunto da população. A realidade da luta de classes, se obscurece então, atrás da ideologia “patriótica”. Agora, se a guerra não é anticolonial senão social, como é o caso do Uruguai, haverá tantos “patriotismos” como classes sociais estejam em condições de gerar tendências ideológicas...

A guerrilha urbana, não terá nunca o apoio de toda nação, por mais nacionalista que se proclame. Só terá apoio daquelas classes interessadas no Socialismo. Sucederá assim, porque é um tema social e não anticolonial... Não é possível aqui uma luta nacional, ou anti imperialista, a margem da luta de classes. Dito de outro modo. O central e prioritário aqui, é a revolução contra a burguesia nacional dependente, e só através desta se desenvolverá uma verdadeira “causa nacional” do povo... É inútil portanto, incitar a adesão de setores burgueses entorno de uma política revolucionária, por mais que esta se vista de “nacional”.

Tudo parece indicar que a função da guerrilha urbana não é buscar a vitória em um enfrentamento direto mano a mano com o exército... Em definitivo a guerrilha urbana, se de revolução social se trata, parece ter como função idônea preparar o salto, o trânsito qualitativo a outra forma de luta através do qual sim, pode ser conseguida a vitória decisiva no marco urbano, a insurreição. A guerrilha, cremos por tanto, só é legítima como preâmbulo e preparação necessária da insurreição. Dito processo insurrecional implica sempre a participação de setores de massas de certo volume... Tampouco dizemos que é necessário que a metade mais um dos habitantes decidam se levantar em armas para fazer uma insurreição... Como toda ação armada, uma insurreição se decide centralmente por operações, por combate armado mais que por manifestações de rua... Portanto aludimos a uma série de ações de massas de outro nível, subentendido que participe o setor mais dinâmico do povo.

Para nosso entendimento, qualquer forma de ação insurrecional pressupõe necessariamente uma prática militar prévia e a existência de um aparto militar clandestino, previamente organizado, com suficiente capacidade operativa e suficiente experiência para canalizar, organizar e levar a bom porto o processo insurrecional.

Poderíamos definir três requisitos para o êxito